Top PDF O ROMANCE FAMILIAR EM QUE CAVALOS SÃO AQUELES QUE FAZEM SOMBRA NO MAR?, DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES.

O ROMANCE FAMILIAR EM QUE CAVALOS SÃO AQUELES QUE FAZEM SOMBRA NO MAR?, DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES.

O ROMANCE FAMILIAR EM QUE CAVALOS SÃO AQUELES QUE FAZEM SOMBRA NO MAR?, DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES.

No romance a que nos dedicamos neste trabalho, Que cavalos são aque- les que fazem sombra no mar? (2009), é narrada a história de uma família tra- dicional portuguesa na iminência de sua derrocada. O presente e o passado dos Marques são contados por diferentes vozes que frequentemente se entre- cruzam e mesclam: a dos filhos Beatriz, Francisco, João, Ana, Rita (já fale- cida) e a de um filho bastardo não nomeado; a do pai (já falecido), respon- sável por perder a propriedade da família ao investir em apostas; a da criada Mercília, filha bastarda do bisavô Marques; e a da mãe, Maria José, em torno da qual os filhos aparecem reunidos à espera da consolidação da sua morte, às seis horas da tarde de um domingo chuvoso de Páscoa. Marcado pelo “vir- tuosismo linguístico-narrativo” ( ARNAUT , 2009: 41), esse romance, como grande parte da obra de Lobo Antunes, expressa de maneira evidente a dis- solução formal de que se utiliza o romance familiar pós-moderno. Tal deses- truturação começa pelo mais visível na materialidade do texto: o desmembra- mento de frases, “resultado de estranhas translineações e, por consequência, de suspensões semânticas inusitadas (frases entrecortadas por frases de outras personagens ou por comentários da voz que então fala)” ou de “elipses lexi- cais e gráficas” ( ARNAUT , 2009: 42-43):
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A quem pertencem as luvas? Reflexões sobre o relato Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, de António Lobo Antunes art cobylaardt

A quem pertencem as luvas? Reflexões sobre o relato Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, de António Lobo Antunes art cobylaardt

É curioso que tal desordem apresente – como é praxe nos romances de Lobo Antunes – uma moldura simétrica, que parece organizar o texto, conferir-lhe uma consistência metódica que se esvai pelas frestas dos caixilhos, sem lograr reter a integridade da narrativa, que afinal se dispersa além dos limites paratextuais previamente estabelecidos. A suposta ordenação no caso de Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? compreende as fases de uma tourada espanhola – coerente com a condição de criador de touros do personagem em torno do qual falam os filhos –, e sugere evidentemente uma sequência cronológica, e mais do que uma cronologia, uma estrutura narrativa. Temos então inicialmente um capítulo intitulado “antes da corrida”, uma espécie de prólogo cuja estrutura parece antecipar o caos que a moldura tenta desmentir. Em seguida vêm cinco partes que compõem o miolo do livro: “tércio de capote”, “tércio de varas”, “tércio de bandarilhas”, “a faena” e “a sorte suprema”, cada qual contendo quatro capítulos, de tamanhos similares, e ao final há um capítulo à guisa de epílogo, chamado “depois da corrida”. Os títulos das partes referem-se a momentos da corrida de touros espanhola, ou tourada. Assim, toda essa “armadura” pressupõe um jogo, uma corrida, uma sequência, com início, meio e fim bem estabelecidos, até a sorte suprema – a morte do touro. Os dois primeiros tércios têm como função estressar e cansar o touro: no tércio de capote, o volteio
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Um romance discordante: esboços de histórias em Que cavalos que são aqueles que fazem sombra no mar?, de António Lobo Antunes

Um romance discordante: esboços de histórias em Que cavalos que são aqueles que fazem sombra no mar?, de António Lobo Antunes

Parece, assim, que a personagem recusa-se, conscientemente, a afirmar algo que é de seu conhecimento, tanto no que se refere aos nomes, quanto ao destino dos ex-companheiros: “afinal acodem-me os nomes, Ricardo e Afonso, com o Afonso tive um cachorro que passava o dia na alcova a espiar-nos, comia da tigela por condescendência e regressava à alcova de olho suspeitoso a torcer de caminho as franjas do tapete” (ANTUNES, 2009, p. 13). A narração sobre esse passado é abreviada por lembranças de momentos triviais que compunham a vida do casal. Na sequência do relato da personagem, o leitor pode tomar conhecimento das razões dolorosas que justificam essa vontade de esquecer tais momentos: “casei com o meu marido [...] nem aos berros nos ouvíamos, nem juntos nos enxergávamos, nem perto se conhecia o outro, ambos a interrogar o dedo, vieram buscar os móveis, o faqueiro de prata que a tia dele ofereceu e a bicicleta de montanha” (ANTUNES, 2009, p. 17). O leitor consegue perceber, assim, que essas tentativas de apagamento do passado doloroso ensaiadas por essa personagem (e pelas outras personagens também) são sempre falhas, o passado impõe-se ao presente e com ele os efeitos que continuam a provocar esses acontecimentos na consciência de Beatriz.
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Desconstrução e despertencimento em  As Naus , de António Lobo Antunes

Desconstrução e despertencimento em As Naus , de António Lobo Antunes

Daqui parte-se para a análise da mistura do passado com o presente, relevante para o escopo desta pesquisa, e explícita, por exemplo, na cena em que Vasco da Gama e D. Manoel são parados em blitz policial, e o último apresenta, como documento, um “pergaminho de caracteres góticos” (ANTUNES, 1988, p. 185), o qual traz a ideia de passado juntamente com a frase: “Está escrito aí que sou dono deste país” (p. 186), contrastando com a resposta do guarda: “Pelo sim pelo não sopre-me aqui o testezinho do álcool” (p. 186). Posteriormente, nessa mesma sequência, a fala do policial enumera os crimes dos quais os personagens serão acusados, contrastando mais uma vez com a fala alienada da realidade de D. Manoel: “Já lhe disse há bocado que sou o patrão disto tudo”.
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Sôbolos rios que vão, de António Lobo Antunes

Sôbolos rios que vão, de António Lobo Antunes

Como é evidente, as inusitadas técnicas da escrita antuniana, que subvertem os cânones tradicionais da narrativa, fazem vacilar o leitor que está habituado à comodidade (como aduz Roland Barthes) de “uma prática confortável de leitura” (Barthes, 2009: 138) facultada pelo “texto de prazer” (ibid.: 138). Todavia, esse princípio da subversão converte -se num princípio gerador de fascínio nos leitores que apreciam um texto de fruição empenhada, aquele que, segundo Roland Barthes, “desconforta […], faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas do leitor, a consistência dos seus gostos, dos seus valores e das suas recordações, faz entrar em crise a sua relação com a linguagem” (ibid.: 138), no fundo, aquele texto que desafia. E é esta fruição “in -dizível, inter -dita” (ibid.: 144) (como sustenta ainda Roland Barthes) que nos faculta o texto antuniano, onde o não -dito, o silêncio e a indisciplina formal do discurso captam o leitor para den- tro do texto, obrigando -o a mergulhar profundamente até “ao fundo avesso da alma” (Antunes, 2007: 113), ao “negrume do inconsciente” (ibid.: 113) para poder vir a ter “uma voz entre as vozes do romance” (ibid.: 114).
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Textualidades em negativo: a ficção de António Lobo Antunes

Textualidades em negativo: a ficção de António Lobo Antunes

Em pequeno com os meus pais era pequeno demais para lembrar-me. Havia Lagos e não me recordo de Lagos, do mar, da minha mãe jovem. Pessoas intemporais passeiam-me vagamente na memória, a figueira sobre o poço oscila ainda os ramos desfocados, a criada do abade, de mãos cruzadas cobre o avental, sorri. Não, espere, o meu irmão caiu um dia ao tanque, debatia-se nos limos, entre os peixes. Comecei a gritar. Vestiam-nos de igual antes da longa e dolorosa saga de herdar a roupa dos tios. A costureira que lá ia a casa comia em cima da máquina, num tabuleiro, de costas curvadas para o prato. Às vezes sentava-me nos degraus de pedra do quintal, junto à janela para a rua, e apetecia-me chorar. Sem motivo: chorar. Tinha seis, sete, oito anos, não sei bem. Se não se importa, dê-me um cigarro. Mesmo hoje me acontece essa comichão na garganta, essa aflição, o corpo de repente tenso, duro, grávido de uma angústia inexplicável. Aos domingos à noite, por exemplo, quando tudo se torna absurdo, ridículo e triste, e me assemelho a uma múmia acocorada no chão da cozinha, à espera, vem-me à idéia o miúdo nos degraus do quintal, repleto de uma melancolia suave e cruel. E no entanto (você nunca entenderá isto) acho que em certo sentido era feliz: não ia morrer, a minha família gostava de mim, assistia ao caseiro a compor as plantas com os grossos dedos inexplicavelmente delicados, compor uma planta como uma estátua viva, de carne. Pétalas, sépalas, estames, troncos direitos, frágeis, de mulher. Quando o avô morreu o Pedro chegou a casa a correr: tinha já quase voz de homem nessa altura e os olhos dele pareciam dois pingos de verniz. Estão a comprar o caixão para um de nós. De facto, apesar do receio do escuro, da minha solidão selvagem e da falta de massa, era feliz: como diria o Pop Kramer vivíamos sob o olhar de Deus. (...).
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Instantâneos poéticos na ficção de António Lobo Antunes

Instantâneos poéticos na ficção de António Lobo Antunes

professor, uma neta órfã, a Leopoldina, e uma criança de nome Luís Filipe, que, de tempos em tempos, quando sai do internato, ali aparece para uma visita. O papel de mãe do pai Maria Clara preenche com a figura da Adelaide. A mesma Adelaide que viria a ser uma empregada da família com a única função de cuidar da mãe da mãe de Maria Clara. Ao fim, desse elenco imaginário da bastardia paterna, destaca-se Leopoldina, uma espécie de alter ego de Maria Clara que tem com ela um avô em comum. Se, nessa síntese, a história parece confusa, na sucessão de enunciados do livro de Lobo Antunes, também não há garantia de um sentido da ordem para o leitor. E, quanto mais a narradora insiste na coerência narrativa, procurando confirmar com as pessoas de seu entorno suas próprias conclusões – que, aliás, nunca são corroboradas – ou dando prosseguimento à narrativa com suprimento de lacunas por elementos imaginados, mais as possibilidades de significação vão se proliferando, mais difícil ainda se torna para o leitor decidir-se sobre a verdade ou a falsidade dessa história. A certa altura a narradora opta por construir outra história em que o segredo revelado é, do mesmo modo, uma origem humilde que, contudo, não cabe mais ao pai, e sim à mãe. Ainda mais inverossímil, esse outro enredo é também abandonado; e, em dado momento, é a própria narradora que confessa seu poder de inventividade em relação aos desdobramentos narrativos de suas histórias ou mesmo aos personagens que nelas têm um papel. Assumindo a voz analisanda no decorrer de uma sessão, Maria Clara teoriza sobre o fingimento sincero que envolve o ato psicanalítico – e, por extensão, o próprio pacto ficcional no qual está também envolvida:
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A poética da negatividade na escritura de Lobo Antunes

A poética da negatividade na escritura de Lobo Antunes

Segundo Foucault (MACHADO, 2000, p. 155), a literatura-escritura não é a linguagem dos homens, nem da natureza, nem do coração, nem do silêncio. Também não é a fala dos deuses. Só quem fala na literatura é o livro, essa fala que é transgressão à lógica, que é recusa das regras do belo relato, que é repetição incessante e reduplicação contínua, sem princípio e sem plano (ou com um plano impotente, como no caso deste romance), sem limites (ou com frágeis limites) e sem termo. Cena exemplar de reduplicação e repetição é a do suicídio da garota de quinze anos em Ontem não te vi em Babilónia , cena que jamais mostra um suicídio sem cessar de mostrá-lo, e nunca da mesma forma: ora há uma mãe podando ervas, ora insinua-se um cortejo de carros, ora aparece uma corda e uma boneca sob uma macieira, e assim por diante, até que temos como último depoimento a própria voz da enforcada, a qual termina o relato a girar, a girar sem conseguir morrer, seu morre não morre envolto em “mais que três, meia dúzia, uma dúzia, quarenta, sessenta, centenas de borboletas” (ANTUNES, 2006, p. 22).
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Com base em estudo técnico, associação que congrega empresas brasileiras do setor de ônibus urbanos afirma que o transporte coletivo não está relacionado com o aumento de casos de Covid-19 - Mobilitas

Com base em estudo técnico, associação que congrega empresas brasileiras do setor de ônibus urbanos afirma que o transporte coletivo não está relacionado com o aumento de casos de Covid-19 - Mobilitas

É possível observar que nas 13 semanas epidemiológicas que antecederam o pico de casos de COVID-19 foram verificados níveis de viagens realizadas no transporte público por ôn[r]

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Palavras chave: Habilidades; Competência; Novas tecnologias; Docente; Multi-alfabetização; Século XXI

Palavras chave: Habilidades; Competência; Novas tecnologias; Docente; Multi-alfabetização; Século XXI

No entanto, se fôssemos corretos com as crianças, elas teriam que ser alfabetizadas com computador, pela razão simples de que essa máquina (ou algo similar) vai ser parceira delas pel[r]

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Lobo Antunes e Blanchot: o dialogo da  (Figurações da Escritura na Ficção de António Lobo Antunes)

Lobo Antunes e Blanchot: o dialogo da (Figurações da Escritura na Ficção de António Lobo Antunes)

da, “(Cláudia Ramos Benquerença, 21 anos, estudante, cabe- lo castanho, olhos castanhos, 1,65m, natural de Lisboa, fi lha de Jorge Pais Benquerença, industrial, e Olívia Maria Lopes Ramos Benquerença, doméstica)” (p. 45). O motivo da não- -despedida merece um anexo, “(Algumas Divagações, folha apensa, s/ data)” (p. 46). Ao pegar o táxi que o conduziria ao aeroporto, “(Factura n.º 1 da rubrica Despesas)” (p. 46), ele passa pela praça de touros e tem a certeza de que no prédio do Serviço o diretor, o tenente-coronel e o responsável pelo oitavo andar o vigiam. À indecidibilidade narrativa junta-se a temporal quando ele se refere à “imprecisão da manhã” e ime- diatamente situa a cronologia do momento, “(sete e dez no relógio do táxi)” (p. 47), como a confi rmar a exatidão de seu relato: “não remendo isto com palavras, falo do que aconteceu de facto” (p. 47). No trajeto até o avião que o levará a Angola o personagem funde metáfora e metonímia para se transfor- mar num touro que vai para a arena: “Eu um olho peludo, um chifre, uma cauda” (p. 48). Assim, tanto o texto literário quan- to o texto da verdade do mundo terminam por fundir-se em sua disfunção essencial; aquele termina por forçar este para o mundo de baixo, sem apelo, sem perdão.
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Ilustrado por Matt Powell

Ilustrado por Matt Powell

Como você pode perceber, são necessários somente alguns poucos cartões para contar até números muito grandes.. Não, você não precisa ser de outro planeta?[r]

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Lobo Antunes e Blanchot: o diálogo da impossibilidade (figurações da escrita na ficção de António Lobo Antunes)

Lobo Antunes e Blanchot: o diálogo da impossibilidade (figurações da escrita na ficção de António Lobo Antunes)

Jorge, o major preso por conspirar contra o governo, é vítima de tortura mas se recusa a entregar os companheiros de sedição. Ele é então submetido a um intenso sofrimento que lhe altera a percepção das coisas. Preso em Tavira, num quartel próximo ao mar, ouve o barulho das ondas e o cantar dos pássaros, mas não pode vê-los. A impossibilidade de ver a natureza em torno da prisão fá-lo perder a noção de espaço e tempo, levando-o à absurda fronteira com a China. Ele compreende então que tudo em volta dele era falso, lugares, coisas e pessoas; essa não-existência elimina, portanto, o sofrimento; não há mais receio de que alguém possa lhe fazer mal. No final de seu último depoimento, Valadas encontra-se diante do mar, e entrar nas águas equivale a atravessar a fronteira com a China e desembarcar num país desconhecido, do qual já se encontrava em uma região não-identificada, que se assemelhava a Tavira mas não era Tavira.
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As imagens do outro em O esplendor de Portugal, de António Lobo Antunes

As imagens do outro em O esplendor de Portugal, de António Lobo Antunes

Em meio a toda essa ambigüidade e hibridização, os sentimentos de Carlos são predominantemente negativos. É também ambivalente seu olhar dirigido ao pai, o branco deslocado entre os pretos, o bêbado que se dissolve no álcool diante da insolubilidade da vida. A mãe, que ele detesta e despreza, é vista igualmente de maneira dúbia, “a minha mãe da manhã, mais velha e pobre e baixa e feia do que a minha mãe da noite” (p. 62). Os mitos brancos da mesma forma não encontram ressonância na busca vã de identidade de Carlos: é impossível para ele figurar o Papai Noel deslizando pelo território africano “numa espira de neve a trinta e oito graus à sombra”, e descer por uma chaminé que em sua casa terminava no fogão, “arriscando o Papai Noel a fazer companhia ao pato e ao arroz no forno, e além disso não era capaz de conceber como um cavalheiro gordo caberia num tubo estreito e sujo” (p. 35). Tal questionamento do mito por parte de uma criança revela uma total falta de consideração do mestiço angolano-português à mais significativa tradição cristã européia. O mito questionado reaparece quando Carlos, já adulto, lança um olhar de desprezo ao “pinheiro ridículo espetado no vaso com a estrela de lantejoulas no topo, enfeitado como uma cinqüentona triste de grinaldas” (p. 47).
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Tempo, memória e identidade em Os cus de Judas, de António Lobo Antunes

Tempo, memória e identidade em Os cus de Judas, de António Lobo Antunes

é de outra índole a função cultural protagonizada pela arte. As suas características primaciais estendem-se agora pelo domínio do pastiche e pelas noções de esquizofrenia e de sujeito esquizóide (de Lacan e de Deleuze), com as óbvias consequências no que concerne à consumação de uma outra experiência no tempo e no espaço. (ARNAUT, 2002, p. 56). O sujeito esquizóide que encontramos no narrador-personagem de Os cus de Judas participa, paradoxalmente, de uma estrutura cuidadosa e planejada pelo seu autor, que propõe uma outra experiência de tempo e espaço. Além disso, sua narrativa converge com a perspectiva de um mundo no qual “o niilismo consumado é nossa única chance” (VATTIMO, 1996, p. 5). Sua literatura, tanto no que se refere aos seus temas recorrentes quanto às desafiadoras estruturas narrativas, parece convergir com a noção de uma existência atual pós- histórica que Vattimo (1996), apoiando-se em Nietzsche e Heidegger, apresenta. Na perspectiva do filósofo italiano, o caráter supérfluo dos valores que conduzem as relações e que culminam na “consumação do valor de uso no valor de troca” (VATTIMO, 1996, p. 6), somados ao descentramento do homem, apresentam o niilismo enquanto paradigma da pós- modernidade. Não podemos mais nos pautar na ideia de história enquanto progresso nem teleologia, nem ao menos supor uma reapropriação da mesma por parte do homem. Vattimo afirma: “Reapropriamo-nos do sentido da história contanto que aceitemos que ela não tem sentido de peso e peremptoriedade metafísica e teleológica” (VATTIMO, 1996, p. 15). Nas páginas do romance de António Lobo Antunes encontramos este movimento de “‘abandonar o ser como fundamento’, para ‘saltar’ em seu ‘abismo’” (VATTIMO, 1996, p. 15), como exemplifica o trecho abaixo:
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A crônica como um (possível) espaço biográfico

A crônica como um (possível) espaço biográfico

O que Ana Paula Arnaut sugere, observando a tendência à escrita biográfica do primeiro ciclo de romances do autor, é uma análise totalizante: para ela, devemos compreender toda a obra de Lobo Antunes como uma expressão autobiográfica. Tal postura analítica e teórica, contudo, deve ser repensada e calmamente analisada. A produção artística pode ser compreendida, de fato, como uma expressão da interioridade do artista – o que vai ao encontro das palavras de Pamuk, acima citadas. Entretanto, como disse, não é nesse sentido que compreendemos a marca biográfica da escrita; interessam-nos buscar inscrições biográficas factuais e verificáveis nas crônicas, indícios existências na materialidade textual que convoquem o leitor a suspeitar da presença biográfica. As proposições de Arnaut, em alguma medida, negam a composição ficcional da literatura e debruçam-se sobre um tom mais mítico do fazer literário, centrado na figura do autor, posicionamento crítico, a meu ver, simplista.
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Memórias engendradas, ficções do eu António Lobo Antunes, Milton Hatoum e José Eduardo Agualusa: António Lobo Antunes; Milton Hatoum e José Eduardo Agualusa

Memórias engendradas, ficções do eu António Lobo Antunes, Milton Hatoum e José Eduardo Agualusa: António Lobo Antunes; Milton Hatoum e José Eduardo Agualusa

22 coisas ainda mais difíceis. A postura deve ser aquela do estrategista que, com a batalha em mãos, deve ponderar friamente sobre quantos soldados irá perder para que a luta seja ganha. Salvas as diferenças devidas quanto à tipologia textual e à finalidade de cada texto, a saída encontrada por Lobo Antunes pode ser uma solução aqui também: começar por onde o próprio problema começa em nós. Se ao autor faltam as palavras, a crônica escreverá essa falta e isso é o que se presentifica naquele texto: “Estou há meia hora aqui sentado à espera que me venham as palavras para esta crônica e nada. De que é que vou falar?”. O texto segue elencando as possibilidades de assuntos que poderiam ser tratados naquele dia. As quatro páginas de uma lista de quase-histórias e a relutância do escritor diante delas tornam-se, enfim, a crônica. Então, se o problema que entrava uma abertura apropriada na abordagem de um tema complexo – e esse parece ser o problema de grande parte das teses, se não de todas – é a enorme gama de possibilidades que se apresentam sobre o tema a ser tratado, um começo pode se dar no elencar dessas possibilidades. Estratégia por estratégia, assim como no mito, do labirinto Teseu não sairá sem o enfrentamento do Minotauro, mesmo levando consigo o fio de Ariadne.
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O que é a teoria da reprodução social? — Outubro Revista

O que é a teoria da reprodução social? — Outubro Revista

As melhores políticas para promover os interesses da maioria das mulheres são também as mesmas políticas que cortam os lucros do capitalismo como sistema de produção. Por ex[r]

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Duas meninas: dissidências em Guimarães Rosa e António Lobo Antunes

Duas meninas: dissidências em Guimarães Rosa e António Lobo Antunes

Em Que farei quando tudo arde?, Carlos-Soraia figura essa alomorfia incessante como princípio de funcionamento da própria narrativa, já que, para o leitor, a cada novo capítulo, a cada virar de página, a cada novo parágrafo, os sentidos das histórias narradas estão em constante desconstrução e, portanto, exigindo constante renegociação. As tantas versões que dizem e, logo em seguida, desdizem cada um dos fragmentos de biografias inacabadas, as tantas vozes que narram trechos incongruentes de vidas espatifadas fazem eco a uma linguagem que se realiza, precisamente, na textualização do “indecidível” derridiano. A polifonia vertiginosa e atordoante em meio à qual se estrutura essa textualidade “sistematicamente esfacelada” (FRANCISCO, 2011, p. 137) alcança um nível tal que não só se estilhaça e dissipa a consciência de uma autoridade qualquer por trás do narrado, como também se desfazem e diluem todas as consciências de cada eu narrador, numa emergência de discursividades e de vozes que não se pretendem totalizantes, ao contrário, essas vozes insistem em permanecer “em estado de fragmento”, em estado de constante metamorfose.
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Um ciente penar das criaturas – narração e negatividade em Sôbolos rios que vão, de António Lobo Antunes

Um ciente penar das criaturas – narração e negatividade em Sôbolos rios que vão, de António Lobo Antunes

Chegando à questão por outro lado, o que António Lobo Antunes concretiza em grande parte de sua obra e o reafirma em Sôbolos rios que vão é o desrespeito às leis do verossímil, pois esvazia o signo e faz recuar infinitamente o seu referente, para por em causa, de modo radical, as regras secularmente estabelecidas da “representação”. Assim é que o procedimento de narrar a morte “por dentro”, a partir da perspectiva de um narrador agonizante, confere estranheza, choque e potência ao texto, fazendo com que o seu leitor possa celebrar a crença na literatura preconizada por Ítalo Calvino, para quem “há coisas que só a literatura com seus meios específicos pode nos dar”. 7
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