Top PDF Walter Benjamin, tradutor de Baudelaire.

Walter Benjamin, tradutor de Baudelaire.

Walter Benjamin, tradutor de Baudelaire.

Tanto na fortuna crítica benjaminiana, quanto nos estudos da tradução em geral, por muito tempo ignorou-se que esse texto era não tanto uma refl exão teórica abstrata fechada e ligada ape- nas a um outro texto que lhe era anterior (“Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do homem”), mas que era um prólogo, um texto de uma apresentação. Em princípio o texto de um prefá- cio deveria cumprir a função de, por um lado, dar uma interpreta- ção da poética do autor traduzido e, por outro, explicar a visão ou os procedimentos do tradutor. No entanto, o fato de ser esse tex- to uma apresentação – na verdade um tanto enigmática – de um conjunto de traduções de poemas de Baudelaire, autor que sequer é citado no texto, é um dado intrigante que afi nal passou, há al- gum tempo, a ser objeto de investigação, sobretudo, dos estudio- sos da obra de Benjamin. Destaco em particular dois ótimos en- saios: o já citado de Beryl Schlossmann e o texto “‘Como a luz do abismo alegra o que nele cai.’ A tradução de Baudelaire por Ben- jamin”, de Heiner Weidmann. * Por outro lado, também estudio-
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A ruína da tradição em Walter Benjamin e a prosa poética de Charles Baudelaire

A ruína da tradição em Walter Benjamin e a prosa poética de Charles Baudelaire

Existe uma fina analogia entre Walter Benjamin (1892-1940) e Charles Baudelaire (1821-1867). E não apenas evidenciada pelos inúmeros estudos feitos pelo filósofo sobre a obra do poeta francês, mas também, e de maneira surpreendente, devido a muitos aspectos da vida pessoal de cada um que parecem conduzi-los a realidades parecidas, apesar de estarem separados pela linha do tempo. Dentre o amplo espectro de afinidades, escolhemos destacar o olhar incisivo de ambos às coisas mais banais da vida. Inerente a essa postura, nota-se a preocupação de se encontrar uma expressão digna de seu tempo, evitando o colapso total da experiência por conta de sua própria insuficiência de ser transmitida. Para tanto, iniciaremos esta dissertação mostrando quais são as novas disposições sociais que clamam por uma expressão capaz de superar as limitações da linguagem épica na modernidade. Trata-se de saber o porquê dessa necessidade para, posteriormente, no segundo capítulo, focarmos em os Pequenos poemas em prosa de Baudelaire como uma de suas tentativas para dar voz à modernidade como um todo, abrangendo seus conflitos, suas contradições, aquilo que está presente no discurso oficial e o que por ele está esquecido.
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A alegoria moderna de Walter Benjamin: Passagens, Baudelaire e mercadoria

A alegoria moderna de Walter Benjamin: Passagens, Baudelaire e mercadoria

interpretação das alegorias baudelairianas, cujas temáticas principais residem, especialmente, em mostrar a metrópole de Paris e seus habitantes. Cabe ressaltar, contudo, que esse processo ocorre dentro de uma perspectiva alegórica, ou seja, o poeta nunca se refere a esses temas de maneira imediata, mas, sim, os coloca sob uma outra roupagem. Segundo Gagnebin (2011), em História e narração em Walter Benjamin, a ligação entre a poesia da cidade e a teoria da modernidade se dá na manutenção do tema barroco em Baudelaire, evidenciado pelas temáticas do “transitório, da caducidade e da morte” (GAGNEBIN, 2011:47). Ademais, para Benjamin, conforme apresentado no ensaio “Paris do Segundo Império”, o poeta francês, em seu fazer poético, assumiu a “‘tarefa’ do herói antigo, dos ‘trabalhos’ de um Hércules, [...] que se impôs a si mesmo como sua: dar forma à modernidade” (BENJAMIN, 1989:80). Porém, o filósofo deixa claro que a tarefa de dar forma à modernidade é realizada com primazia nos poemas de Baudelaire e não em seus ensaios estéticos.
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Hermetismo e provocação: sobre “A tarefa do tradutor”, de Walter Benjamin / Hermetism and Provocation: on Walter Benjamin’s “The Task of the Translator”

Hermetismo e provocação: sobre “A tarefa do tradutor”, de Walter Benjamin / Hermetism and Provocation: on Walter Benjamin’s “The Task of the Translator”

quanto a da edição bilíngue de 2001, para a qual a mesma tradutora ainda havia usado o título “A tarefa-renúncia do tradutor”. No trabalho mais recente, a estudiosa retirou o termo “renúncia”, que pode ser encontrado também em outras traduções anteriores. Laurent Lamy e Alexis Nouss chegam ao extremo de descartar por completo a palavra “tarefa” (tâche) em sua tradução para o francês, optando apenas por abandon. Se a tradução por “renúncia” é tentadora por fazer parte da experiência cotidiana do tradutor, que é obrigado a abrir mão de muitas nuances do original para chegar a um texto “legível”, ela não se sustenta pelo texto de Benjamin. Tendo em vista que há amplo consenso entre os comentadores quanto à relação complementar entre o original e suas traduções, a ideia da renúncia ou do abandono difi cilmente se justifi ca pelo teor do texto. Em momento algum Benjamin fala das perdas ao se traduzir um texto, mas a importância do seu texto se deve justamente ao fato de ele defender os ganhos.
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Baudelaire desabrigado: a questão do espaço em «Paris do Segundo Império» de Walter Benjamin

Baudelaire desabrigado: a questão do espaço em «Paris do Segundo Império» de Walter Benjamin

Georg Otte" RESUMO: o artigo comenta o ensaio "Paris do Segundo Império" de Walter Benjamin a partir da questão do espaço urbano e a partir da oposição que o auto!" estab[r]

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A modernidade poética em Charles Baudelaire e Walter Benjamin

A modernidade poética em Charles Baudelaire e Walter Benjamin

Rastreando ainda a teoria da modernidade distribuída em vários escritos teóricos de Baudelaire, percebe-se que ele introduz um elemento que dá margem à interpretação de outra teoria do belo, de certo modo contraditória à exposição feita até aqui. Observando com certa acuidade, a concepção de modernidade baudelairiana já aponta para um forte acesso à segunda teoria do belo, quando ele afirma que “houve uma modernidade para cada pintor antigo” 40 . Esse “cada” é extremamente denunciador para que se possa atentar para a outra teoria. A despeito de se saber que a modernidade refere-se ao elemento relativo do belo – o transitório, o fugidio, o efêmero – e também que cada época possui seus traços próprios, cujo conjunto dá a idéia de um todo, sugere-se que a beleza de uma época representada na arte, advenha de um sentimento ou um sentido comum a todos os artistas, uma forma comum de perceber os fenômenos, a partir dessa harmonia contida nessa época. Porém, apesar dessa percepção comum da modernidade, que são os traços que marcam uma época, para cada um desses artistas houve uma modernidade. Dito mais precisamente, a modernidade é o que é o específico de uma época e, a um só tempo, é o que é peculiar a cada artista. “Cada pintor antigo” refere-se aos pintores anteriores à modernidade, mas também ao pintor em particular. “Cada” trata especificamente de um artista em meio aos outros artistas. O termo refere-se à unidade retirada de um grupo de pessoas e, nesse caso, relaciona-se com a individualidade do artista que pertence
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O ideal de Baudelaire por Walter Benjamin.

O ideal de Baudelaire por Walter Benjamin.

Benjamin aqui, não se refere apenas à memória individual desses cul- tos coletivos, mas a uma memória que se realiza na coletividade, e, mais, que é elemento decisivo para a integração de uma coletividade. Nos cultos, há o reconhecimento de uma história comum e de uma relação profunda en- tre as práticas atuais e a reiteração de certos costumes tradicionais. É a partir desses momentos, e isso é o mais importante para Benjamin, que a verdadeira experiência se constitui, justamente pelo contato reiterado com o passado, pela possibilidade da experiência das gerações passadas ser co- municada às gerações atuais e, consequentemente, às gerações futuras, numa retomada da tradição afirmada em dias especiais, os dias de festa, que se destacam do desenrolar cotidiano do tempo como dias de rememo- ração. A memória assim, não é só a recordação de uma experiência vivida no passado, mas a sua atualização no presente, reiterando seu sentido aos dois tempos numa comunicação mais íntima entre eles. Segundo Benjamin, seria esse o contato com o passado almejado pelas correspondências de Baudelaire. Elas manteriam resquícios da verdadeira experiência através da evocação de um passado no qual a separação rígida entre indivíduo e co- letividade não teria sentido.
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Experiência da transitoriedade: Walter Benjamin e a modernidade de Baudelaire.

Experiência da transitoriedade: Walter Benjamin e a modernidade de Baudelaire.

Seguindo a sugestão de Gagnebin, seria possível afi rmar, contra Jauss, a descoberta por Benjamin de uma modernidade mais multifacetada em Baudelaire. Ele não censura a teoria da modernidade em nome de uma crítica marxista do capitalismo moderno, mas por sustentar que o moderno não diz respeito apenas ao louvor das descrições da cidade moderna, mas também a um registro mais agudo da busca do novo como a temporalidade ameaçadora que rege esta época. “A modernidade assinala uma época; designa, ao mesmo tempo, a força que age nessa época e que a aproxima da antigüidade” (BENJAMIN, 1991b, p. 80; 1999, p. 585). O novo é essa força que, ao mesmo tempo que confi gura a modernidade, dando-lhe um caráter único diante do existente, transforma-a imediatamente no seu oposto, a antiguidade. Benjamin tem em mente uma certa apreensão aguda do tempo que transforma cada vez mais rapidamente o moderno em antigo e o novo em velho. O tempo torna-se assim a experiência fundamental de tal arte que se rege pela busca do novo. Não é na crítica, porém, que o novo é apreendido na sua mais forte relação com antiguidade: “Nenhuma das refl exões estéticas da teoria baudelairiana expõe a modernidade em sua interpenetração com a antigüidade como ocorre em certos trechos de As Flores do Mal” (BENJAMIN, 1991b, p. 81; 1999a, p. 585). É nesses poemas que ambas se cruzam pela marca do novo: é na transitoriedade que a modernidade se apresenta mais intimamente ligada à antiguidade. Nas Flores do mal, tal consciência do tempo recebe o nome de spleen, marca da busca do novo e da contradição envolvida em tal busca: “O spleen interpõe séculos entre o momento presente e o que acabou de passar. É o spleen que incansavelmente gera ‘antigüidade’. E, de fato, em Baudelaire, a modernidade não é outra coisa que a ‘mais nova antigüidade’” (BENJAMIN, 1999c, p. 423).
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Walter Benjamin, leitor das flores do mal

Walter Benjamin, leitor das flores do mal

poeta das Flores do mal em 1938 e que ele terminará por descobrir que já contém a matéria de um livro. Esses conceitos se compõem em parte de motivos baudelairianos, como a melancolia, a alegoria, o flâneur e a multidão, a boemia, o spleen, a prostituta e a morte, a modernidade, a moda e a novidade; outros conceitos provêm do materialismo dialético, como a noção do fetichismo da mercadoria e da arte como mercado- ria, a da fantasmagoria introduzida pelo jovem Marx, a da alienação etc. Enfim, certas noções como a imagem dialética ou a relação entre a dialética em suspensão e a ambiguidade (“Zweideutigkeit ...ist das Gesetz der Dialektik im Stillstand”) pertencem ao próprio pensamen- to benjaminiano. Os motivos baudelairianos foram, na maioria, senão descobertos, ao menos decifrados na sua importância histórica e con- textualizados novamente por esse leitor verdadeiramente fraternal que é Benjamin, o leitor nos antípodas daquele, hipócrita, ao qual se dirige o poema liminar da coleção. Fraternal porque vivendo, pobremente, em condições análogas: como Baudelaire, Benjamin é um desclassificado, um despossuído sem eira nem beira (ele é daqueles que se chamavam deserdados no século XIX, “aqueles que das lágrimas bebem qual loba voraz!”, diz “O cisne”), particularmente sensível ao fato de que o boê- mio Baudelaire não tinha nem domicílio fixo nem os meios de produ- ção os mais elementares para o escritor ou o intelectual: a biblioteca e o escritório. 8 Privado pela História de seu domicílio, de sua biblioteca, da
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As formas informes de Walter Benjamin e suas repercussões

As formas informes de Walter Benjamin e suas repercussões

Aderindo de certa forma a essa ideia de um intelecto enganoso e alienante, em seu ensaio sobre Baudelaire, Benjamin pode ter pecado por certo excesso na “mera apresentação admiradora da facticidade”, nas palavras da já mencionada carta de Adorno, mas sua apresentação da Paris do século XIX não deixa de se dirigir, ao mesmo tempo, contra o discurso teórico da época, marcado por conceitos que “reprimem” – ou “recalcam” – a variedade sensível das impressões parisienses. A negação operada pelos conceitos não é menos “pecaminosa”, pois representa um excesso no outro extremo da Darstellung, o termo alemão para a apresentação, normalmente associado ao âmbito artístico ou estético, isto é, sensível.
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WALTER BENJAMIN:  LITERATURA E CIDADE

WALTER BENJAMIN: LITERATURA E CIDADE

Both the 19th century Paris and the work of Walter Benjamin serve as leitmotif to this article, in which it is attempted to seek and locate the physical locus of that time”s literature in order to demonstrate its conversion into an imaginary locus. In the core of this transition one finds the mythical flâneur: going beyond a historically-specific figure such as Baudelaire or Poe, the flâneur represents a theoretical tool against mass hysteria, as the one who not only takes in the mass, but who seeks to construct with it a common, dignified, and authentic narrative. The modern-day dweller would be woken from his nightmare not through the empty shock forced upon him by the mercantile goods (by the spectacle), but through the possibility of finding in the city this common experience (the critical spirit: Benjamin”s Erfahrung). The urban geography turned into the geography of experience — turned into small critical fragments, into different ways to react against isolation.
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RECREAÇÕES: WALTER BENJAMIN, TRADUÇÃO E FILOSOFIA

RECREAÇÕES: WALTER BENJAMIN, TRADUÇÃO E FILOSOFIA

Nada impede de falar de uma vida, de um instante inesquecível, mesmo que todos os homens os tivessem esquecido – ainda que não se esteja à altura dessa tarefa. Pois buscar os nomes, as ideias originais, por mais que não correspondam ao tamanho da tarefa, dão-lhe maior pervivência, fazem com que as formas “originais” fabricadas pelos homens busquem rememorar uma esfera perdida. O tradutor, no entanto, por mais que busque não ter intenções, está sempre à sombra do original. No caso mais limítrofe, à sombra de uma totalidade, de um deus, de uma língua pura que seja capaz de dizer tudo a si mesma sem extensão, o tradutor deriva, registra temporalmente, aquilo que é intemporal. O tradutor é incapaz de abrir as mônadas, os nomes, porque são simples e fechados. O que ele busca é apresentar uma constelação transparente – reúne os cacos do vaso, que, depois de quebrado, nunca será mais o mesmo. Os cacos, esses fragmentos, reunidos em outra língua criam uma nova maneira de apresentar o original. “A tradução deve (...) conformar-se amorosamente, e nos mínimos detalhes, em sua própria língua, ao modo de visar do original, fazendo com que ambos sejam reconhecidos como fragmentos de uma língua maior, como cacos são fragmentos de um vaso” ( Cf. BENJAMIN, 2011a, p.115 ). Benjamin – um arqueólogo diferente – entre os cacos, entre as línguas, ao olhar para o passado, busca a vida mais abrangente entre os vestígios, utilizando-os para tentar traduzir a linguagem geral do mundo (BENJAMIN, 2011a, p. 55). A importância da traduzibilidade é a de fazer essa ponte entre o original e tradução. Quanto mais elevada a qualidade do primeiro tanto mais permanecerá traduzível, maior a sua traduzibilidade e mais estimulante à construção dessas pontes ( Cf. BENJAMIN, 2011a, p.118 ).
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A modernidade pelo olhar de Walter Benjamin.

A modernidade pelo olhar de Walter Benjamin.

Quanto ao tema do suicídio, o primeiro número da revista La Révolution Surréaliste, de dezembro de 1924 , é totalmente dedicado a ele. A partir de um levantamento feito na grande imprensa sobre diversos casos de suicídio noticia- dos, a questão começa a ser debatida. Abre-se uma pesquisa em torno da per- gunta: “O suicídio é uma solução?”. O enfoque não tinha nada de literário, pois conduzia muito mais a uma reflexão de caráter moral. O segundo número da revista publica uma análise de René Crevel sobre a questão que marcará profun- damente os rumos do movimento. Para ele, a morte só é desejada quando a vida sufoca de modo insuportável os verdadeiros desejos do homem, mas essa situa- ção pode também fazer nascer um desejo diferente: “mudar a vida”. A tentação do suicídio encontra seu “executório” na revolta. A idéia de “revolta absoluta” torna-se, desde então, essencial à posição surrealista, a ponto de André Breton, no segundo Manifesto, considerá-la como um dogma. O grande sonho terroris- ta dos conspiradores e a raivosa ira de Baudelaire estão presentes na “revolta absoluta” dos surrealistas. Baudelaire, Blanqui, Bakunin e os surrealistas formam uma constelação, quase um “tipo ideal” weberiano oposto ao que Weber enten- dia por “espírito do capitalismo”.
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Alegoria redimida em Walter Benjamin

Alegoria redimida em Walter Benjamin

O aparecimento da multiplicidade de linguagens, a excessiva abstração e a perda do caráter de nomeação foram consequências da queda. Nesse contexto, cabe ao filósofo a tarefa de restaurar as palavras em seu caráter simbólico, argumenta o autor no prefácio crítico- epistemológico do livro sobre o drama barroco (retomo essa ideia ao considerar o método de crítica empreendido por Benjamin). Além disso, a natureza também manifesta um efeito da condição pós-lapsária. Ela manifesta uma “outra mudez” revelando, assim, um luto profundo. Por esse breve comentário sobre a queda do homem e o luto a que a natureza se entrega, é possível entender como os escritos de 1916, afinal, configuram o esboço para o Trauerspielbuch, escrito em 1925. A relevância da perspectiva especulativa e mística da linguagem na obra de Walter Benjamin se manteve intacta mesmo depois de sua virada para o marxismo, mais visível a partir de meados de 1930, ano de encontro com Bertolt Brecht e que sucedeu sua ida a Moscou (dezembro de 1926 e janeiro de 1927), bem como a adoção da metodologia do surrealismo (cuja principal manifestação disso é a obra Rua de mão única). Aparentemente, conceitos e reflexões dos escritos de sua juventude efetivam, surpreendentemente, um longo percurso no empreendimento crítico benjaminiano. A característica mística do judaísmo presente no ensaio sobre a linguagem ainda pode ser encontrada, por exemplo, em “A tarefa do tradutor” de 1921. Também nas famosas Teses de 1940, uma noção central no estudo do Trauerspiel, aparece relacionado à ideia de história. Trata-se do conceito de Ursprung.
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O desaparecimento da aura em Walter Benjamin

O desaparecimento da aura em Walter Benjamin

diversas roupagens, se apresenta sob a forma de um isolamento experimentado, sobretudo, nos grandes centros urbanos. Em sua argumentação, Benjamin afirma que o caráter autômato e impessoal da vivência (modo de existência individual marcado pelo isolamento) pode ser verificado na relação que se instaura entre o operário e o maquinário durante a jornada de trabalho nas fábricas, nos aspectos comportamentais dos citadinos que trafegam entre a multidão, e até mesmo na conduta assumida pelo jogador durante um determinado jogo de cartas. O que há de comum nestes exemplos é o caráter descontínuo que caracteriza a vivência e se apresenta sob a forma dos choques traumáticos. Tal como explicitamos em nosso segundo capítulo, já no ensaio sobre a obra de arte a relação entre os choques e a vivência já tinha se transformado em um tema de interesse de nosso autor. Todavia, somente no texto sobre Baudelaire este aspecto da teoria benjaminiana ganha contornos mais precisos, e, neste ensaio, Benjamin descreve as situações de choques (tais como, os atritos físicos característicos da multidão) considerando o ritmo intenso que caracteriza a vida moderna nas grandes cidades. Deste modo, todos os exemplos utilizados pelo autor (e mencionados mais acima) participam de contextos e situações desfavoráveis ao acúmulo de experiências substanciais duradouras e, consequentemente, ao fortalecimento da rememoração. Recorrendo à teoria freudiana dos choques, Benjamin procura explicitar o impacto dos choques traumáticos no aparelho psíquico dos indivíduos: a consciência dos indivíduos atua sobre o amortecimento destas excitações traumáticas, e o funcionamento deste mecanismo de proteção resulta no desenvolvimento de um novo tipo de percepção voltada para a interceptação do choque.
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Experiência e linguagem em Walter Benjamin.

Experiência e linguagem em Walter Benjamin.

ideais de progresso técnico e material. Nesse texto, a experiência não é tomada ainda como categoria, como ocorrerá, por exemplo, em seus ensaios sobre Leskov e Baudelaire. A preocupação de Benjamin era a de ressignificar a palavra Erfahrung, apropriada pelos adultos conservadores, e desmistificar o sentido de jugendstil (estilo de juventude), mostrando que esses termos eram utilizados como estratégia pela cultura burguesa com o objetivo de adequá-los ao que era conveniente ao sistema. As intuições juvenis de Benjamin – inscritas sob o marco do movimento da juventude e sob o impacto da Primeira Guerra Mundial emergem, mais tarde, em suas escolhas epistemológicas e nos seus estudos a respeito da modernidade, em uma visão histórica não dissociada da compreensão da linguagem enquanto médium; isto é, o pensar do pensar, experiência relacionada aos processos culturais e sociais. Em um olhar retrospectivo ao texto de 1913, Benjamin escreve:
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Walter Benjamin e os caminhos do flâneur

Walter Benjamin e os caminhos do flâneur

desertas. Nos bulevares encontrei apenas pessoas sozinhas; na rua Vivienne, na praça da Bolsa, onde, durante o dia, precisa-se forçar a passagem, não havia vivalma. Eu nada percebia a não ser os meus próprios passos e o rumor de algum chafariz, de cujo ruído ensurdecedor não sabemos como escapar durante o dia. Nas proximidades do Palais Royal, encontrei uma patrulha. Os soldados caminhavam de ambos os lados da rua, rentes às casas, isolados uns atrás do outro, à distância de 5 ou 6 passos, para não serem atacados ao mesmo tempo e poderem socorrer-se mutuamente. Isso me fez lembrar que, já no início de minha estadia aqui, me haviam aconselhado a andar em Paris, à noite, só com uma companhia, e a tomar, sem falta, um fiacre, se tivesse de voltar para casa sozinho." (O flâneur. IN: OE III, pp. 195-196). As flanagens, se podemos tentar realizar uma divisão cronológica de acordo com os estudos de Benjamin, e aproximá-las de seu teor mais especificamente ligado aos planos de reforma urbanística da cidade de Paris (que transformariam cidades antigas em metrópoles modernas e, consequentemente, as antigas ruas de passeio em ruas e avenidas para circulação de mercadorias e ônibus) , poderiam ser classificadas em dois períodos principais: 1) o de Baudelaire, especialmente na segunda metade do século XIX, como crítica direta à urbanização e seus efeitos e 2) o dos surrealistas, as deambulações do primeiro quarto do século XX, que continuam a servir de crítica à urbanização progressista e mais especificamente à demolição das galerias, especialmente configurada na Passagem da Ópera que foi demolida em 1924. Na segunda metade do século XX, surgem ainda as derivas, tratadas especialmente na Teoria da Deriva de Guy Debord. Entretanto, devemos ressaltar que Benjamin tinha em vista formular a crítica não apenas das reformas urbanísticas, mas dos choques perceptivos que essas reformas produziram no organismo humano e na capacidade de assimilar as vivências que surgem com essas mudanças e que se opõem à lógica e à instrumentalização da razão, além de avaliar a arquitetura como arte utilitária representativa da coletividade, que se configura numa mescla de momumento histórico (museu) e habitação. Assim compreendida, a arquitetura passa a conter também os elementos técnicos criados pela engenharia. Como significação central ligada ao nosso tema, concluimos com Benjamin que a nova arquitetura da cidade de Paris propiciou ao flâneur a experiência da "inebriante interpenetração da rua e da moradia" (O flâneur. IN: OE III, p. 195). Ver também tópico "A Paris do flâneur".
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Experiência e comunicação em Walter Benjamin

Experiência e comunicação em Walter Benjamin

É apenas em 1939 que Benjamin encontra o termo para definir a experiência empobrecida da modernidade: vivência ou experiência vivida (Erlebnis). Em On Some Motifs in Baudelaire encontramos a descrição da vivência como traço fundador da experiência moderna. Incapaz de conectar as gerações, a experiência moderna apreende sobretudo de forma fugaz, extemporânea e fugidia. Ao contrário de uma experiência autêntica (Erfâhrung) e plena fundada nas ideias de tradição, narração e comunidade, a vivência (Erlebnis) centra-se no indivíduo, na consciência e na percepção isolada. Daí que a poesia lírica de Charles Baudelaire seja considerada por Benjamin o lugar de eleição de um elogio da vivência. Deixando para trás a poesia romântica, o poeta francês inaugura uma nova lírica das vivências inspiradas na multidão, na diletância urbana, no trabalhador industrial e nas largas avenidas das cidades. A poesia baudelairiana é uma escrita atenta ao vazio das vivências urbanas, ao hedonismo sensorial (as montras, os espelhos, os odores, as cores que compõem a quadrícula das grandes avenidas), à vida quotidiana das gentes, e à errância do flâneur.
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Baudelaire, Benjamin e a arquitetura d’As flores do mal.

Baudelaire, Benjamin e a arquitetura d’As flores do mal.

Esta é a origem, para nós, da retomada do tema do véu por Benjamin, justo quando trata do luto da passante. O véu se dá, na modernidade, como luto. A passante emblematiza o duplo signi- fi cado que possui, ao menos em nossa língua, o verbo velar. O so- neto da transeunte enlutada seria, nesta nossa leitura da leitura ar- quitetônica de Benjamin, a passagem ou o umbral sem espessura entre a percepção do choque ou do corte que fragmenta e a lem- brança da unidade. Sem esta última, uma estética do puro choque conduziria às aporias que cercam o ensaio “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”, com sua oposição binária entre a percepção aurática e o modo moderno de participação na obra de arte. Julgamos que, apesar de seu caráter enigmático e inconclusi- vo, em sua leitura arquitetônica d’As Flores do Mal, Benjamin este- ve mais próximo de pensar o “pós-aurático” do que em seu ensaio sobre o cinema. Neste sentido, o ponto mais alto do pensamento maduro de Walter Benjamin sobre a arte é, também, um desdo- bramento da obra baudelairiana. Não seria despropositado afi rmar que, recusando a teoria da arte moderna baudelairiana, Benjamin estaria abrindo caminho para a explicitação de um pensamento
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Experiência e formação em Walter Benjamin

Experiência e formação em Walter Benjamin

Porém, essa “pobreza de experiência” presente, isto é, essa impossibilidade histórica de experiência, coloca diante de nossos olhos uma perspectiva de liberdade: ela anuncia para Benjamin a luta baudelairiana contra ela. Se as correspondências de Baudelaire não são históricas, porém imagens do imemorial, a intensidade temporal própria a sua constituição anuncia, todavia, que o conhecimento do passado não é um fim em si mesmo. Como enfatiza Gagnebin (1999), nossa história também nos escapa e nos desenraiza, obrigando-nos a viver a dimensão das tentativas e dos riscos como uma fuga do previsível, do eterno retorno do mesmo. Diante disso, defendemos a seguinte hipótese: se a experiência do ideal baudelairiano remete a experiência para uma esfera irrealizável e inalcançável para o homem urbano do século XIX, ela também é fruto de uma memória que não se contenta em acumular traços do passado, repetindo-os burocraticamente, mas “esquece tudo que não é essencial para estar disponível para completar, visionariamente, os traços que faltam” (BOLLE, 2000, p. 328- 329). A experiência do ideal não é fuga da anti-experiência própria à modernidade, tampouco é utopia que transcende os fatos em direção a um sonho irrealizável ou à nostalgia de paraísos perdidos. Ela é o emblema daquilo que Baudelaire chama de “produção de um estado de percepção criador”. Pelas correspondências, quer dizer, pela produção de sinestesias, similitudes, semelhanças, a construção da história acontece não porque o homem se curvou à vontade de nada esquecer do passado, ou à utopia de recriar artificiosamente a harmonia de uma natureza concebida como “templo de vivos pilares”, mas pela sua imaginação e desejo de buscar a criação de uma percepção matinal, “novinha em folha” (BAUDELAIRE, 1988, p. 179), promessa do inaudito, emergência do novo. Nas palavras de Gagnebin, “o verdadeiro objeto da rememoração não é, simplesmente, a particularidade de um acontecimento, mas aquilo que nele é criação específica” (GAGNEBIN, 1999, p. 105). Desse modo, acreditamos
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