PARTE III. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, DIREITO
5. Água como bem social, econômico e ambiental
Antes de passar a examinar a água dentro do contexto dos direitos humanos e sua necessidade para a manutenção da vida, sua exploração econômica e como parte de estratégia de investimento, cabe ressaltar o caráter social, econômico e ambiental da água, talvez com um peso maior sobre os dois primeiros em razão da obviedade da necessidade da água para o equilíbrio do meio ambiente.
Acesso à água em quantidade e qualidade é condição sine qua non para que o ser humano possa viver dignamente. A importância do acesso a água para desenvolvimento sustentável é refletida na meta 7 – Assegurar Sustentabilidade Ambiental – do documento Metas para Desenvolvimento no Milênio, patrocinado pelas Nações Unidas, estabelecendo desenvolvimento social e econômico à proteção e melhoria do meio ambiente, contribuindo assim para atingir os objetivos do desenvolvimento sustentável. A essência dessa abordagem integrada se expressa na coordenação de planejamento setorial e atividades de gerenciamento relacionadas aos diversos aspectos do uso da terra e dos recursos terrestres.”
no alvo 3 a redução pela metade até 2015 o número de pessoas sem acesso a água potável e condições básicas sanitárias241. Ter acesso a água significa tanto físico como econômico, o que não tem o condão de dar a impressão de água sem custo, mas um balanceamento entre a recuperação dos custos e a condição do ser humano para pagar.
Este assunto nos remete diretamente do direito internacional dos cursos d’água e o modo que ele interpreta o acesso a água e a sua vital importância para o ser humano242.
De acordo com o artigo 10 da Convenção das Nações Unidas para Utilização dos Cursos D’Água Internacionais para Fins Distintos da Navegação (de agora em diante somente Convenção), nenhuma utilização terá prioridade absoluta sobre as demais, asseverando que conflitos com necessidades vitais humanas devem ser apreciadas com atenção. Esta atenção especial também pode ser encontrada, p.ex., no Protocolo da Comissão Econômica para Europa sobre Água e Saúde que busca promover a proteção da saúde e bem estar, incluindo a meta de acesso a água potável dentro dos países da Europa243. Portanto, o acesso nestes dois instrumentos jurídicos é promovido ao novel de necessidade básica e não como direito, o que não confere ao acesso prioridade sobre outras utilizações. No entanto, no nível nacional existe longa prática de garantir às pessoas o acesso a água para suas necessidades básicas, como é o exemplo do direito Islâmico244.
O direito de acesso a água é muito mais forte como expressado em vários instrumentos internacionais não dotados de força jurídica obrigatória, também conhecidos como soft law.O Plano de Ação de Mar dl Plata de 1977 estabelece que todas as pessoas, não importa seu estágio de desenvolvimento ou condição social ou econômica tem o direito de acesso a água potável em quantidade e qualidade para satisfação das suas necessidades básicas245. De acordo com a Declaração de Dublin de 1992, a água deve ser reconhecida como um bem econômico, no entanto, deve-se reconhecer o direito básico de todos os seres humanos de ter acesso a água limpa a um preço que todos possam
241Todas as metas podem ser encontradas no site http://www.un.org/millenniumgoals.
242O artigo 3.20 das Regras de Berlim da ILA estabelece que necessidade vital são “as águas utilizadas para
cumprir imediatas necessidades de sobrevivência, incluindo para beber, cozinhar e utilização sanitária, bem como para imediata manutenção do lar”.
243Em UNECE. Convention on the Protection and Use of Transboundary Watercourses and International
Lakes. Disponível em: <http://www.unece.org/env/water/meetings/documents_MoPPWH.htm>. Acesso em: 05 nov. 2008.
244FARUQUI, Naser. Water management in Slam. United Nations University Press, 2000.
245Em UNESCO. Water Resources Assessment. Disponível em:
suportar246. O Capítulo 18 da Agenda 21 enfatiza a prioridade que deve ser dada à satisfação das necessidades básicas do homem e salvaguardar o ecossistema, no entanto, sem ser muito especifico. Porém, na Declaração de Johanesburgo, há referência especifica de a água ser um requisito básico para a sobrevivência247.
Embora o compromisso tenha sido assumido tanto na Agenda 12 quanto na Declaração de Johanesburgo de enfatizar a importância da água como elemento essencial para a sobrevivência do ser humano, não se pode afirmar que esta seja a opinião dos Estados quanto ao tema, embora cada vez mais se tenha uma movimentação neste sentido e será refletida diretamente em instrumentos de direito internacional formais conforme estabelece o comentário do Artigo 17 das Regras de Berlim248.
Embora não encontremos menção direta e especifica do direito básico ao acesso a água em instrumentos jurídicos internacionais, alguns destes instrumentos indiretamente apontam neste sentido, o que se torna uma obrigação dos Estados de prover esta necessidade básica para os indivíduos.
Um direito de acesso a água promoveria os meios para que um individuo pudesse bater as portas dos tribunais para postular este acesso para satisfação das suas necessidades mais elementares. O reconhecimento do acesso a água como um dos direito civil e político dos indivíduos obrigaria os Estados a prover ou não impedir o seu acesso. O direito de acesso a água limpa como um direito econômico, sociale cultural promoveria base jurídica fortíssima para obrigar os Estados, de acordo com suas possibilidades, de promover acesso. O direito a água não encontra-se explicito como direito humano na Declaração Universal dos Direitos do Homem ou no Convenio de 1966, mas está em desenvolvimento
246“Principle No. 4 - Water has an economic value in all its competing uses and should be recognized as an
economic good - Within this principle, it is vital to recognize first the basic right of all human beings to have access to clean water and sanitation at an affordable price. Past failure to recognize the economic value of water has led to wasteful and environmentally damaging uses of the resource. Managing water as an economic good is an important way of achieving efficient and equitable use, and of encouraging conservation and protection of water resources.” In THE GLOBAL DEVELOPMENT RESEARCH CENTER. The Dublin Statement on Water and Sustainable Development. Disponível em: <http://www.gdrc.org/uem/water/dublin-statement.html>. Acesso em: 06 nov. 2008.
247“We welcome the focus of the Johannesburg Summit on the indivisibility of human dignity and are
resolved, through decisions on targets, timetables and partnerships, to speedily increase access to such basic requirements as clean water, sanitation, adequate shelter, energy, health care, food security and the protection of biodiversity. At the same time, we will work together to help one another gain access to financial resources, benefit from the opening of markets, ensure capacity-building, use modern technology to bring about development and make sure that there is technology transfer, human resource development, education and training to banish underdevelopment forever.” in UNITED NATIONS. Division for Sustainable Development. Johannesburg Declaration on Sustainable Development. Disponível em: <http://www.un.org/esa/sustdev/documents/WSSD_POI_PD/English/POI_PD.htm>. Acesso em: 06 nov. 2008.
e sujeito a grandes debates dentro do direito consuetudinário internacional. No entanto, tratados que versam sobre direitos humanos e especialmente aqueles que especificam o direito a um adequado padrão de vida podem implicitamente apontar para um direito de acesso a água reconhecida com apoio internacional da Cruz Verde e OMS. De forma inovadora e corajosa, a Constituição da África do Sul estabelece o direito de acesso a água como um direito humano249.
Dentro da grande gama de instrumentos jurídicos internacionais de direitos humanos, a referência ao direito de acesso a água e feita em vários aspectos, com especial ênfase a água potável no direito humanitário, no qual prevê, por exemplo, que locais que armazenem água necessária para a sobrevivência não serão atacados em caso de conflitos armados, como delineado no artigo 54(2) do Protocolo a Convenção de Genebra de 1949.
No entanto, de grande importância é o Comentário Geral do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU, que afirmou categoricamente que a água é um direito humano. Embora não seja juridicamente obrigatório para os Estados, este tipo de declaração feita por órgão do sistema das Nações Unidas se torna parte integrante do direito internacional por força do artigo 38 do Estatuto da CIJ na parte que confere à doutrina a força e autoridade de fonte do direito internacional. O Comentário não somente identifica o direito como elabora a obrigação dos Estados de proteger e garantir o cumprimento deste direito, implementação do direito em nível nacional e envolvimento de atores não-governamentais no processo, estabelecendo que: “A água é um recurso natural limitado e bem público indispensável para a vida e saúde. O direito humano a água é indispensável para manter uma vida digna. É um pré-requisito para a realização de outros direitos humanos.” (tradução livre do autor)250
249“Everyone has the right to have access to a) health care services, including reproductive health care; b)
sufficient food and water; and c) social security, including, if they are unable to support themselves and their dependants, appropriate social assistance.” SOUTH AFRICAN GOVERNMENT INFORMATION. Artigo 27, em Chapter 2 - Bill of Rights. 27. Health care, food, water and social security Disponível em: <http://www.info.gov.za/documents/constitution/1996/96cons2.htm#27>. Acesso em: 06 nov. 2008.
250“The human right to water entitles everyone to sufficient, safe, acceptable, physically accessible and
affordable water for personal and domestic uses. An adequate amount of safe water is necessary to prevent death from dehydration, to reduce the risk of water-related disease and to provide for consumption, cooking, personal and domestic hygienic requirements.” In UNITED NATIONS. The right to water:
20/01/2003. E/C.12/2002/11. (General Comments). Disponível em:
<http://www.unhchr.ch/tbs/doc.nsf/0/a5458d1d1bbd713fc1256cc400389e94?Opendocument>. Acesso em: 07 nov. 2008.
No entanto, uma direito a água separado dos demais direitos humanos permanece em debate principalmente porque os Estados ainda não expressaram sua opinião a respeito do assunto seja por um tratado ou por declaração da Assembléia Geral da ONU.