CAPÍTULO 2 – ENTRE UMA CAMADA E OUTRA: O PROCESSO DE
2.3 ÁGUA
A Instauração Cênica ÁGUA arremata um ciclo de atividades artísticas, práticas da cena e pesquisa envolvendo Arte, Moda e Loucura realizada ao longo dos últimos quatro anos, da Residência Artística do CRUOR Arte Contemporânea no Hospital Psiquiátrico Doutor João Machado. Nosso espaço de trabalho antes da realização dessa instauração cênica havia sido transferido para um dos compartimentos da enfermaria feminina, antes destinada à equipe de Terapia Ocupacional desse mesmo hospital, consequentemente, influenciando todo o processo criativo. Envoltos numa atmosfera de feminilidade instauramos ÁGUA no pátio da enfermaria escutando música brasileira, borrifando perfume com essência de alfazema e espalhando flores brancas.
Figura 23: Cartazes da Instauração Cênica ÁGUA
O cheiro da essência de alfazema e a imagem do rótulo do perfume no qual está impresso a figura de uma camponesa colhendo flores de lavanda num imenso arsenal lilás fez com que emergisse memórias associadas ao cheiro desse perfume popular. O resgate dessas imagens desempenhou um papel decisivo no processo criativo dessa instauração cênica. Essas paisagens imagéticas ajudaram a instaurar uma zona de encantamento dentro do hospital psiquiátrico pela qual trabalhamos elementos como água, pipoca, perfume, flores brancas, maçãs, sabão de coco diluído em bacias transparentes para que dali surgisse uma espuma de bolhas que sob a incidência dos raios solares daquela manhã refratassem as cores de um prisma. Conforme pressupõe o procedimento metodológico criativo “Instaurações Cênicas”, ao final desse trabalho tínhamos uma grande instalação artística composta dos resíduos deixados no chão do pátio da enfermaria.
Figura 24: Imagem contendo a caixa e o frasco do perfume alfazema
Figura 25: Resíduos deixados no pátio da enfermaria
O processo de criação da Instauração Cênica ÁGUA consiste em primeiro esboçar uma cena de atmosfera clara, transparente, translúcida, contida no próprio elemento água. No entanto, a cor principal do trabalho é o branco porque remete a essa atmosfera. Uma das premissas do procedimento criativo instauração cênica é pensar elementos que agucem os sentidos, aproximem os participantes facilitando o convívio para expandir a criatividade e aflorar sentimentos. Esses elementos auxiliaram processos intermitentes: longo espaço temporal, antes e depois dos trabalhos artísticos e ininterruptos: curto prazo, aproximadamente 120 minutos, o tempo médio e raríssimo de uma instauração cênica; na criação de imagens, sons, diálogos provenientes de uma dramaturgia do real, da problemática da vida, do estar vivo para uma cena viva. Participar de uma instauração cênica acarreta encontrar a si ao lançar-se na direção do outro. Como diria Artaud “a aproximação em cena de duas manifestações passionais, de dois núcleos vivos, de dois magnetismos nervosos é algo de tão integral, tão verdadeiro, tão determinante” (2006, p. 89).
O trecho de um texto de Antonin Artaud exemplifica bem a imagem evidenciada no processo de criação da Instauração Cênica ÁGUA. Ele faz referência a Deusa Mãe das
Águas, das Flores, aromas e o sol, como se segue:
A Deusa Mãe das Águas, a Deusa Mãe das Flores; a expressão imóvel e que ressoa, sob a capa de várias camadas de água, da Deusa do vestido de jade verde; a expressão arrebatada e bem-aventurada, o rosto crepitando de aromas, em que os átomos do sol giram em círculos, da Deusa Mãe das Flores; essa espécie de servidão obrigatória de um mundo em que a pedra se anima porque foi tocada como se deve, o mundo dos civilizados orgânicos, quero dizer, cujos órgãos vitais também saem de seu repouso, esse mundo humano penetra em nós, participa da dança dos deuses, sem se voltar nem olhar para trás sob pena de se tornar, como nós mesmos, estátuas desagregadas. (ARTAUD, 2006, p. 6)
Dispomos de inúmeros elementos para estimular o desencadeamento de ações forjadas por cada indivíduo presente. Nessa instauração cênica lançamos imagens poéticas que imprimissem marcas que não mais se apagassem para que ninguém saísse intacto do extasio geralmente proporcionado pela experiência artística. No pátio o que víamos era um desenho transverso do agrupamento das ações unidas pelo fio d’água a jorrar contínuo. A fonte foi feita com uma mangueira atada a um galho de uma árvore jorrando água na direção de uma bacia. O intuito era o de que se pudesse evocar uma pequena cachoeira em atividade de pleno transbordamento. E poderíamos assim como Artaud nomeá-la de Deusa Mãe das Águas e das Flores. Dança solar com aroma de alfazema.
Vários materiais foram espalhados naquele pátio. Servimos pipocas, maçãs14, os cabelos faziam parte de uma oferenda deixada ali logo no início da instauração cênica como um ato simbólico que marca o começo da cena dos banhos para logo depois interagir com o elemento água. Havia uma paciente afirmando repetidas vezes que os tufos de cabelos louros soltos no chão eram dela. Uma mãe em surto, separada do filho, e que em outro momento me pedira para cuidar do seu filho porque ela estava interditada, presa naquela enfermaria. Os tufos de cabelos louros não eram da paciente; mas ela os tomou como seus naquele momento, por uma situação em que passou de corte de cabelo contra sua vontade no passado e que neste momento a rememorava a expurgando. Outra interna reconheceu e externou discretamente, exclamando baixo, que a colega de
14Vale destacar que as maçãs do amor são doces feitos de maçãs inteiras espetadas em palitos e mergulhadas em
enfermaria estava confundindo os cabelos dela com os de uma boneca. Ao tentar remontar uma imagem de deusa das águas bastante próxima das religiões de matrizes afro-brasileiras, quebrei uma tigela de barro cheia de tufos de cabelos artificiais, maçãs, incensos, vela, mel. São aproximações com o que admiro no feminino, ou seja, aquilo que me coloca como afeições ao feminino.
Figura 28: “Omolu” foi o título atribuído por uma participante para esta imagem
Figura 29: Arremessando flores brancas no pátio da enfermaria
Fonte: Fotografia feita por Renan Carlos, 2018.
Na instauração Cênica ÁGUA convidamos um fotógrafo de arte e um cineasta para documentar o trabalho. Os cuidados com os detalhes e preparativos para o acontecimento cênico mostraram-se importantíssimos para gerar uma boa documentação iconográfica. Pequenos detalhes podem ser captados pelo zoom de uma câmera. Claro que o mais importante eram as vivências artísticas por meio das instaurações cênicas, o aprendizado e convívio com as pacientes. Mas queríamos registros para a pesquisa. Afinal é a pesquisa quem nos põe em campo e o campo é abrangente, sempre novo, desafiador, surpreendente e aberto.
Como mencionei a importância dos detalhes, estes eram muitos. Iríamos trabalhar com água, um elemento especial, cristalino. Nascemos no ventre materno dentro de uma bolsa d’água. Quando essa bolsa estoura somos lançados no mundo. Nós e todas as variações de mamíferos. Escoamos junto a água do útero da mãe. Somos água porque nos constituímos em água para depois banhar-se nela. Águas turvas, densas, leves, doces, salgadas, salobras, paradas, correntes, profundas, superficiais, limpas e sujas. Águas torrenciais! De açude, de barreiro, de cacimba, de rio, de mar, do corpo. A água potável é insípida, inodora e incolor. Aprendemos isso nos primeiros anos de escola. Límpida e transparente, qualquer elemento colorido entra em destaque e a cor é realçada. Trabalhamos também com tules brancos para construir um saiote atado ao corpo com esparadrapos na construção de uma figura marcante, a imagem concreta de uma deusa mãe das águas, que Artaud nomeia como a mãe das águas e das flores.
Sempre me preocupei em instaurar cenas convidativas para que as pacientes se aproximassem e permanecessem conosco durante todo o trabalho artístico. Impressionava-me o fato de que a cada trabalho realizado só aumentava o nível de adesão das pacientes e a facilidade ao interagir com o tipo de linguagem artística proposta por nós. Os encontros eram repletos de situações alegres, ternura e delicadeza. Nós, os artistas, desde que o Cruor Arte Contemporânea implementou a residência artística, somos extremamente queridos por essas pessoas. Me refiro a relação de amizade entre os artistas e os internos. As cenas na maioria das vezes instauradas no período diurno refletiam a luminosidade dos raios de sol por entre a copa das árvores, frestas, portas, janelas, de um modo apaziguante. Cante, cantem, cante e encantem!
Figura 30: Equipe de trabalho da Instauração Cênica ÁGUA (Arthur, Ewerton, Nara, Maria Clara, Josadaque, Renan, Priciane, Emisandra)
ASPECTOS (IN)CONCLUSIVOS E DESDOBRAMENTOS DA PESQUISA
Passei da figura de subversiva mundana usando vestido vermelho com lascão na perna em desAMPARO, fui devorado, servido como bolo de aniversário quando completei 30 anos numa Instauração Cênica, na qual tive o corpo recoberto por glacês, confetes doces e jujubas. Cantaram parabéns. Comeram outros bolos pensando que era eu. Em ÁGUA ganhei ares de divindade e vieram os banhos. Banhos. Banhos. Banhos.
(Caderno de artista do autor, p.65, 2018)
A primeira impressão que tive ao visitar um manicômio e escutar histórias narradas pelas pacientes foi de que elas deliravam. Quando conversei com alguns psicólogos, assistentes sociais ou alguém que as acompanhavam há mais tempo sobre essas histórias que escutava, para a minha surpresa era tudo “verdade” e “real”, trajetórias de vida de sofrimento e de dor. As experiências e vivências ao trabalhar as linguagens artísticas por meio do procedimento metodológico criativo “Instaurações Cênicas” na Residência Artística do CRUOR Arte Contemporânea demonstram que a arte, ao propor novas linhagens de trabalho em instituições psiquiátricas, instaura um amplo campo de possibilidades artísticas poéticas e terapêuticas para as pessoas em situação de adoecimento psíquico.
Toda e qualquer mudança carece de um questionamento anterior a ela. Mudamos para melhorar a forma como vivemos. A arte está a nossa disposição para a fruição artística que pode aprimorar o convívio, bem como as diferentes maneiras de perceber, estar e experimentar a vida. Ela dá vazão abrindo caminho para os conteúdos mais subjetivos e controversos dos seres humanos fazendo emergir emoções e sentimentos submergidos. A pluralidade compreendida nos trabalhos artísticos conecta os conteúdos comuns a todos os seres humanos abrindo espaços para o diálogo e fazendo-se sentir. A expressão, a atitude, o gesto e mesmo a palavra em arte ressoa multiplicando-se para atingir inumeráveis esferas da existência.
Alguns depoimentos dos coordenadores e profissionais que estiveram conosco na residência artística reforçam o valor da arte na vida dessas pessoas:
_Martins saiu da cidade como louco e voltou como “artista” - este é o maior reconhecimento e exemplo da força do poder e da marca da impressão que a arte e uma formação artística com profissionais habilitados pode ter na transformação das
pessoas. O trabalho é árduo e lento mas sim tem efeitos. (Nara Salles em depoimento concedido via celular no ano de 2018)
_Nosso trabalho tem muita potência de transformação pois trabalhamos com toda e qualquer loucura. Nossa metodologia tem acolhido através da arte, da criatividade, do afeto e dos conhecimentos clínicos pacientes/pessoas em situação de surto, sem condições de diálogo e através da arte contemporânea, das instaurações cênicas acolhemos e tivemos resultados. Nossa ética interventiva, nosso olhar sempre foi voltado para eles. Acredito que nunca tivemos postura egóica ou personalista, nem irresponsável, sempre primamos pelo cuidado com o paciente e nossa intenção sempre foi proporcionar um espaço/tempo para que a vivência do desconforto e do desamparo transmutasse para a vivência do encantamento e de encontros agradáveis, de respeito, entendimento, compreensão e aceitação (...). Nossa residência artística é um espaço único onde às linguagens se entrelaçam com abertura para que seres humanos, artistas, profissionais, clientes, familiares e comunidade expressem suas subjetividades. (Josadaque Pires, psicólogo do HPJM em depoimento concedido via celular no ano de 2018)
_A arte é uma ferramenta importante na transformação de uma cultura. (Fátima Couto, Terapeuta Ocupacional do HPJM em depoimento concedido via celular no ano de 2018)
Portanto, o devido respaldo dado por nós artistas a esses indivíduos tratando-os na condição de pessoas está pautado no fato de pedir permissão e convidá-los para criar conosco alguma instauração cênica como as já mencionadas, integrando-os ao nosso convívio e com alguns deles realizando uma formação artística, como no caso do Martim. A partir disso pudemos perceber o quão importante é a arte tratando-se de um contexto de reclusão nos moldes de um manicômio. Isso interfere e impacta positivamente no cotidiano da instituição psiquiátrica que por alguns instantes pode ser transformada em um grande ateliê de criação artística a céu aberto por meio dos nossos trabalhos, onde todos eram muito bem-vindos. O lugar de expressão proporcionado pela arte metaboliza o sofrimento humano e sua faceta sensibilizadora, integrativa, reestruturante, reinstituindo valores convertidos em atitudes humanizadoras.
Estar em residência artística junto ao CRUOR Arte Contemporânea na instituição psiquiátrica me possibilitou incontáveis relações de amizade. Durante as vivências artísticas entravámos em um processo simbiótico que nos conduzia para o compartilhamento de histórias de vida com os residentes. Isso acontecia quando instaurávamos uma cena artística. Me alegrava saber que alguns internos apresentavam
melhoras e haviam retornado aos seus lares acolhidos por seus familiares e amigos, mas me entristecia quando os via novamente no pavilhão psiquiátrico.
Quando idealizávamos um trabalho para ser realizado no hospital psiquiátrico pretendíamos ter uma experiência artística com os internos. Caso eles recusassem de participar conosco o trabalho não teria sentido algum. Nunca foi nossa intenção utilizar as instalações prediais do Hospital Psiquiátrico Dr. João Machado como pano de fundo ou cenário para trabalhos artísticos. Buscávamos realmente estar junto daquelas pessoas e produzir arte com e para estas pessoas. As parcerias firmadas na residência artística do CRUOR Arte Contemporânea surgiam de um convite similar a este: “Vamos fazer alguma coisa juntos e, se parecer bobagem, que importa?” (BROOK, 2000, p.54). Isso facilitava a relação e comunicação com os internos estabelecendo vínculos afetivos com facilidade. Encantávamo-nos com as astúcias, sofrimentos, choros e risos uns dos outros e através da arte tudo podia ser expresso. Estávamos amparados pelas linguagens artísticas. Recorríamos o tempo inteiro aos procedimentos artísticos.
O procedimento metodológico criativo Instauração Cênica mostrou-se fundamental para a realização das práticas de cena desta pesquisa. É impossível adentrar na cena contemporânea e não ir ao encontro do conceito Instauração Cênica. Esse conceito criado por Salles (2004) se baseia na justaposição e interação do teatro e da dança com a música, as artes visuais, o cinema, a fotografia, a moda, buscando dessa forma uma maior abrangência entre as linguagens artísticas para a prática de cena.
Durante o processo de criação das Instaurações Cênicas desAMPARO, De Aniversário e ÁGUA pude observar como a pele humana estabelece relações com o figurino e como ela pode ser explorada dentro das artes da cena. Constatei que o figurino é um instrumento de criação capaz de estabelecer conexões entre pessoas criando diálogos/interfaces juntamente com os materiais sobrepostos ou somados a pele do artista com suas marcas e narrativas em constantes processos de ressemantização. Deste modo, sugiro como um dos possíveis desdobramentos para esta pesquisa uma investigação aprofundada no doutorado, e que dialogue criativamente, com as questões da pele e dos processos vestimentares dos instauradores da cena.
Figura 31: Pele como figurino na Instauração Cênica ÁGUA
Fonte: Fotografia feita por Renan Carlos, 2018.
Os figurinos e trajes utilizados pelas artes da cena podem ser observados sob diversos enfoques e uma delas é a pele. A pele de quem instaura a cena traz em si marcas, inscrições que delineiam e alteram os percursos artísticos, retraçando-os e redefinindo coordenadas e direcionamentos. Neste trajeto, a pele viva é o retrato, imagem e figurino da experiência sensível na arte. O acesso à multiplicidade de linguagens e materiais artísticos disponíveis atualmente são fundamentais para a realização dessa experiência, que atribui sentido, significação, completude, integração e desenvolvimento aos seres humanos; seja para os artistas criadores ou para aqueles que podem fruir artisticamente a obra.
De acordo com Jeudy (2002), a pele é uma superfície que registra os sinais da aparência, um “existir” que se dá a ler, a ver e a tocar. Segundo o autor, a pele é “uma superfície de autoinscrição, como um texto, mas um texto particular, pois seria o único a produzir odores, sons e a incitar o tocar” (2002, p. 84). No momento em que a pele “retira do corpo seu status de objeto, (...) ela não é mais percebida como o invólucro das formas. Tal qual uma superfície com seus próprios relevos, ela transforma o corpo-objeto em corpo-texto” (2002, p. 84). Neste sentido, quando criamos interferências sobre a pele primeira: epiderme15, o que Jeudy denominou de “invólucro do corpo”, acontece um processo de ressemantização da escrita corporal através do uso de vestes, pinturas corporais, procedimentos de camuflagem. Segundo Silva (2010), a matéria do figurino é um incômodo para o corpo, além de cobri-lo, o penetra, perfura, marcheta ou o invade, é também uns topos de criação.
15Citando Nietzsche, Jeudy afirma que a epiderme tem por função esconder a “feiúra” do interior do corpo: “o que há de esteticamente ofensivo no interior do homem sem epiderme: massas sangrentas, intestinos carregados de excrementos, vísceras, todos esses monstros que sorvem e aspiram e sugam, informes ou feios ou grotescos, e dos mais terríveis ao olfato” (2002, p.122). O que Jeudy chama de “feiúra” é a degeneração do corpo em estado de putrefação. Segundo ele, a arte não deve nos revelar essa verdade orgânica.
Figura 32: Formas básicas dispostas separadamente, sobrepostas, interseccionadas e em camadas representando os processos vestimentares
Fonte: Esquema construído pelo autor desta dissertação.
O esquema anterior exemplifica bem os processos vestimentares por apresentar primeiramente formas isoladas, que podem ser associadas as a formas do corpo separadas de quaisquer material ou traje que modifique a sua estrutura base. Logo em seguida, a intersecção dessas formas, que seria o processo vestimentar em si, que altera a estrutura do corpo transformando-o num híbrido que engloba a sua própria estrutura, as marcas causadas pela ação do tempo incidindo sobre esse corpo vivo, alterações por intervenções cirúrgicas, tatuagens, introdução de objetos, trajes e pinturas corporais. Os gestos e
movimentos após o processo de transfiguração do corpo, ou seja, matização pela experiência e pelos processos que alteram a estrutura corpórea, provocando um desdobramento dessa estrutura, acarreta uma multiplicação dessas camadas que são reverberadas pelas ações do corpo modificado em movimento.
Em 2013, a convite da Semana de Antropologia da UFRN, os integrantes da coligação CRUOR Arte Contemporânea realizaram a instauração cênica “Corpo Livre”, onde artistas da cidade foram convidados a dançar ou realizar uma partitura corporal de três minutos, com os corpos nus pintados com pasta d’água no jardim do departamento de antropologia da universidade. Na ideia inicial desta instauração cênica os artistas saem em cortejo, acompanhado por músicos e musicistas, ainda com roupas, o grupo sai de determinado local da cidade e vai a um ponto onde tenha acontecido algum tipo de repressão ao corpo; quando os participantes chegam, sentam-se e formam uma mandala. Aqueles que têm o corpo nu, pintado de branco, entram na mandala, tiram as roupas e executam a partitura de três minutos; logo após, colocam as roupas e vão embora da mesma forma que chegaram: em cortejo, propondo assim uma discussão sobre o corpo do artista, o nu na cena, a liberdade em criações e que um corpo nu em cena não é motivo