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3. A (NÃO) TRANSFORMAÇÃO DAS ÁREAS PROTEGIDAS : DA

3.1 Áreas protegidas: entendimento convencional e emergente

A partir dos anos de 1980 e 1990, foram pródigas as mudanças nas orientações conceituais que regem a criação e implantação de áreas protegidas. Como resultado, vários países incorporaram estas mudanças nas suas legislações, ainda que entraves relacionados a problemas fundiários, políticas macro-econômicas, conflitos políticos e étnicos e desigualdade nas relações de poder, nos diversos níveis sociais, tenham impedido que estas mudanças alcancem a realidade de todas as unidades, como advertem Borrini-Feyerabend et alli ( 2004, p. 3).

As diretrizes da Comissão Mundial de Áreas Protegidas (World Commission on Protected Areas - WCPA) / União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN - The World Conservation Union) (BORRINI- FEYERABEND et alli, 2004, p. 3), apontam vários fatores para estas mudanças, conforme mostramos no quadro a seguir.

Quadro 01 – Entendimento convencional de áreas protegidas

• Estabelecidas como áreas separadas • Manejadas como “ilhas”

• Manejadas reativamente, dentro de um périodo de tempo curto, dando pouca importância as lições aprendidas a partir da experiência

• Relacionadas à proteção de bens naturais e paisagísticos existentes – não sobre a restauração de valores perdidos

• Criadas e geridas para a conservação (não para o uso produtivo) e proteção cênica ( não para o funcionamento de ecossistemas)

• Estabelecidas de maneira tecnocrática

• Geridas por cientistas naturais e peritos em recursos naturais

• Estabelecidas e geridas de forma a controlar a atividade de pessoas locais, sem preocupação com as suas necessidades e envolvimento

• Geridas pelo governo central • Pagas pelos contribuintes

• Benefícios da conservação assumidos como auto-evidentes • Beneficia primeiramente visitantes e turistas

• Vistas como um bem para o qual as considerações nacionais prevalecem sobre as considerações locais

Fonte: Traduzido e adaptado de BORRINI-FEYERABEND et alli, 2004, p. 3

Quadro 02 - Entendimento emergente de áreas protegidas

• Planejadas como parte de um sistema nacional, regional e internacional • Manejadas como elementos de “redes” (áreas protegidas conectadas por

“corredores”, “stepping stones” e usos da terra amigáveis à biodiversidade) • Manejo adaptativo, em uma perspectiva de longo prazo, tirando vantagem do

aprendizado contínuo

• Relacionadas à proteção, mas também à restauração e reabilitação, para que valores perdidos ou erodidos possam ser recuperados

• Criadas e geridas para a conservação, mas também para objetivos científicos, culturais e sócio-econômicos (incluindo a manutenção de serviços ecossitêmicos)

• Estabelecidas como um ato político, requerendo sensibilidade, consultas e julgamento astuto

• Geridas por indivíduos com múltiplas habilidades, incluindo algumas habilidades sociais

• Estabelecidas e geridas com, para e em alguns casos pelas pessoas locais; sensíveis aos problemas das comunidades locais (que são empoderadas como participantes na tomada de decisão)

• Geridas por vários parceiros, incluindo diferentes camadas do governo, comunidades locais, grupos indígenas, setor privado ONGs e outros.

• Pagas por muitas fontes e quando possível, auto-sustentadas

• Benefícios da conservação avaliados e quantificados, vistos como uma herança comunitária assim como um bem nacional

• Beneficiam primeiramente as comunidades locais que assumem as oportunidades e custos da conservação

Fonte: Traduzindo e adaptado de BORRINI-FEYERABEND et alli, 2004, p. 3

As mudanças nas práticas conservacionistas, no manejo de recursos naturais em geral e de áreas protegidas em particular foram baseadas em mudanças de várias ordens, acompanhando o movimento da sociedade. Para

Phillips, estas mudanças são muito profundas e estão ligadas não só a um entendimento de como a natureza funciona, mas também de como se operam as mudanças sociais (PHILLIPS, 2003). Para o autor, estas mudanças estão vinculadas à compreensão científica, à consciência cultural e social, ao reconhecimento dos direitos humanos, ao desenvolvimento político, ao desenvolvimento geral de práticas administrativas, aos avanços tecnológicos e às forças econômicas. Baseando-nos nas idéias de Phillips (2003), apresentaremos de forma sucinta, os principais fatores relacionados a estas mudanças.

O conhecimento científico trouxe novas abordagens para o problema da distribuição espacial das áreas protegidas. A ampliação das áreas de conservação em um sistema que compreenda escalas regionais, nacionais e internacionais, baseia-se na fundamentação de que é necessário uma maior amplitude e interligação entre áreas de conservação. Falhas da visão de “natureza selvagem”, foram apontadas, principalmente com descobertas de impactos humanos em áreas que até então eram consideradas isoladas, como a Amazônia e a Austrália. O conhecimento científico também produziu técnicas para a restauração ecológica, abriu novas fronteiras para a conservação em habitats marinhos e agora se depara com desafios referentes às mudanças climáticas.

A emergência de uma consciência cultural e social, encorajou um maior respeito por comunidades locais, povos indígenas e tradicionais. Passou-se também a perceber e apreciar a relação destes povos com a natureza, com uma atenção para as práticas sustentáveis, além de incorporar pontos de vista e experiências das mulheres. A presença destas comunidades em áreas destinadas à preservação também levou a um questionamento do valor do conceito de natureza selvagem e à preocupação com a não-marginalização das minorias étnicas. Ocasionou também a elaboração, em décadas recentes, de leis internacionais sobre os direitos humanos, relacionados principalmente aos dos povos indígenas e ao meio ambiente (ILO Convention 169; draft

Declaration on the Rights of Indigenous Peoples and the Inter-America Declaration on the Rights of Indigenous Peoples). Esta orientação jurídica influenciou uma mudança de abordagem por parte dos governos que têm áreas protegidas em terras indígenas, como por exemplo, na América Latina, Nova Zelândia e Austrália, no sentido de incorporar as comunidades locais no manejo e criação de áreas protegidas.

No âmbito político, mudanças mais amplas ocorridas na sociedade mundial como o processo de democratização da sociedade e o fortalecimento de níveis regionais e locais de poder (incluindo populações indígenas); a participação de ONGs em áreas protegidas; a inserção de mecanismos de mercado no manejo de áreas protegidas e o reconhecimento dos governos da responsabilidade internacional pela proteção da natureza são também apontadas como interrelacionadas.

A mudança de orientação nas áreas protegidas também sofreu influências no seu aspecto administrativo e se viu invadida por teorias econômicas. Assim, a adoção de uma abordagem multidisciplinar fez-se necessária, face aos vários desafios enfrentados pelas administrações destas áreas e que extrapolam a formação das ciências biológicas e exatas. Passou-se a valorizar também a combinação entre uma estratégia com objetivos claramente definidos e um manejo adaptativo. Além disso, passaram-se a considerar aspectos relacionados a valores e benefícios que as áreas protegidas representam, ao desenvolvimento de planos de negócios para estas áreas e a inclusão da idéia de geração de renda para suplementar as subvenções governamentais.

Graças aos avanços tecnológicos, o uso do Sistema de Informações Geográficas (SIG) tornou-se possível manusear e compartilhar uma grande quantidade de informação, criando não só um conjunto novo de entendimento e expectativas para todos os envolvidos, mas também encorajando uma crença de que os limites do possível está mais ligado a fatores humanos e políticos que técnicos, observa o documento (PHILLIPS, 2002).