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Áreas verdes e o discurso sobre a qualidade de vida

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1.6 PARQUES URBANOS E A VALORIZAÇÃO DO ENTORNO NA CIDADE

1.6.1 Áreas verdes e o discurso sobre a qualidade de vida

Existe o discurso que faz alusão à "qualidade de vida" na qual beleza, higiene e segurança nos espaços públicos são qualidades necessárias para a vida no cotidiano urbano (RECHIA, 2005, p.57). As áreas verdes, o que inclui parques públicos surgem então com um aspecto paisagístico embelezador, bem como com a função de criação de espaço para lazer, prática de exercício físico e, especialmente, lugar de contato com a natureza dentro do tecido urbano. Esta é, pelo menos, a proposta do discurso de qualidade de vida fornecido pelos parques urbanos.

Esconde-se nessas falas dos agentes urbanos, que "a natureza e seus elementos estão ocultos pelo intenso processo de urbanização". Os cidadãos não percebem as reais funções dos parques urbanos, tanto em relação à natureza bruta quanto em relação ao espaço para descanso. As pessoas percebem esses espaços, na maioria das vezes, como territórios amenos no meio urbano a serem vendidos e consumidos como mercadoria (CASTELNOU, 2006, p. 69 e 70).

Já Gomes (2013, p.16 e 17) atribui ao verde à diminuição das pobrezas e problemas ambientais das cidades. Para isso, os parques urbanos apresentam-se, através do marketing imobiliário, como locais "diferenciados", destinado a pessoas de alto poder

aquisitivo. O autor relata como o discurso predominante é o que diz proporcionar à população qualidade de vida, lazer e natureza. Esses itens estimulam a imaginação das pessoas através de imagem de espaços agradáveis.

Serpa (2013, p. 85) discorre sobre os parques urbanos como "lugares ideais" e equipamentos que simulam um "paraíso social", não chegando neles o estresse da vida cotidiana. Dão também prestígio a algumas áreas do ambiente urbano, valorizando-o e estabelecendo uma "paz consensual", um lugar de tranquilidade. Além disso, indica que os parques estão "na moda", partindo de reivindicações por mais áreas verdes nas cidades. Por isso, todos concordam que esses equipamentos melhoram a qualidade de vida e proporcionam aos moradores espaços de recreação e lazer "festivo"; simulando assim qualidade estética para as cidades.

O consumo dos parques urbanos é mascarado através de uma consciência ecológica que atinge pessoas de renda elevada devido ao alto valor dos imóveis no entorno desses equipamentos. Com isso, são utilizadas modernas formas de dominação e manipulação cultural e paisagísticas, advindas do poder público e dos agentes imobiliários, que vendem a imagem de uma cidade bem administrada e possuidora de belezas naturais. Assim, a natureza enquanto mercadoria torna-se um item de promoção de valor agregado, e segundo os discursos, confere uma melhor qualidade de vida (PERES, 2010, p. 199 e 200).

O conceito banalizado de sustentabilidade também foi agregado na análise da presença de áreas verdes dentro do tecido urbano. Com essa "sustentabilidade" em voga o Estado adquiriu o poder de resolver problemas ecológicos e sociais modificando a política das cidades com um conceito novo de "democracia urbana". A ideia é que melhorando a qualidade de vida urbana, melhora-se a imagem e a atratividade das cidades (SERPA, 2013, p.91). Na contramão desses discursos, Serpa imagina como seria a luta pela não construção das áreas verdes nas cidades,

Lutar pela anulação da construção de apartamentos de alto padrão em um terreno originariamente destinado à instalação uma escola e de equipamentos públicos não parece novidade no contexto das metrópoles contemporâneas. [...] Podemos ser contra a natureza? Contra o patrimônio "verde" de uma cidade? Será que devemos "desconfiar do verde", como propõe Berque (1997), ao observar o aumento das preocupações relativas à ecologia e à paisagem nas nossas cidades? (SERPA, 2013, p. 61).

Para Serpa não há contestação quanto à presença dos parques urbanos nas cidades, pois as áreas verdes representam um espaço de contemplação, lazer e relaxamento para as pessoas.

Retomando os discursos pela construção dos parques urbanos, entramos na questão de que estes são usados pelo Estado e pelos especuladores imobiliários para a

valorização dos terrenos do seu entorno. Sobre isso, Serpa (2013, p. 84) relata que joga-se a favor da especulação, repassando uma boa imagem à cidade e ao Estado, que inserem espaços de natureza no espaço urbano. Se as qualidades desses equipamentos urbanos são sempre mostradas nos discursos, os valores econômicos também são explicitados.

Gomes argumenta a respeito dos índices de áreas verdes como provedores da qualidade de vida e ambiental:

Os índices de áreas verdes, frequentemente adotados e disseminados por organismos públicos e privados, são comumente utilizados como indicadores de qualidade ambiental e de vida. Tanto, [...], são utilizados como representação da eficácia do poder público quanto contribuem para difundir a ideia de melhorias na qualidade do espaço, refletindo na saúde, na preservação da natureza (GOMES, 2013, p. 26).

Gomes mostra que os parques urbanos são noticiados pelo "marketing imobiliário" como um lugar para as elites viverem bem. São construídos ou melhorados no espaço das cidades, oferecendo condições para o capital se desenvolver.

Serpa (2013, p.41) acrescenta que esses fatores estão inseridos em um "grande programa imobiliário". O Estado e os especuladores imobiliários intervém diretamente nos espaços. Esses agentes causam mudanças nas classes econômicas provenientes de bairros afetados e na função dos mesmos.

Os discursos também podem ser mostrados na atuação dos incorporadores imobiliários, justificando a produção dos espaços urbanos:

Um dos agentes da atuação na produção do espaço, os incorporadores imobiliários, também atuam na produção do espaço urbano e justificam a propriedade de terra, a produção do espaço, através de discursos e práticas que remetem ao conjunto da sociedade, no seu interesse geral (GOMES, 2013, 87 e 88).

Conclui-se que tanto as administrações das cidades quanto os especuladores imobiliários concordam na importância dos parques para o bem estar da população em geral, à melhoria da qualidade de vida e na conquista de tranquilidade no meio do caos urbano. Frisam também a filosofia de sustentabilidade na cidade em que está sendo inserido o parque. Mas é igualmente verdade que os parques urbanos acabam gerando, conscientemente por esses agentes, especulação imobiliária, venda de terrenos do entorno por preços elevados e segregação da população mais pobre.

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