3. AS AÇÕES AFIRMATIVAS
3.3 Ambiente normativo
3.3.1 Âmbito constitucional
A Constituição de 1988 é repleta de disposições normativas que, não só legitimam, mas impõem a implementação de política de cotas.
Dessa forma, além dos art. 1º e 3º, já citados anteriormente, bem como do art. 5º, que impõe de forma expressa o princípio da igualdade, a Constituição abarca expressamente em seu texto as ações afirmativas em favor de portadores de deficiência. Nesse sentido, o art. 37, VIII, da CR/88 prevê que “a lei reservará percentual dos cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência e definirá os critérios de sua admissão” (BRASIL, 1988).
Não se pode esquecer também que o art. 5º, §3º da Constituição Federal ampliou o rol de direitos fundamentais, permitindo que, por meio do procedimento especial, os tratados
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internacionais de direitos humanos sejam incorporados ao ordenamento jurídico brasileiro com o status de emenda constitucional, litteris,
§ 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais. (BRASIL, 1988).
Destarte, a EC 45/04 permitiu procedimento simplificado de incorporação, formal e material, dos tratados de direitos humanos como emenda constitucional. O Brasil apenas em uma oportunidade aprovou, por meio deste rito simplificado, tratado internacional.
Trata-se da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007, que ingressou no ordenamento jurídico pátrio, por meio do Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009.
No preâmbulo da Convenção, exaltando os seus objetivos e fins promocionais dos portadores de deficiência, pode-se ressaltar os seguintes itens fundamentais para o presente trabalho:
a) Relembrando os princípios consagrados na Carta das Nações Unidas, que reconhecem a dignidade e o valor inerentes e os direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana como o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo,
c) Reafirmando a universalidade, a indivisibilidade, a interdependência e a inter-relação de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, bem como a necessidade de garantir que todas as pessoas com deficiência os exerçam plenamente, sem discriminação,
e) Reconhecendo que a deficiência é um conceito em evolução e que a deficiência resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras devidas às atitudes e ao ambiente que impedem a plena e efetiva participação dessas pessoas na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas,
f) Reconhecendo a importância dos princípios e das diretrizes de política, contidos no Programa de Ação Mundial para as Pessoas Deficientes e nas Normas sobre a Equiparação de Oportunidades para Pessoas com Deficiência, para influenciar a promoção, a formulação e a avaliação de políticas, planos, programas e ações em níveis nacional, regional e internacional para possibilitar maior igualdade de oportunidades para pessoas com deficiência,
h) Reconhecendo também que a discriminação contra qualquer pessoa, por motivo de deficiência, configura violação da dignidade e do valor inerentes ao ser humano,
i) Reconhecendo ainda a diversidade das pessoas com deficiência,
j) Reconhecendo a necessidade de promover e proteger os direitos humanos de todas as pessoas com deficiência, inclusive daquelas que requerem maior apoio,
m) Reconhecendo as valiosas contribuições existentes e potenciais das pessoas com deficiência ao bem-estar comum e à diversidade de suas comunidades, e que a promoção do pleno exercício, pelas pessoas com
deficiência, de seus direitos humanos e liberdades fundamentais e de sua plena participação na sociedade resultará no fortalecimento de seu senso de pertencimento à sociedade e no significativo avanço do desenvolvimento humano, social e econômico da sociedade, bem como na erradicação da pobreza,
o) Considerando que as pessoas com deficiência devem ter a oportunidade de participar ativamente das decisões relativas a programas e políticas, inclusive aos que lhes dizem respeito diretamente,
y) Convencidos de que uma convenção internacional geral e integral para promover e proteger os direitos e a dignidade das pessoas com deficiência prestará significativa contribuição para corrigir as profundas desvantagens sociais das pessoas com deficiência e para promover sua participação na vida econômica, social e cultural, em igualdade de oportunidades, tanto nos países em desenvolvimento como nos desenvolvidos. (2007)
Embora a difícil tarefa de se eleger pontos dos “considerandos” em meio a tão importantes valores ali expressos, pode-se trazer estes por simples critério de afinidade com o trabalho. Do transcrito supra, percebe-se o forte reconhecimento das diferenças e o caráter promocional dos direitos fundamentais, que é o enfoque de toda e qualquer política afirmativas.
O preâmbulo é tão rico que chega a possuir cunho pedagógico acerca de dignidade, igualdade e promoções afirmativas. Percebe-se isso de expressões como:
a) que reconhecem a dignidade e o valor inerentes e os direitos iguais;
b) necessidade de garantir que todas as pessoas com deficiência os exerçam plenamente, sem discriminação;
c) reconhecendo também que a discriminação contra qualquer pessoa, por motivo de deficiência;
d) reconhecendo ainda a diversidade;
e) necessidade de promover e proteger os direitos humanos de todas as pessoas com deficiência;
f) promoção do pleno exercício, pelas pessoas com deficiência, de seus direitos humanos e liberdades fundamentais e de sua plena participação na sociedade;
g) participar ativamente das decisões relativas a programas e políticas;
h) promover e proteger os direitos e a dignidade das pessoas com deficiência.
Tais expressões demonstram a essência das políticas afirmativas, sendo possível perceber forte relacionamento com o roteiro deste trabalho.
Com efeito, pode se resumir, em síntese muito apertada, mas não falsa, que a igualdade é fundada a partir do respeito à dignidade humana, reconhecendo as diferenças e individualidades, com o fim proteger a pessoa de qualquer discriminação, promovendo o
tratamento igualitário e proporcionando meios efetivos de participação social de todos, assegurando recursos diferenciados àqueles que necessitem para que se alcance o desiderato maior da justiça.
Nesse sentido, de extrema importância o art. 3º da Convenção que estabelece os princípios gerais. Litteris:
Os princípios da presente Convenção são:
a) O respeito pela dignidade inerente, a autonomia individual, inclusive a liberdade de fazer as próprias escolhas, e a independência das pessoas; b) A não-discriminação;
c) A plena e efetiva participação e inclusão na sociedade;
d) O respeito pela diferença e pela aceitação das pessoas com deficiência como parte da diversidade humana e da humanidade;
e) A igualdade de oportunidades; f) A acessibilidade;
g) A igualdade entre o homem e a mulher;
h) O respeito pelo desenvolvimento das capacidades das crianças com deficiência e pelo direito das crianças com deficiência de preservar sua identidade. (2007)
Estas são as políticas afirmativas que podemos encontrar no âmbito constitucional.