CAPÍTULO II METODOLOGIA DO ESTUDO
2. ÂMBITO E PLANO DO ESTUDO
No contexto educacional, uma investigação caracteriza-se por uma “actividade de natureza cognitiva que consiste num processo sistemático, flexível e objecto de indagação e que contribui para explicar e compreender os fenómenos educativos” (Pacheco, 1995:9). Para este autor, a investigação educacional deve-se pautar pela sistematização, rigor científico e adequação ao objecto de estudo.
Tendo por base o tema supracitado e respectivas questões de investigação, esta pesquisa inscreve-se no paradigma interpretativo, desenvolvendo-se no quadro de uma metodologia qualitativa por permitir “a descrição de fenómenos ou de situações, a análise dos dados recolhidos por temas ou categorias, a sua interpretação e, finalmente traçar conclusões sustentadas em constructos teóricos e sob a perspectiva pessoal do investigador” (Wolcott, 1994, cit. in Creswell, 2002:182).
Segundo Schumacher e McMillan (1993) a investigação educacional apresenta sete características, as quais definem a sua natureza, a referir: objectiva, precisa, verificável, explanatória, empírica, lógica e probabilística.
A objectividade em estudos qualitativos refere-se à explicitação quanto ao modo como os dados são recolhidos, categorizados, reconstruídos e interpretados, e não às características pessoais do investigador. Quanto à precisão, os autores referem-se ao uso da linguagem técnica que, no caso dos estudos qualitativos, se expressa por palavras, através de descrições extensas e detalhadas de modo a transmitir conotações e significados.
A verificação em estudos qualitativos é diferente da verificação exigida noutro tipo de estudo, pois os estudos qualitativos fornecem interpretações descritivas de situações únicas que poderão ser expandidas, mas não replicadas noutro contexto.
No que diz respeito à característica explanatória, os autores defendem que a investigação visa reduzir realidades complexas a explicações simples e afirmam também que esta é empírica por ser orientada pelas informações obtidas através dos métodos de investigação sistemáticos.
Na investigação qualitativa a utilização de regras de lógica indutiva é essencial, apoiando-se em abstracções retiradas de um conjunto de aspectos particulares, o que constitui aquilo que Glasser e Strauss (1976, cit. in Almeida & Pinto, 1986) designaram de “grounded theory”.
Para Schumacher e McMillan (1993), a última característica, a da probabilidade, também está presente nos estudos qualitativos, na medida em que estes indicam ou sugerem, não podendo afirmar certezas absolutas.
Por sua vez, Bogdan e Biklen (1994) referem que a investigação qualitativa se distingue de outros tipos de estudo por apresentar as seguintes características: 1) a fonte directa dos dados é o ambiente natural e o investigador é o principal agente na recolha desses mesmos dados; 2) os dados que o investigador recolhe são essencialmente de carácter descritivo; 3) os investigadores que utilizam metodologias qualitativas interessam-se mais pelo processo em si do que propriamente pelos resultados; 4) a análise dos dados é feita de forma indutiva; e 5) o investigador interessa-se, acima de tudo, por tentar compreender o significado que os participantes atribuem às suas experiências.
De acordo com estes autores
“ao apreender as perspectivas dos participantes, a investigação qualitativa faz luz sobre a dinâmica interna das situações, dinâmica esta que é frequentemente invisível para o observador exterior (…) o processo de condução de investigação qualitativa reflecte o diálogo entre os investigadores e os respectivos sujeitos, dado estes não serem abordados por aqueles de uma forma neutra” (Bogdan & Biklen, 1994:51).
A investigação qualitativa está mais direccionada para a compreensão e descrição dos fenómenos globalmente considerados. De acordo com Almeida e Freire (2000), este tipo de investigação procura estudar a realidade sem a fragmentar e sem a descontextualizar, ao mesmo tempo que se parte sobretudo dos próprios dados e não de teorias prévias, para os compreender ou explicar.
O estudo desenvolve-se numa perspectiva de estudo de caso, uma vez que visa a compreensão interna e o envolvimento na situação de investigação.
Ludke e André (1986) distinguem o estudo de caso, apresentando sete características: 1) visa a descoberta, na medida em que podem surgir, em qualquer altura, novos elementos e aspectos importantes para a investigação, além dos pressupostos do enquadramento teórico inicial: 2) enfatiza a interpretação em contexto; 3) retrata a realidade de forma completa e profunda; 4) usa uma variedade de fontes de informação; 5) permite generalizações naturalistas; 6) procura representar as diferentes perspectivas presentes numa situação social; e 7) utiliza uma linguagem e uma forma mais acessível do que outros métodos de investigação.
De acordo com alguns autores (Anderson & Arsenault, 1999; Strauss, 1987; Punch, 1998), um estudo de caso é um plano de investigação que envolve o estudo intensivo e detalhado de uma entidade bem definida: um indivíduo, um pequeno grupo, uma organização, uma comunidade, uma decisão, uma política, um acontecimento imprevisto.
Para Schumacher e McMillan (1995), dada a sua adaptabilidade, o estudo de caso é muito adequado para a investigação educacional. A análise dos dados centra- se no fenómeno que o investigador selecciona para compreender em maior profundidade, independentemente deste poder incluir um ou vários locais, participantes ou documentação a analisar.
O estudo de caso caracteriza-se pelo seu carácter descritivo, indutivo, particular e a sua natureza holística pode levar à compreensão do próprio estudo (Merriam, 1998).
Nesta perspectiva, Yin (1994) defende que um estudo de caso é uma investigação que se baseia principalmente no trabalho de campo, incidindo em algo único, particular. Para este autor, o estudo de caso deve ser escolhido quando queremos estudar algo singular, que tenha valor em si mesmo.
Num estudo de caso há uma clara intencionalidade na escolha da amostragem. Borg e Gall (1996) referem que o investigador selecciona uma amostra que se ajuste aos propósitos do estudo. Nesta linha de pensamento Almeida e Freire (2000) fazem referência a amostras intencionais ou a um método intencional de amostragem,
utilizados sempre que é aceite que um determinado grupo de indivíduos representa adequadamente um determinado fenómeno, opinião ou comportamento.
Como sem rigor a investigação “não tem valor, torna-se ficção e perde a sua utilidade” (Morse; Barret; Mayan; Olson & Spiers, 2002:2), para assegurar a fiabilidade, da presente investigação, procurámos descrever de forma pormenorizada e rigorosa a forma como este estudo foi realizado, nomeadamente no que diz respeito à forma como se processou a recolha e a análise dos dados. Desta forma, a fiabilidade foi assegurada, tanto quanto possível, por uma explicitação de todas as fases da investigação.
Tal como defendem Bogdan e Biklen (1994: 48) “a investigação qualitativa é descritiva (…) na busca do conhecimento, os investigadores qualitativos (…) tentam analisar os dados em toda a sua riqueza, respeitando, tanto quanto possível, a forma em que estes foram registados e transcritos”, devendo essa descrição “ser rigorosa e resultar directamente dos dados recolhidos” (Carmo & Ferreira, 2008: 198).
Por outro lado, o estudo de caso requer o conhecimento de diferentes perspectivas sobre o mesmo fenómeno, as quais podem ser recolhidas através de diferentes técnicas, permitindo a triangulação. A triangulação consiste em combinar dois ou mais pontos de vista, fontes de dados, abordagens teóricas ou métodos de recolha de dados numa pesquisa por forma a que possamos obter como resultado final um retrato mais fidedigno da realidade ou uma compreensão mais completa dos fenómenos a analisar (Flick, 1998).
Assim, neste estudo, recolhemos a perspectiva dos professores através de entrevistas, mas procurámos captar ainda a dinâmica do real através de observações directas.