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Capítulo I) O Princípio do Non-Refoulement

Subcapítulo 2) Âmbito Territorial do Princípio do Non-Refoulement

Contudo, uma questão que se coloca é se os Estados Contratantes estão limitados apenas ao que ocorre no seu território ou se estão, igualmente, vinculados às condutas e atos perpetrados pelas suas autoridades fora do seu território192 e a que atos poderão estar vinculados.

De facto, Sir Elihu Lauterpacht e Daniel Bethlehem concordam que os Estados Contratantes não estão limitados a tal limite territorial, desde logo porque os Estados são responsabilizados pelas

186 In The rights of refugees under international law, Cambridge University Press, 2005, pág. 302.

187 Em comentário ao art. 33. º da Convenção de Genebra de 1951 in The Refugee Convention of 1951: The travaux preparatoires analysed, Cambridge University Press, XIX, 1995. Neste sentido ver, Guy S. Goodwin-Gill in The Refugee in International Law, 2.ª Edição, Claredon Press Oxford, 1996, pag. 122 e ss.

188 O doutrinário citado põe a questão da aplicação deste artigo aos casos de extradição e concluiu que, igualmente, nestes casos se deve aplicar a proteção deste principio, recorrendo aos trabalhos preparatórios da redação deste artigo e às opiniões formuladas pelos vários Estados. Neste sentido ver Paul Weis in The Refugee Convention of 1951: The travaux preparatoires analysed, Cambridge University Press, XIX, 1995.

189 Um outra obra destinada ao principio do Non-Refoulement é feita por, Márcia Constantino Gonçalves in O Princípio do Non-refoulement, Dissertação de Mestrado em Ciências Juridico-internacionais, FDUL, 2008;

190 ACNUR, Manual para Emergências, Princípios de Resposta, Genebra.

191 In The Refugee in International Law, 2.ª Edição, Claredon Press Oxford, 1996, pag. 169.

192 Esta questão quanto ao efeito extraterritorial de non-refoulement encontra-se deveras explicado por James C. Hathaway in The rights of refugees under international law, Cambridge University Press, 2005, Pág. 335 e ss.

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pessoas que se encontram na sua ‘jurisdição’, nos termos do direito internacional193. Acrescentam estes que, esta expressão não somente se revela na Convenção de Genebra de 1951, agora em estudo, mas igualmente em vários outros tratados, bem como foi utilizada quer pelo Comité dos Direitos Humanos, como pelo TEDH194.

Nesse mesmo sentido, Hathaway expõe que, nas linhas de interpretação do TEDH e do TIJ, o respeito a este princípio e aos direitos constantes da Convenção aqui em causa, existe independentemente de um exercício efetivo ou de facto da jurisdição externa desse Estado, nomeadamente, através dos seus consulares e outros agentes195.

Como tal, concordando-se que os Estados estão vinculados aos atos que possam ser praticados fora do seu território, formalmente reconhecido, mantém-se a questão quanto a que atos estarão vinculados, ou seja, se os Estados estão vinculados a todos os atos dos seus agentes do mesmo modo como se fossem praticados dentro do seu território.

No seguimento dos raciocínios anteriores, o TEDH no acórdão Hirsi Jamaa e Outros contra Itália datado de 23.02.2012, concluiu pela aplicação de um conceito amplo de jurisdição para os efeitos do art. 1.º da CEDH, bem como pela eficácia extraterritorial dos atos dos agentes dos Estados.

Ora, no acórdão mencionado, dois barcos com refugiados da Somália e da Eritreia vindos da Líbia foram intercetados pela autoridades militares marítimas italianas que, de imediato, transportaram os refugiados para a Líbia, nos seus navios militares.

A questão colocada centrou-se no facto de o art. 1.º da CEDH dispor que os Estados, dentro da sua jurisdição, estão obrigados a conceder os direitos e liberdades constantes da própria Convenção, pelo que o Estado italiano, desde logo, defendeu que – estando os barcos localizados no alto-mar – o conceito de jurisdição somente se aplicava ao seu território formalmente reconhecido.

193 In The Scope and Content of the Principle of Non-Refoulement, Opinion for UNHCR, Junho, 2001.

194 Quanto ao efeito extraterritorial do Princípio do Non-Refoulement, o TEDH desde logo no Acórdão Soering já retratado na análise da jurisprudência deste Tribunal, indicou que os Estados têm não só a obrigação principal de proibir tratamento contrário ao art. 3.º da CEDH, mas ainda a obrigação acessória de não colocar o indivíduo numa posição em que possa sofrer tal tratamento ou punição contrária ao art. 3.º d CEDH por outros Estados. 195 In The rights of refugees under international law, Cambridge University Press, 2005, Pág. 339.

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Como tal, o TEDH considerou que a jurisdição de um Estado é, essencialmente, territorial; porém, em situações excecionais, o Tribunal também admite que os Estados sejam responsáveis pelos atos ou consequências destes, fora dos seus territórios, pelo que tal igualmente consiste em ‘jurisdição’ nos termos do art. 1.º da CEDH. Para averiguar esta jurisdição extraterritorial, o Tribunal Europeu explica que é necessário determinar factos particulares que comprovem a mesma, como o pleno e exclusivo controlo de, por exemplo, uma prisão ou um barco.

Assim, entendeu o TEDH que, sempre que um Estado através dos seus agentes, opera fora do seu território e exerce controlo e autoridade sobre um indivíduo, o Estado está sob a obrigação do art. 1.º da Convenção. Adianta ainda o Tribunal que esta jurisdição é extensível às atividades diplomáticas e agentes consulares a bordo de aviões ou navios que viajem sob a bandeira daquele Estado.

Como tal, in casu, foi a Itália considerada responsável pelos atos dos militares italianos que, com os refugiados a bordo dos seus navios, decidiram, ao revés das obrigações a que o Estado italiano se encontra vinculado nos termos da Convenção, retornar sem mais aqueles indivíduos, não lhes concedendo o devido procedimento de asilo e pondo em causa a sua vida e liberdade.

Desta forma, o TEDH conseguiu responder às questões da doutrina internacional quanto à eficácia extraterritorial dos atos dos agentes de um Estado, em representação desse Estado, vinculando os Governos às atividades e condutas daqueles que enviam em seu nome e, por outro lado, assegurando que os seus diplomatas, consulares e agentes sejam prudentes nas suas tomadas de decisão – o que, desde logo, tem efeitos não só ao nível político, como ao nível social, face à formação que deve ser exigida a todos aqueles que atuam por um Estado.

Como tal, é de defender que o Princípio do Non-Refoulement não somente se aplica a outros Estados não contratantes da Convenção em análise, como explica Weis, mas também se aplica para além do limite territorial restritos destes Estados, abrangendo as condutas das autoridades oficiais destes e que atuam em seu nome, onde quer que elas ocorram.