2 A IMAGINAÇÃO MOLDA UM CORPO EM CRIAÇÃO
2.8 É como moldar em argila: a fluidez do percurso
Assim, minha preparação sofreu alterações na pandemia de Covid-19 para se adaptar ao espaço e, nessa adaptação, eu voltei a trabalhá-la com mais flexibilidade, sem me engessar na teoria e prática já consolidada por outras(os) atores/atrizes e encenadores(as). Eu passei a ter uma visão dos elementos dos quais me apropriava de maneira mais interligada/conectada dentro do meu processo criativo. O que tornou minha investigação tão fluida quanto a prática no espaço de criação e me possibilitou suprimir alguns exercícios, adicionar outros, transformá-los e/ou mudar a sequência deles várias vezes. Isso era algo que eu até já fazia, mas, agora, de uma maneira mais acentuada, com maior liberdade.
Isso me fez não desistir da preparação durante o isolamento e, sim moldá-la, como eu me moldo corporalmente para criar uma personagem como a Maroca e como eu moldava a argila na aula de artes da escola, segundo o relato do diário do dia 20 de abril de 2020 (que chamo de diário pandêmico). Um trecho dele já foi compartilhado acima, mas, agora, apresento na íntegra, pois ele reflete bem o que tornoumeu processo criativo possível durante o isolamento: sua dinâmica e fluidez.
“Houve uma época, ainda no fundamental, que eu modelava em argila.
Comecei com algumas aulas na disciplina de artes da escola, eu simplesmente fiquei fascinada com a sensação de ter a argila molhada entre as mãos e poder moldar como quisesse. Mas aprendi que, para chegar à forma desejada, era preciso
começar com uma grande quantidade de argila nas mãos e, aos poucos, ir retirando os excessos daqui e dali em busca da forma.
A preparação de hoje me mostrou que muito do que eu fiz nos últimos meses foi colocar uma grande quantidade de argila nas mãos e, portanto, ainda há excessos que podem ser retirados. Ontem, eu tive dificuldades em realizar vários exercícios e, logo, os interrompi. Passei a noite pensando em desistir da maioria deles. No entanto, hoje, sem qualquer ideia de como adaptá-los, eu comecei a preparação no mesmo espaço pequeno do meu quarto. Sim, eu não havia pensado em como refazê-los ou qual ordem seria mais viável, nem quais deveria retirar da preparação.
Eu iniciei com um alongamento, seguido de uma sequência de yoga. Após o último asana [postura], eu não retornei à posição inicial, sentada com as pernas cruzadas, preferi permanecer deitada e seguir com a meditação nessa posição. Não é comum [para mim] meditar deitada, mas sei que alguns praticantes o fazem.
Assim, meditei um tempo deitada e, ao finalizar, emendei com o exercício de contração de Chekhov.
A partir daí, a sequência dos exercícios seguiram um fluxo contínuo. Após a contração, iniciei uma respiração abdominal e movimentos com a pélvis [Bartenieff]
que, aos poucos, me levaram ao plano alto.
Quando já estava no plano alto, comecei a me mover como numa dança, havia música que eu deixei tocando no espaço desde o início da sequência de yoga.
A dança me fez querer expandir, irradiar energia pra longe das quatro paredes que me prendem em casa devido às circunstâncias do mundo. Eu queria poder voar pra longe e, então, o exercício de expansão [o vôo] começou a acontecer, sem que eu precisasse escolhê-lo. Eu nunca pensaria em realizar o vôo dentro do espaço que tenho hoje, não da forma como eu o realizava.
O exercício de expansão foi realizado de olhos abertos, assim como todos os que foram realizados antes e depois dele (exceto a meditação), e não foram realizados saltos rápidos. Eu abri os braços, pernas, peito (plexo solar), boca, olhos, tudo lentamente. Fui retirando os pés aos poucos do chão, como quem se prepara para saltar, cheguei a ficar nas pontas dos pés, dei um pequeno pulo, mas não saltei na materialidade, só na imaginação.
Em seguida, voltei a me mover sem um objetivo, apenas me relacionando com o ambiente, o espaço que, agora, já não é mais um espaço vazio de objetos, o meu corpo encontra outras matérias nesse espaço e se relaciona com todas elas, porque elas são o novo espaço de trabalho/preparação. Parece uma dança, mas o ritmo não é o da música, é outro que não sei se vem de dentro ou da relação com o que está fora. Mas é gostoso, muitas sensações, poucas imagens, os olhos reconhecem o espaço novo e esse é o fluxo de imagens que tenho até que… meu antebraço esquerdo começa a se mover pelo meu quadril, vejo minha mão esquerda em punho se aproximando do meu peito. A mão se abre com a palma virada para cima, vejo uma aliança na palma da mão, uma imagem interior, uma lembrança de vovó olhando a aliança de vovô na cabeceira da cama. Vovô era alérgico a ouro, só usava a aliança em ocasiões especiais.
A partir dessa imagem, peguei uma borracha que estava em cima da mesa de estudos e segui a preparação com os exercícios das ações simples de Chekhov. A ação era pegar a borracha (aliança) com a mão esquerda. Depois acrescentei mais uma ação: olhar para a borracha na palma da mão. Depois mais uma: devolvê-la à mesa. Repeti cada ação várias vezes de diferentes formas e velocidades. Em sequida, repeti a sequência dessas ações em diferentes formas e velocidades. Esse foi o último exercício antes de partir para o ensaio da primeira parte do monólogo.
O ensaio foi especial, contou com a presença da minha mãe, ela foi a espectadora. Isso tornou cada ação, cada gesto e cada palavra mais sincera, parecia que havia silêncios, enquanto eu falava, sendo preenchidos de intenção, um tempo diferente da fala. Eu não conseguia olhar nos olhos dela e não ver a imagem de tudo o que eu contava… ou melhor, o que a Maroca contava. Ela conhece muitas dessas histórias e me passou sua confiança ou crença naquilo que eu dizia. Esse foi um presente que o momento atual me proporcionou. Talvez, em um palco convencional com outros espectadores, esse contato entre mim e minha mãe não acontecesse, pelo menos, não como aconteceu.”
(Diário de bordo de 20 de abril de 2020).
Esse diário foi escrito durante a pandemia e não apenas cita todos os exercícios e práticas que realizo, como também foi o registro da primeira
preparação, durante o isolamento, que funcionou sem interrupções, frustrações ou machucados (não bati nenhum dedinho do pé na porta do armário do meu quarto).
Diante de práticas e exercícios que, assim como convergem, também divergem em tantos aspectos (especialmente, no contexto histórico de origem), o que sustenta a dinâmica entre eles no meu processo é a fluidez com a qual me movo de uma prática para a outra, de um exercício para outro, sem interromper a preparação. A palavra fluidez aparece com frequência nos meus diários, mas eu só reparei sua presença quando ela foi mencionada na banca de qualificação deste trabalho e, também, quando eu precisei me isolar compulsoriamente do mundo, pois eu tive que conduzir o processo da maneira mais flexível e orgânica possível dentro de um novo espaço de criação, meu apartamento.
Para isso, eu não me prendi à reprodução das práticas somáticas e exercícios de Chekhov da mesma maneira que eu os realizava nas salas amplas do Departamento de Artes (DEART/UFRN). Ou seja, eu deixei meu corpo experimentar as qualidades possíveis para o movimento que eu fazia dentro do meu apartamento.
Além disso, eu alterei a sequência dos exercícios e práticas sem uma preocupação com os “momentos” de cada um na preparação. No caso, antes da pandemia de Covid-19, eu já alterava frequentemente a sequência dos exercícios e práticas, mas sempre mantinha um primeiro momento para as práticas somáticas e um segundo momento para os exercícios chekhovianos. A partir dessa preparação do dia 20, eu deixei de separar a somática dos exercícios de Chekhov, pois eu fiz escolhas diante do fluxo criativo do meu corpo em movimento no espaço e reconheci que essa separação não existe no momento da criação.
Portanto, agora, vou refazer meu percurso criativo a partir desse diário pandêmico, pois ele apresenta uma preparação que, não só se adapta ao espaço doméstico e cotidiano, mas, sobretudo, prepara um corpo-atriz em isolamento para criar nesse novo espaço.
Então, dessa vez, eu comecei com um alongamento, seguido de uma sequência de yoga. Não houve uma pausa entre um e outro, eu lembro de ter alongado braços, pernas e pescoço ainda em pé; quando flexionei todo o corpo para frente no intuito de alongar a coluna, já segui com o asana Adho Mukha
Svanasana56(a postura do cachorro olhando para baixo). A partir dessa postura, eu desenvolvi uma sequência que terminou no plano baixo, deitada de barriga pra cima e decidi seguir com uma meditação, algo que costumava iniciar as preparações anteriores.
Essa meditação foi feita deitada, pela primeira vez, e isso facilitou realizar, logo em seguida, o exercício de Contração de Chekhov. Eu senti a necessidade de contrair nesse dia, pois eu já estava há um tempo isolada, com medo de adoecer por conta do vírus e com a sensação de estar o tempo todo exposta a ele, por isso eu queria me recolher, me proteger e isso fazia com que eu me contraísse. Além disso, eu precisava sentir que eu cabia naquele espaço para me mover e criar.
Naquele momento, a Contração era o primeiro exercício de Chekhov que eu precisava e essa necessidade se manifestou após a realização de apenas duas práticas somáticas, assim como também conduziu de volta para a somática, ao invés de exercícios chekhovianos, com a realização dos exercícios de Bartenieff: a respiração abdominal e uma movimentação que se iniciou pela pélvis e me levou ao plano alto. Quando me desloco do plano baixo até o alto através do movimento da pélvis, acompanhado pela respiração no abdômen, eu percebo que não faço qualquer esforço contrário ao fluxo natural do meu corpo. A ação da gravidade, como um vetor oposto ao movimento (pendular) que faço, parece ser atenuada.
Depois dos exercícios de Bartenieff, sem cessar a minha movimentação, eu comecei a escutar novamente a música que havia colocado como estímulo sonoro, e senti o desejo de dançar. Essa dança desencadeou o exercício de irradiação de Chekhov, que também é proposto por Stanislávski. Eu irradiava energia para as quatro paredes do meu quarto, para cada matéria dentro dele. Eu ocupava e me relacionava com o novo espaço e os objetos através dos raios de Stanislásvki.
Esse exercício de irradiação me fez desejar expandir meu corpo, eu abri os braços, as palmas das mãos, os ombros e a região torácica. Então, comecei mais um exercício de Chekhov, o de Expansão. O espaço era bem menor do que eu
56 Adho Mukha Svanasana é uma postura do yoga em que a(o) praticante começa nos quatro apoios, com os joelhos distantes na largura do quadril e as mãos na largura dos ombros. Em seguida, ela(e) retira os joelhos do chão, esticando as pernas (sem tensionar os joelhos) e eleva a pélvis para o teto o máximo que puder, sem perder o alinhamento da coluna. É importante manter o abdômen ativo e a coluna reta. Cabeça e pescoço devem ficar soltos nessa posição invertida, o ideal é olhar para os joelhos e evitar tensionar o pescoço.
costumava trabalhar e, até aquele momento, esse exercício não tinha funcionado e eu já tinha decidido suprimi-lo da preparação enquanto estivesse isolada.
Contudo, após a irradiação, eu já não queria mais ficar pequena dentro do espaço, como desejei ao realizar a Contração. Eu precisava crescer para ocupar o meu quarto e toda minha casa. Ou seja, o exercício de Expansão era uma forma de dar continuidade a uma necessidade corpórea. Por esse motivo, eu continuei a expandir, mas comecei lentamente e tive o cuidado de não acelerar muito o movimento de abrir e fechar os braços, pois isso evitaria o desejo de saltar, e um salto no espaço pequeno poderia resultar em alguns machucados.
A intenção do movimento já bastava, o desejo de expandir e voar já supria minha necessidade. A minha imaginação conseguia sentir que o corpo crescia dentro daquele ambiente pequeno e ocupava todo o espaço. Eu me imaginava pronta pra saltar e levitar dentro do quarto, quando o movimento de expandir começou a reduzir lentamente, e eu comecei a me mover em relação aos móveis e aos objetos que tinha no espaço. Eu os olhava e tocava, enquanto me movia como numa dança. O ritmo, como relato, se instaura a partir da relação entre o que acontece dentro de mim e o que está ao meu redor; isso é muito representativo da somática.
Isso me fez perceber que, nesse instante, o exercício de Expansão de Chekhov me levou novamente para uma prática somática, aquela inspirada no Movimento Autêntico. É importante lembrar que eu já a adaptei para minha preparação, tanto que a chamo aqui de Movimento Sensível da Memória Cênica, pois o que faço no meu processo criativo não se configura, de fato, em Movimento Autêntico.
Nessa preparação pandêmica, essa prática se modificou ainda mais, o que me fez nem sequer reconhecê-la imediatamente no ato da escrita do diário. Nesse dia, eu optei por manter os olhos abertos (antes da pandemia, eu os fechava), e ele se iniciou como uma dança, mas que não se guiava pelo estímulo sonoro apenas e, sim, por todos os estímulos presentes no ambiente, pela relação com o espaço e os objetos dentro dele, o que gerava impulsos corporais em resposta, e isso me trouxe sensações de acolhimento. Pela primeira vez, eu me senti acolhida no espaço criativo do isolamento, assim como eu me sentia na casa da minha avó. O cheiro de capim-limão, que coloquei como estímulo olfativo, contribuía ainda mais para isso.
Essa sensação e esses estímulos me conduziram, dentro do exercício, ao movimento de pegar a borracha, que, por sua vez, me trouxe a imagem da aliança na palma da mão e, junto a ela, a lembrança de que me avô era alérgico a ouro e não usava sua própria aliança.
Eu iniciei uma análise sobre essa imagem-memória-movimento da aliança em um momento anterior deste trabalho e a retomo, agora, para reforçar que essa relação entre a imagem e a memória me traz sensações fortes, assim como o desejo de repetir o movimento várias vezes até fixar a imagem no corpo.
À medida que eu repetia o movimentode levar a mão em punho até o peito e, em seguida, espalmá-la para cima e observá-la, intensificava-se a imagem da aliança na palma da mão e da minha avó segurando-a ao lado da cabeceira da cama. Então, eu comecei a fixar meu olhar em uma borracha, que estava em cima da mesa de estudo. Peguei-a com uma das mãos e comecei a observá-la. Eu repetia o mesmo movimento, mas, agora, eu pegava a borracha antes de fechar a mão em punho e levá-la ao peito. Quando eu abria a mão, olhava para a borracha.
A partir daí, eu percebi que podia seguir com a realização dos exercícios das ações simples de Chekhov. Então, eu defini a primeira ação: pegar a borracha/aliança; a segunda ação: olhar a borracha/aliança na palma da mão;
terceira ação: devolver a borracha/aliança para a mesa. A última ação eu acrescentei depois de repetir a primeira e a segunda algumas vezes, pois o movimento que eu repetia terminava com a mão espalmada, e esse movimento já havia sido desdobrado em duas ações.
Durante todo esse tempo, a lembrança do meu avô alérgico à própria aliança me acompanhava e era ela que me fazia “enxergar” uma aliança, ao invés da borracha, ou seja, ela sustentava minha imaginação. A intenção de olhar para a mão em busca da aliança como um bem precioso surgiu da combinação entre o movimento repetitivo de pegar a borracha e a atualização da lembrança de que meu avô não usava aliança, devido a uma alergia. Essa atualização, que seria a (re)criação da memória, é justamente a imagem da minha avó olhando para a aliança do meu avô na cabeceira da cama, algo que eu nunca a vi fazer.
Um dos aspectos interessantes dessa preparação é a relação com o objeto, a borracha. Porque, a princípio, eu trabalhava mais com uma quantidade limitada de objetos previamente selecionados, que eu levava como estímulo para o espaço de
criação. Mas, nesse dia, eu estava cercada por uma variedade de utensílios domésticos, e a borracha, com a qual eu não tinha qualquer relação afetiva, foi o objeto escolhido para se relacionar com o movimento, a imagem e a memória.
Depois desse dia, eu passei a me relacionar com quase todos os objetos presentes na casa. O que eu percebi é que aqueles que não tinham valor sentimental, apesar de não servirem de estímulo para a (re)criação de memórias, potencializavam a imaginação, à medida que eu precisava visualizar a imagem com mais precisão e sustentá-la desde o primeiro exercício em que ela surgiu até o improviso. Nesse exemplo, eu precisava enxergar a aliança na minha mão quando olhasse para a borracha, desde o exercício das ações simples até o improviso.
Em síntese, o desejo de realizar um movimento parte das sensações trazidas pela memória atualizada, pelo registro corporal feito pelo movimento repetitivo e pelas imagens que suscitam desse encontro (memória-movimento). Essa tríade (memória-movimento-imagem) preenche a ação de intenção, o que a torna uma ação física.
Assim, na improvisação, as ações já estão preenchidas de intenção, os movimentos já se tornaram ações físicas e, a partir delas, eu começo a esboçar situações possíveis e a improvisar cenas. Por exemplo, a partir das ações com a borracha/aliança, eu criei uma primeira situação em que a personagem Maroca vê a aliança em cima de uma cabeceira, a pega na mão, diz que é do marido e pergunta por ele. Depois, em outro improviso, ela olhava para sua mão, percebia que estava sem aliança e não lembrava onde a teria deixado.
No espetáculo presencial, essa cena era a da Aliança Esquecida, e a personagem, de fato, olhava para a mão, estranhava não estar com a aliança e achava que a tinha esquecido na pia do banheiro, uma deixa para ela transitar para a cena seguinte. Ou seja, o movimento de pegar o objeto se perdeu, mas a intenção se manteve na ação de olhar para a mão. Essa cena ainda está em estudo na versão virtual do monólogo, em construção, devido à necessidade de relação com a câmera, o dispositivo que se tornou essencial para a comunicação entre as pessoas durante a pandemia.
Esse diário apresenta várias dificuldades que encontrei na realização do meu processo criativo dentro de casa, isolada, durante o período pandêmico. Um espaço muito pequeno para expandir o corpo sem me machucar, onde eu não podia saltar
no exercício de Expansão, nem fechar os olhos na prática do Movimento Sensível da Memória Cênica, nem realizar movimentos muito amplos e rápidos. Ao mesmo tempo, tive que aprender a me relacionar com tudo ao meu redor, pois não eram apenas os objetos previamente escolhidos e as músicas não eram ouvidas sem interferência da novela que minha mãe assistia na sala, do latido da minha cachorra quando ouvia uma campainha e da britadeira do prédio em construção a duas quadras do meu.
No entanto, eu encontrei soluções para essas dificuldades enquanto adaptava as práticas e exercícios no espaço de casa. Muitas adaptações que poderiam ser limitantes para minha preparação a potencializaram, principalmente no que se refere à imaginação; a relação com objetos como a borracha é um exemplo disso. A característica do meu processo de transitar de um exercício para outro com fluidez, como se não existisse o começo de um e o fim de outro, facilitou a manutenção da relação com o espaço, que se instaurava do começo ao fim do processo. Além disso, apurou a escuta das minhas necessidades corporais em cada preparação (quais práticas contribuíam para meu relaxamento muscular naquele dia específico).
Assim, esse processo criativo é como modelar a argila: é preciso deixar o movimento corpóreo deslizar leve e em fluxo contínuo sobre a imaginação desde o início da preparação, como as mãos deslizam pelo bloco de argila molhada. Quando isso acontece, as memórias começam a atravessar o movimento no intuito de moldar um pouco sua forma, como a água que amolece a argila para o manuseio das mãos. E, nessa tentativa, as memórias também deslizam junto com o movimento sobre a imaginação, como a água sobre a argila, que perde sua transparência para ser menos água e mais barro.
Depois disso, a modelagem fica mais fácil, a argila está mais mole, a
Depois disso, a modelagem fica mais fácil, a argila está mais mole, a