1. O INVISÍVEL NO PROCESSO LEGAL D’APOLOGIA
1.7 É SIM PRECISO LEMBRAR-SE DAS COISAS RUINS
Na esfera política, após a retomada da democracia em 403/404, havia sido decretada uma lei que anistiava os que teriam apoiado o golpe oligarca na tentativa de impedir o clima de guerra civil que estava no ar por conta da memória ainda viva da stásis que repartiu a população entre oligarcas e democratas. Com essa lei, não haveria mais como formalmente incriminar aqueles que teriam, mesmo que supostamente, ajudado a manter ou propiciado as condições da Tirania dos Trinta. Porém, seria mesmo possível que apenas a declaração dessa lei realmente evitasse o espírito revanchista? Creio que dificilmente a população não estaria imersa na memória vívida das atrocidades cometidas há tão pouco tempo.
Ou alguém, como Anito136, tão maquiavélico a ponto de burlar um sistema de sorteios (uma premissa de equidade e imparcialidade da democracia ateniense) e mesmo assim manter
135 Xenofonte, Memoráveis 3.
136 Contra esta perspectiva que estou elaborando existe o exemplo positivo em Isócrates, Contra Calímaco 18.23, onde Anito
e Trasíbulo são vistos como pessoas que perderam muito dinheiro com os Trintas Tiranos e mesmo assim não se vingaram. Possivelmente esse trecho de Isócrates é a base para a visão positiva de Anito em COLAIACO, 2001, p. 73. Contudo, Edwin Carawan (2002, p. 11-12 e reiterado depois em Ibid., 2013, p. 96-96) contextualiza o discurso de Isócrates com as leis atenienses, exibindo que tanto Anito quanto Trasíbulo não teriam tido problema algum, assim que a democracia foi reinstaurada, em retomar suas posses, como propriedade de terra e outros bens, sendo o texto uma referência mais específica a não terem processado àqueles que listaram as propriedades para o confisco e ganharam uma parte pelo trabalho. Além
sua reputação de defensor da democracia, não seria capaz de se apropriar de um motivo qualquer para escapar dessa lei que anistiava os supostos apoiadores dos Trinta? Podemos até conjecturar que essa situação justificaria usar Meleto, o principal acusador, como testa de ferro, afinal, por suas próprias conquistas pessoais ele é alguém praticamente esquecido pela História e caracterizado em Eutífron 2b como um jovem pouco conhecido e que, como afirmou Diógenes Laércio 2.43, teria terminado executado137 em função justamente dessa condenação de Sócrates. Mas o que seria, então, essa anistia?
Notavelmente, o interrogatório de Sócrates sobre Meleto ocorreu no contexto da anistia de 403 a.C., emitida pela democracia restaurada após a derrubada dos Trinta Tiranos. O novo governo democrático declarou o ano 403-402 a.C., o do arcontado dos Euclides, como a inauguração de uma nova era de harmonia. A anistia, também conhecida como Ato de Esquecimento, foi projetada para curar as feridas resultantes da guerra civil entre democratas e oligarcas nos últimos meses. A anistia impediu a acusação daqueles que eram considerados inimigos políticos, os que apoiaram a tirania dos Trinta. Como decretado, nenhuma pessoa poderia ser indiciada por crimes contra o estado, além de homicídio, cometidos antes de 403 a.C. (COLAIACO, 2001, p. 108).
Para compreender bem os aspectos implícitos do julgamento de Sócrates, é necessário entender o contexto histórico na Atenas dessa época. Portanto, o próximo ponto a ser estudado é justamente essa lei de anistia e as características maiores por trás de motivações políticas desse julgamento. A Guerra do Peloponeso e a praga que acudiu Atenas, vitimando muitos cidadãos, criou uma cidade cindida em facções, com duas vertentes mais extremadas: a dos oligarcas e a dos democratas. Em 404, Atenas perdeu a guerra e uma facção conhecida como os Trinta Tiranos138, uma oligarquia apoiada por Esparta, aterrorizou o que sobrou da cidade. Assassinaram, confiscaram posses e mandaram para o exílio diversas lideranças democráticas. Porém, Sócrates continuou esse período todo em Atenas sem represália. Não à toa “a expressão ‘aqueles que ficaram na cidade’ tornar-se-á sinônimo de ‘partidários dos Trinta’” (CANFORA, 2000, p. 30). Isso causou uma má reputação difícil de ser removida, mesmo sabendo-se que Cáricles (outro dos Trinta) e Crítias quiseram proibir Sócrates de
disso, precisamos levar em conta o uso retórico dessa afirmação e a menção a Trasíbulo, alguém mais atuante no retorno da democracia que Anito, e lembrar que a data deste discurso é calculada em 402 (ISÓCRATES, 1965, p. 253), ou seja, está no intervalo entre o processo de Anito em 409, a lei instaurada contra o dekázein e a descrição do novo modelo de sorteio de jurados do quarto século que aparece na comédia de Aristófanes em 321.
137 Debra Nails (2002, p. 202) afirma categoricamente que a versão da morte de Meleto que aparece em Diógenes (e também
em Diodoro) é falsa, mas não exibe a evidência. Há ainda o problema com a identificação de Meleto na história, conforme visto anteriormente.
dialogar com os jovens (Ibid., p. 32) e que o filósofo recusou-se a apoiar uma decisão dos Trinta, a de trazer Leon de Salamina para ser executado (Apo. 32d).
Logo, se por um lado não podemos atestar que Sócrates tenha realmente compactuado com a oligarquia, isso também não é mera impressão, pois ele de fato circulava no universo dos inimigos da democracia. Afinal, de todos habitantes de Atenas, apenas trinta foram escolhidos para formarem esse grupo oligárquico e Sócrates era próximo ao menos de dois deles: Crítias, que ocupou a liderança do grupo e Aristóteles139 (filho de Timocrates).
Além disso, outros dois amigos de Sócrates estiveram envolvidos com a oligarquia e com atos de impiedade, como Cármides, um dos membros dos Dez do Pireu140, tendo ele sido
criado por Crítias141 e acusado de profanar os mistérios de Elêusis em 415, assim como Alcibíades142 que ainda foi considerado suspeito de ter destruído as estátuas de Hermes e, depois, se virou contra Atenas ao se refugiar na inimiga Esparta143. Alcibíades ainda tinha sido, supostamente, o erṓmenos de Sócrates, o que, pela relação tradicional de paideía, significaria que o mais velho teria instruído o mais novo, portanto, não seria difícil para o ateniense mediano associar os maus feitos dele com a educação socrática144.
Assim, vemos que pessoas próximas a Sócrates estiveram diretamente envolvidas com ataques ao modo de vida da Atenas democrática, estigmatizando-o como um corruptor, por presumirem que ele tivesse tido alguma influência na educação deles. Após apenas oito meses do golpe oligárquico que empossou os Trintas, em 403, esse governo foi desfeito, a democracia restabelecida e as leis que eles tinham feito foram cassadas e os exilados retornaram. Os que diretamente estiveram envolvidos no golpe foram assassinados. Mas para recompor a cidade, o elo comum entre os atenienses, foi feito um pacto de não lembrarem os maus feitos, mḕ mnēsikakeîn, e a anistia foi decretada. Vários autores comentam sobre essa anistia, como Andócides em Sobre os mistérios (81) ou Isócrates em Contra Calímaco (18.20). Em Platão, na Carta VII 336e, esse verbo mnēsikakeîn chega a ganhar até um sentido mais vingativo de retaliação.
139 Obviamente não se trata de Aristóteles, o filósofo do Liceu, pois este não conviveu com Sócrates. Esse membro dos Trinta
é um homônimo que Parmênides 135d faz parecer ser alguém com vínculo a Sócrates (NAILS, 2002, p. 57-58).
140 Houve um momento, em 404, onde os Trinta foram despostos e assumiu uma facção oligárquica mais moderada: os Dez
do Pireu.
141 NAILS, 2002, p. 91.
142 No entanto, ter estado unido a Alcibíades não causou dano à reputação de Trasíbulo, o líder democrata, ver em BUCK
(1998, p. 91). Dessa forma, o estigma imputado a Sócrates pelos maus feitos de Alcibíades viria por sua ligação afetiva mais pessoal e pela relação de paideía percebida pelos seus concidadãos, tenha sido ela factual ou não.
143 Plutarco, Alcibíades, 23.
144 Apesar de muitas referências apontando a relação entre Alcibíades e Sócrates, Isócrates (Busiris, 5) diz que Alcibíades não
foi aluno dele (mathētḗn / paideuómenon), contradizendo Polícrates e reforçando o que está em Apo. 33b, onde vemos Sócrates dizer que não ensinou lição nenhuma e nem foi professor de ninguém.
A anistia, então, era uma esperança de união para que a cidade não caísse em guerra civil novamente. Andócides afirmava que o decreto da anistia fora feito tão logo a democracia tinha se reerguido145. Mas justamente por ser uma anistia, ela impedia que os suspeitos de apoiarem a oligarquia fossem processados, daí esse pedido da cidade para que seus cidadãos não se lembrassem das coisas ruins que aconteceram. Como assinala JOYCE (2008, p.513- 514), as palavras de Andócides sugerem que a anistia pretendia dar um fim ao que de outra forma seria um conflito civil incessante, portanto, era preciso convencer aos simpatizantes da oligarquia vencida que se eles baixassem as armas, não seriam massacrados. A ideia da anistia era, em resumo, reestabelecer a concórdia civil pelo perdão dos crimes cometidos durante a tirania dos Trinta.
Assim sendo, se por um lado a anistia impedia processar os que tinham algum vínculo com a oligarquia e continuaram na cidade, pela garantia do decreto, isso não quer dizer que os atenienses todos aceitariam de bom grado o fato de não poderem ter uma revanche. Mas é óbvio que, mesmo com essa restrição, alguns democratas iriam buscar alguma compensação contra aqueles que eram vistos como mentores, mas não puderam mais ser penalizados, uma vez que “não é nenhuma surpresa que os atenienses fossem procurar culpados em pensadores como Sócrates, afinal esses pensadores desafiavam a sabedoria estabelecida e a tradição” (BRICKHOUSE et al., 1989, p. 19).
Imaginar uma motivação extra para o processo de impiedade não é algo incomum. A anistia impedia uma motivação aberta sobre o envolvimento de Sócrates com a oligarquia. Mas, segundo a Apologia, o preconceito que Sócrates carregava já datava de pelo menos uns vinte anos, pois o julgamento foi em 399 e a peça As Nuvens de Aristófanes era de 423. Para essa comédia ter sido eficaz foi necessário que a visão do Sócrates caricaturada ali fosse já de domínio público. O fato de uns cidadãos terem frequentado o círculo socrático de amizades e se envolverem depois na tirania dos Trinta, comporem a oligarquia ou serem ligados a atos de impiedade, somente fez com que o ateniense médio, aquele que não conhece nem se preocupa com questões filosóficas, nem tampouco era voltado a um desenvolvimento moral como Sócrates apregoa, tivesse uma visão distorcida dele. Não importaria, então, se Sócrates nem fosse oligárquico, tampouco importaria se ele fosse pio. O preconceito ali no júri, solidificado ao menos por duas décadas, com os jurados possivelmente se distraindo com o que acontecia em um dia comum da Ágora, já tinha seu veredito.
Para os Atenienses que o condenaram, Sócrates era um miasmático (Apo. 23d), um impuro que enquanto não fosse punido continuaria sendo causador de míasma a toda cidade. Mas essa acusação não vem por uma falta religiosa de fato, como foi o ato ímpio de quebrar as hermaî, a questão, como defendida ao longo desta dissertação por um anacronismo controlado146, foi política. Afinal, ele era um tipo de educador que rodeou as peças chaves da disputa oligárquica e que por isso precisaria ser levado à morte, por meio do julgamento como um ritual de expiação dos crimes de sangue causados pelos Trinta, uma vez que estes, hipoteticamente, teriam sido instruídos por ele. Assim, a pólis teria sua saúde sanada por meio desta purificação ofertada de acordo com o interesse do dē̂mos. Contudo, essa condenação parece ter sido injusta, frente à exposição presente nos textos antigos, além do que sabemos pelos relatos dos fins trágicos de quem o condenou147, pela perda de poder de Atenas e pela memória que se perpetuou ao longo dos séculos, que foram os atenienses medianos, seus acusadores e condenadores, que fizeram um ato contra a vontade da divindade e não aquele que tentou, a seu modo, interpretar a missão apolínia e liberar seu próprio povo do mal da opinião falsa e da mera aparência de sabedoria.
146 Veja na introdução, com base em LORAUX (1992). 147 Ver NAILS, 2002, p. 38.