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O S AGRADO COMO R EGISTRO E C ONSTRUÇÃO E SPAÇO T EMPORAL

2.4. O S S ÍMBOLOS E A R ELAÇÃO E SPAÇO T EMPORAL

2.4.1. A H ÉLADE DO E SPAÇO

52 Símbolo é considerado conjuntamente com ícone e índice, um modo de significação e refere-se à alguma coisa. É, na terceiridade peirciana, parte de um sistema seletivo, uma associação arbitrária com algo que busca representar, conferindo significado a este.

53 Santaella (2005, p. 52) afirma que “compreender, interpretar é traduzir um pensamento em outro pensamento num movimento ininterrupto, pois só podemos pensar um pensamento em outro pensamento. É porque o signo está numa reação a três termos que sua ação pode ser bilateral: de um lado, representa o que está fora dele, seu objeto, e de outro lado, dirige- se para alguém em cuja mente se processará sua remessa para um outro signo ou pensamento onde seu sentido se traduz. E esse sentido, para ser interpretado tem de ser traduzido em outro signo, e assim ad infinitum”.

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A ótica grega pós-mito produziu um mundo estático, pacífico, moderado e harmonioso. Parece abstrato e alienante, impessoal, analítico e racional em tudo. Para a mentalidade grega importa o ser como conceito, mesmo que fixo e imóvel. A casa ou o templo significa o objeto-casa ou o objeto-templo. Como consequência, a arquitetura inspirada no pensamento helênico baseia-se nas ordens das colunas, nas proporções, nos entablamentos, em uma visão compositiva ordenada e imutável, pois seus elementos interdependem-se.

Os gregos antigos foram notáveis por sua abordagem pioneira e experimental do mundo. Foram inúmeros os filósofos gregos que elaboraram teorias com argumentos ponderados e experimentos práticos os quais exerceram grande influência sobre a geometria sagrada. As descobertas pitagóricas do século VI a. C., quanto às relações geométricas, viriam a constituir a base dos sistemas harmônicos da arquitetura religiosa na Renascença. Suas inferências foram consideradas em termos de uma revelação divina da harmonia universal. Isto significa uma possível compreensão do universo a partir de postulados matemáticos. Caberia ao homem, portanto, descobrir os números ocultos em toda a manifestação da natureza. É óbvio reconhecer que essa doutrina encontraria paralelos na ciência mais de vinte séculos depois.

Os discípulos de Pitágoras afirmavam que os números eram unidades independentes que possuíam determinadas dimensões espaciais indivisíveis e eternas. De qualquer maneira, a ideia pitagórica de unidade finita foi rapidamente criticada por Zenão54 que, por meio do seu famoso paradoxo, desacreditou a teoria.

Pitágoras sustentava esses números e proporções como fundamentais para a estruturação de todo o mundo (figura 4). O cubo era o que de mais perfeito existia. Entende- se isso diante da geometria clássica onde ir além da terceira dimensão (comprimento, largura e altura), era impossível.

54 Zenão, natural de Eléia, foi amigo e, em certo sentido, discípulo de Parmênides. Nada se conhece acerca de sua vida, a não ser através de narrativas como a de Platão sobre um encontro entre Zenão e Sócrates e outras citadas por Aristóteles.

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Platão, principal responsável pela racionalização do homem helênico, em seu Timeu (360 a.C.), escreve que a “harmonia cósmica está contida em determinados números...”. Em suas prescrições para o arranjo da pólis, afirma que todos os detalhes exigiam uma atenção mais delicada.

Pennick (1980, p. 63) sobre Platão em Timeu, afirma ainda em Timeu, “que a harmonia cósmica está contida em determinados números formados nos cubos e nos quadrados de proporção dupla e tripla que começam na unidade. São criados por duas progressões geométricas – 1,2,4,8 e 1,3,9,27 (figura 5). Tradicionalmente representados com a letra lambda, eles impregnam a tradição geométrica europeia desde a Grécia até a era moderna. Para Platão, a harmonia do universo estava expressa em sete números (o próprio 7 é um número místico): 1,2,3,4,8,9,27 – figuras que abarcam os Figura 4: O diagrama de Fludd onde a

harmonia dos poderes celestiais (planetas) harmoniza com as forças terrestres num continuum cósmico.

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mistérios do macrocosmo e do microcosmo, números adequados mais que todos os outros para incorporação à arquitetura sagrada”.

Pennick define como “geomancia” a natureza do desenho obrigatória aos desenhistas de suas cidades, que deveriam, segundo Platão, tomar o divino como seu padrão. Este declarava que os templos deveriam ser erigidos ao redor de um mercado e por toda a cidade em pontos elevados. A natureza geométrica do plano da cidade era evidente. Esse padrão era, na realidade, um esquema cosmológico que pretendia elevar o homem em identidade com o divino. Todos os atributos geométricos e numerológicos refletem o ideal divino, cuja consumação, se conseguida, uniria o homem ao grande princípio constitutivo do universo.

Euclides, o geômetra grego mais famoso, tornou-se manual de geometria até o presente século. Sua geometria teórica, estudada de per si, persiste até a Renascença quando número e medição angular se tornaram importantes e as razões do número inteiro eram dogmaticamente empregadas na arquitetura religiosa.

O paralelo geométrico do cosmos impregnou toda a esfera da vida grega. A conexão íntima entre a forma geométrica e a história sagrada, por conseguinte, é óbvia, quando poderia até ser elevada à categoria de um ato mágico para livrar o povo de uma dificuldade, dado que até mesmo, quando a pólis enfrentava tal situação, oráculos eram consultados e,

Figura 5: O lambda de Platão, tradição geométrica europeia. Fonte: Timaeus.

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não poucas vezes a orientação recebida era de uma intervenção de natureza geométrica no espaço urbano.

O aspecto eminentemente espacial da arte grega foi a materialização do pensamento filosófico na Hélade. Quando a reverência pagã antiga para com o mundo ainda não havia sido superada, todo objeto que passasse pelas mãos dos artesãos continha propriedades religiosas. Este tinha consciência da finalidade para a qual o seu produto artístico era destinado. Por que toda a Terra fora sacralizada, todo o material empregado no fazer artístico da mesma forma era um ato de adoração. Nesse contexto, a seção dourada, a qual será tratada adiante impregnava o ideal de harmonia desde as construções mais relevantes até os objetos utilitários mais comuns do contexto secular.