2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.5 Ética Empresarial e Responsabilidade social
Os conceitos de ética empresarial e responsabilidade social são muito próximos e usados como sinônimos, mas seus significados são diferentes. Como foi citado anteriormente, a ética empresarial compreende princípios e padrões que norteiam o comportamento no ambiente empresarial, o qual será julgado como certo
ou errado, ético ou antiético pelas pessoas envolvidas. A ética serve como base para a responsabilidade social; não há responsabilidade social sem ética empresarial. A responsabilidade social nas empresas consiste na obrigação delas com os seus stakeholders (clientes, proprietários, empregados, comunidade, fornecedores e governo), com a comunidade como um todo (FERRELL; FRAEDRICH; FERRELL, 2000; DONALDSON; DUNFEE, 1994; FREEMAN, 1984).
Donaldson (2001) tentou demonstrar como a ética pode trazer vantagens competitivas para as nações. Uma das características apontadas nesse artigo é a existência de uma cooperação social mais intensa. Nota-se que, nações onde a ética está mais presente, resulta em uma maior qualidade das práticas de responsabilidade social, considerado pelo autor, uma vantagem competitiva para as nações.
Para Ashley (2004, p. 6), a “responsabilidade social pode ser definida como o compromisso que uma organização deve ter com a sociedade, expresso por meio de atos e atitudes que a afetam positivamente, de modo amplo, ou a alguma comunidade de modo específico, agindo proativamente e coerentemente no que tange a seu papel específico na sociedade e a sua prestação de contas para com ela”.
Para Ferrell, Fraedrich e Ferrell (2000, p. 7) “responsabilidade social á a obrigação que a empresa assume para com a sociedade. Ser socialmente responsável implica maximizar os efeitos positivos e minimizar os negativos”.
“A responsabilidade social empresarial é entendida como o relacionamento ético da empresa com todos os grupos de interesse que influenciam ou são impactados pela sua atuação (stakeholders), assim como o respeito ao meio ambiente e investimento em ações sociais” (GARCIA, 2002, p. 56).
O economista Milton Friedman (1970), em seu artigo, afirma que a primeira responsabilidade da empresa é o lucro e que o melhor resultado da empresa, em última análise, beneficiará o maior número de pessoas possível, gerando mais empregos e contribuindo com o pagamento de impostos.
Nash (2001, p. 55) considera importante entender a posição de Friedman, “pois sua sugestão básica de que a busca do lucro é o ato socialmente mais
benéfico que uma empresa possa empreender tem em grande parte seduzido muitos administradores a pensar que a perseguição efetiva do lucro – desde que legal – é por si própria garantia de altos padrões morais”.
Carroll (1991) sugere quatro tipos de responsabilidades sociais: as dimensões legal, ética, econômica e filantrópica.
A dimensão legal são as leis e os regulamentos promulgados ou baixados pelo governo para estabelecer padrões de comportamento responsável. Espera-se que as empresas operem de forma transparente, como é estabelecido pelos legisladores. As leis reguladoras são criadas, pois a sociedade não confia que as empresas façam o que é certo em algumas áreas, como segurança do consumidor e proteção ambiental. Esta falta de confiança constitui o ponto central da dimensão legal.
A dimensão ética diz respeito a comportamentos e atividades esperados ou proibidos no que interessa ao empregado, à comunidade e à sociedade, mesmo que não previstos em lei. Os stakeholders, incluindo consumidores, empregados, fornecedores, acionistas e a comunidade, têm uma preocupação com o que é eqüitativo, justo ou está de acordo com o respeito ou a proteção dos seus direitos. A responsabilidade de natureza ética inclui padrões, normas ou expectativas que vão além do cumprimento de leis e regulamentos. “Bons cidadãos empresariais adotam valores e princípios que não admitem que sejam postos em risco simplesmente para cumprir metas internas da empresa” (FERRELL; FRAEDRICH; FERRELL, 2000, p. 78).
A dimensão econômica da responsabilidade social refere-se à maneira como os recursos para a produção de bens e serviços são distribuídos no sistema social. Ter responsabilidade econômica significa produzir bens e serviços de que a sociedade necessita e quer, a um preço que possa garantir a continuação das atividades da empresa, de forma a satisfazer suas obrigações com os investidores e maximizar os lucros para seus proprietários e acionistas.
A dimensão filantrópica diz respeito às contribuições das empresas à sociedade, que espera que elas contribuam para a sua qualidade de vida e o bem- estar da sociedade. A empresa deve contribuir com ações efetivas para a melhoria
da qualidade de vida de diversos aspectos relacionados com os interesses dos diferentes stakeholders envolvidos.
A pirâmide de responsabilidade social é apresentada na Figura 1. Ela retrata os quatro componentes ou dimensões, começando pela noção básica do negócio, que é o desempenho econômico. Ao mesmo tempo, é esperado que a empresa obedeça à lei, que é a forma como a sociedade verifica o comportamento aceitável ou não do negócio. Em seguida vem a responsabilidade da empresa de ser ética, isto é, a obrigação de fazer o que é correto, justo e claro e agir com respeito e proteção aos interessados (stakeholders). Finalmente, são esperadas as atitudes cidadãs das empresas, por meio das responsabilidades filantrópicas; espera-se que elas contribuam com recursos humanos e financeiros à comunidade para melhorar a qualidade de vida (CARROLL, 1991).
Figura 1 – A pirâmide de responsabilidade social incorporada
Fonte: CARROLL, 1991, p. 42, tradução nossa. Responsabilidade
Filantrópicas. Seja cidadã. Contribua com recursos para a
comunidade; melhore a qualidade de vida.
Responsabilidade Ética.
Seja ética.
Obrigações para fazer o que é certo, justo e claro.
Responsabilidade Legal Obedeça a lei.
A lei é a forma que a sociedade verifica o que é certo ou errado.
Jogar pelas regras do jogo.
Responsabilidade Econômica
Seja lucrativo. O alicercem onde todos se apoiam.
A prática da responsabilidade social não se resume apenas a uma dessas dimensões. A empresa deve agir em todas essas dimensões simultaneamente: deve se esforçar para ter lucro, obedecer à lei, ser ética e ter atitudes cidadãs, buscando sempre uma conduta ética que contribua para a melhoria da qualidade de vida de toda a sociedade. A ética e a responsabilidade social não podem ser apenas um enfoque reativo de enfrentar questões à medida que surgem. A responsabilidade social como conceito só poderá ser incorporada ao processo diário de tomada de decisões se as empresas incluírem em sua cultura e em sua estratégia as preocupações de natureza ética (FERRELL; FRAEDRICH; FERRELL, 2000).
Quando se fala de ética e responsabilidade social, deve-se buscar o envolvimento do empregado, para que ele aja e tome suas decisões por acreditar naquilo que faz e por achar que é o correto a ser feito. O envolvimento e a confiança dos empregados são importantes para a questão da responsabilidade social. Por outro lado, essas práticas devem fazer parte da cultura e dos valores da empresa, e não ficar apenas nas palavras.
Recentes abordagens sobre ética empresarial apontam, sobretudo na Europa, para questões de governança e códigos de ética. Tal enfoque vem sendo amadurecido no âmbito acadêmico internacional, com vistas à ética dos investidores, acionistas e proprietários das empresas. Por afastar-se da preocupação central da presente Tese, propositadamente não foi objeto de maiores análises.