As estratégias de enfrentamento com o latifúndio acabaram por se tornar a base da pastoral da Prelazia que a cada conflito, ou ataque, solidificava ainda mais seu discurso de defesa dos oprimidos e confirmava a representação profética de si na figura simbólica de D. Pedro Casaldáliga. Um processo de significação religiosa do Araguaia daqueles anos acabou por sacralizar os conflitos sociais e promoveu a fusão completa da esfera religiosa e da esfera política, se é que em algum momento estiveram separadas. Tal significação só pode ser percebida se levar em conta o aspecto subjetivo da experiência religiosa de Casaldáliga e a expressão dela através das metáforas. Neste ponto é que se expressa o conflito entre a memória de Casaldáliga, para quem essa história está imersa na própria experiência religiosa subjetiva, e a tentativa de proceder a uma análise histórica mais distanciada, ainda que a fonte seja o próprio Casaldáliga. Sob este ângulo corre-se “... com esta postura o risco de travestir a
experiência inconfessada (individual e subjetiva) com as vestes sem cor da objetividade científica”124. Para entender essa significação que desencadeou a conduta profética de Casaldáliga, inspirada na ‘santidade política’, é preciso retomar sua leitura religiosa daquilo que chamou de ‘triste realidade’ e que comparou com os momentos de cativeiro do povo hebreu presentes no texto bíblico, tanto no Egito, quanto em Babilônia, pois de acordo com Luís Roberto Benedetti, “... a experiência religiosa só se
expressa por metáforas”125. Daí a importância de perceber como essas metáforas, que expressam a experiência religiosa de Casaldáliga, darão a tônica das narrativas históricas, biográficas e documentais acerca do Araguaia daqueles anos.
É importante notar, que todo o processo de lutas, conflitos, posicionamentos é construído, representado como uma “caminhada”, em clara referência ao Êxodo bíblico. Sem dúvida, que uma das inspirações proféticas de Casaldáliga estava na figura bíblica de Moisés. A ‘triste realidade’ do povo do Araguaia foi lido por Casaldáliga como uma atualização contemporânea da escravidão vivida pelos hebreus no Egito.
As narrativas biográficas, tanto de Escribano quanto a do próprio Casaldáliga, obedecem a essa preceptiva bíblica da experiência hebraica de escravidão no Egito até a chegada do profeta (Moisés- Casaldáliga) ‘enviado’ por Deus para conduzir o processo de libertação. As narrativas acerca do Araguaia se dividem sempre em dois episódios: antes e depois da chegada de Casaldáliga. Ao chegar na região, uma série de episódios vai aproximá-lo dos pobres (as crianças mortas, o suicídio do rapaz sem
124 BENEDETTI, Luiz Roberto. Templo, praça, coração: a articulação do campo religioso católico. São Paulo, Humanitas Publicações, FFLCH/USP – CER, 2000, p. 31.
identificação e o churrasco dos poderosos na fazenda Suiá-Missu). Assim como Moisés não se conformou com a escravidão e o sofrimento de seus irmãos hebreus no Egito, Casaldáliga não se conformou com a exploração dos pobres no Araguaia e iniciou, assim como Moisés, um processo de conscientização para a libertação do povo, uma conversão movida pela injustiça diante dos olhos:
“Sai, meu povo, desta terra
e atravessa o mar Vermelho, que não é Pátria de filhos Esta Terra-Cativeiro”126
A partir daí a denúncia da situação de exploração, a denúncia das injustiças e arbitrariedades ocorridas contra os pobres do Araguaia, em metáfora “os hebreus escravos no Egito”, inspiram a conduta profética. Os problemas que aparecem com os latifundiários e o regime militar, as situações de tensão e enfrentamento, fazem parte da luta de libertação contra Faraó, e também parte da ‘caminhada’ rumo à Terra Prometida. No episódio de Serra Nova, em que promete intervir junto aos tubarões, novamente Casaldáliga se coloca na posição de liderança. É a atualização de Moisés diante de Faraó, buscando uma saída sem conflitos, que não acontece devido à arrogância dos poderosos:
“Deus conosco, e nós todos unidos na oração, no sofrimento, na teimosia, vamos
continuar a nossa caminhada como aquele antigo povo de Deus caminhou pelo deserto até a Terra Prometida. Nós já fomos libertados pela morte e ressurreição de Jesus, e o seu Reino é nossa Terra Prometida, agora aqui na terra e um dia lá nos céus”127
Além da significação bíblica do mundo do Araguaia através da leitura do Êxodo, outros momentos de ‘cativeiro’ como o do exílio hebraico em Babilônia e do domínio romano sobre a Palestina, também se tornam relevantes referenciais desta significação religiosa do Araguaia. O enfoque é a libertação de um cativeiro, do jugo de uma dominação política estrangeira. Neste ponto é que vão se embasar as críticas acerca da ditadura militar como fruto da dominação imperialista dos EUA sobre a América Latina:
“Raquel te conhece, Herodes,
e terás de responder por sua desolação A estrela de Sandino te espreita na montanha, e no vulcão desperta um só coração:
126 CASALDÁLIGA, Dom Pedro. A Cuia de Gedeão: poemas e autos sacramentais sertanejos. Petrópolis, Editora Vozes, RJ, 1982. p. 34.
como um mar de coragem, a Nicarágua menina romperá tua agressão”128
Assim como os profetas bíblicos (Amós, Jeremias, Ezequiel) que denunciavam as elites judaicas por serem coniventes e estarem lucrando com a dominação estrangeira, Casaldáliga também denuncia os grupos políticos, as elites brasileiras e latino-americanas (inclusive religiosas) que se aliaram aos jogos de poder imperialistas para deles se beneficiarem, acumulando poder e riqueza. Nas palavras do próprio Casaldáliga fica clara a inspiração nos profetas do ‘cativeiro’:
“Malditos sejamos do Deus vivo os que fôssemos capazes de assistir passivamente à
dor da América Central! Isaías, Jeremias, Amós... cominariam com a ira de Javé nossa sociedade e nossa Igreja insensíveis”129.
A subjetividade inspirada no profetismo bíblico, a representação de si como um profeta da linhagem bíblica (atualizado no contexto do Araguaia e no mundo do século XX), a significação do Araguaia como lugar de ‘cativeiro’ e a interpretação religiosa da ordem política reinante no Brasil e na América Latina foram elementos fundamentais na construção da imagem profética de Casaldáliga que têm determinado sua conduta como bispo e condicionado que as narrativas biográficas se tornassem hagiografias comprovadoras de seu caráter profético. Desde seus escritos políticos, passando pelas poesias e pelos momentos de tensão experimentados (entre ele e a ditadura militar no Brasil, e alguns casos, entre ele o Vaticano130), até as inovações estéticas e litúrgicas; em tudo, a presença simbólica do profetismo constitui o eixo das representações culturais envolvidas na construção dos diversos discursos constituintes dessa história/memória.
É a partir do binômio opressão-libertação (base das reflexões teológicas da teologia da libertação), com a obrigatória ação do profeta, que as narrativas e os discursos se constituem. É nas referências bíblicas do Êxodo e do Exílio que o binômio opressão-libertação fica claro e propicia o surgimento do profetismo. Ora, nessa preceptiva, a ação do profeta é fundamental para conduzir o povo da opressão à libertação. Aí ele é imprescindível, um divisor de águas na narrativa que, em função de sua ação profética, passa a se dividir entre antes/depois. É o profeta o protagonista das histórias de libertação, sem a sua intervenção nada acontece.
128 CASALDÁLIGA, Pedro. Na procura do Reino: antologia de textos 1968/1988. p. 117 129 CASALDÁLIGA, Pedro. Na procura do Reino: antologia de textos 1968/1988. p. 125-6
130 Por ocasião de sua viagem à Nicarágua, Casaldáliga foi chamado ao Vaticano para prestar esclarecimentos e cumprir a exigência da canônica da visita ad limina, passando por uma entrevista com os então cardeais Joseph Ratzinger e Bernardim Gantim e posteriormente com o papa João Paulo II.
Por isso que esses modelos bíblicos têm constituído a base da significação religiosa do Araguaia feita por Casaldáliga. Esta estrutura de interpretação baseada na Bíblia acabou por espraiar para as narrativas históricas que pretendem contar, explicar ou somente documentar o que aconteceu (ou acontecia, como no caso do diário de Casaldáliga ou dos textos publicados à época), pois a fonte da qual beberam é a mesma: D. Pedro Casaldáliga.
De acordo com esse modelo narrativo, a atuação profética de Casaldáliga teria iniciado quando o então padre espanhol entrou em contato direto com uma situação de opressão que o fez comparar aos períodos de ‘cativeiro’. Dessa maneira, assim como todo o profeta bíblico, comoveu-se pelo povo e passou a lutar pela quebra da lógica de opressão, e, a partir daí, a história se inicia. Ora, tal interpretação não é senão a interpretação do próprio Casaldáliga, que se vendo como profeta (constituindo-se a si mesmo enquanto tal), narra uma história que obedece a preceptiva bíblica das narrativas proféticas. A biografia de Francesc Escribano compra essa idéia de conversão à ‘triste realidade’ para explicar porque Casaldáliga se tornaria um profeta em busca da libertação:
“A opção radical que Casaldáliga tomou, poucos meses depois de chegar a São Félix,
ainda agora me surpreende. Ele era um padre que tinha crescido na Espanha franquista, à sombra de uma Igreja conciliadora em relação ao regime ditatorial... Pergunto-me o que terá acontecido durante aqueles primeiros meses no Mato Grosso que transformou Casaldáliga de maneira definitiva. (...) O horror que viveu, então, pode ajudar a entender seu processo de transformação.”131
Sem dúvida que como um homem de fé, a vida de Casaldáliga é marcada pela conversão e momentos de iluminações divinas que alteram repentinamente o curso da vida marcando-o por uma cisão temporal antes/depois. Entretanto, é bem possível que esta conversão aos pobres do Araguaia, descrita por Escribano como fruto do impacto diante das injustiças, seja mais produto de uma narrativa escrita a partir de uma memória marcada pela preceptiva profética que acaba por mitificar ainda mais Casaldáliga como religioso.
Não teria Casaldáliga um retrospecto anterior que já o ligasse a um cristianismo social herdado de sua experiência como sacerdote na Espanha, considerando relevante o fato de ter chegado ao Brasil com quarenta anos de idade? Ou realmente a opressão construiu o profeta?