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6. Poéticas da crítica: das técnicas de leitura aos técnicos leitores

6.3. Índice de valores: a leitura como janela indiscreta

Ora, a crítica contemporânea, ao não abordar este plano histórico e ideológico enquanto tal, ao transformá-lo num plano imanente e espacial, arrisca “tudo meter no mesmo saco”, e passar da leitura da obra para as generalizações abstractizantes, o que é o mesmo que dizer, aceitar acriticamente o teor ideológico de um produto literário e usá-lo como pretexto para fazer a apologia ou a destitularização de uma determinada mensagem.

É precisamente nessa confluência de vários tipos de positivismos utilitaristas que nos encontramos hoje. Essa forma de ler tanto se manifesta como entidade reguladora das investigações em estudos culturais como em pedra de toque das leituras subjectivistas: em qualquer dos casos, a

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Nuno Júdice estiliza num convincente silogismo a consistência desta “não-relação”, ligando-a ao aparecimento do “turbo-

crítico”: “[1] O livro que eu tomo como cânone do que para mim deve ser literatura é o «Ulisses» do Joyce, a «Recherche» do

Proust, as «Elegias» do Rilke, etc., etc.; [2] O livro que estou a analisar não tem nada a ver com nenhum desses; logo [3] este livro não presta porque não é o «Ulisses», a «Recherche», as «Elegias», etc., etc. O que não deixa de ser aflitivo, nisto, é sabermos que, na sua esmagadora totalidade, se tivéssemos perguntado a muitos dos que partiam dessas premissas para a sua prática crítica se tinham lido algum dos livros que tomavam como arquétipo, a resposta teria sido negativa. O que terão lido, sem dúvida, foi obras críticas sobre esses livros. É a leitura em segunda mão, com efeito, que substituiu o conhecimento directo da literatura; (...) É verdade, por outro lado, que no mundo actual, que exige uma rapidez de resposta cada vez maior, nem é preciso ler um livro de início ao fim. O chamado «zapping» televisivo teve antecedentes no sistema instaurado de forma generalizada no ensino universitário com a fotocópia, em que o que se lê já não são as obras em si, o objecto livro, seja original seja crítico ou teórico, mas as partes dos capítulos que interessam para a frequência ou exame. Daqui nasceu o turbo-crítico, incapaz de conceber que um livro é uma totalidade, e que numa obra literária não se pode isolar um pedaço de texto susceptível de ilustrar a opinião de que o livro é bom ou não presta, e construir a sua tese a partir daí – o que é facílimo. Pensemos como seria possível destruir qualquer clássico a partir de pormenores sempre possíveis de encontrar – frases de construção menos felizes, imagens estereotipadas, etc. – ou de determinar o inverso, num mau autor, a partir de algum excerto em que ele tenha conseguido algum efeito positivo.”, Nuno Júdice, «Tradição, Cânone e Estudos Literários», op. cit., pp. 13-14.

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Stuart Hall reconhece que as estruturas de comunicação de saberes no âmbito deste discurso veiculam mensagens dominantes sob a forma de significado do próprio discurso: “The typical processes identified in positivistic research on isolated elements – effects, uses, ‘gratifications’ – are themselves framed by structures of understanding, as well as being produced by social and economic relations, which shape their ‘realization’ at the reception end of the chain and which permit the meanings signified in the discourse to be transposed into practice or consciousness (to acquire social use value or political effectivity).”, Stuart Hall, “Encoding, Decoding”, in AAVV, The Cultural Studies Reader, op. cit., p. 93.

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obra é lida sintomaticamente. A acção dos lobbies do discurso crítico consiste em promover um certo recorte, em desfavor de outro. Estes grupos de pressão funcionam como ímanes do acto de leitura, determinando assim um espaço competitivo onde os vivos e os mortos lutam por um foco de atenção. Trata-se de uma bolsa de valores propriamente dita, com as suas cotações, tendências, flutuações, quedas e “acções em alta”.

Se resumirmos o nosso contacto com a literatura a indicadores como as listas temáticas que permite enquadrar, ela torna-se, mais cedo ou mais tarde, esse objecto de consumo, e o papel da crítica, isto é, das pessoas que lêm obras literárias por razões profissionais e falam delas a diversos públicos, será gerir os interesses de diversas “carteiras de clientes”.

É muito curioso que os estudos culturais alberguem e encoragem estas práticas. Quando percebemos que, por detrás de uma fachada de cientificismo cultural se esconde, de facto, um exercício de reconstituição, em parte arbitrária, em parte “inspirada”, de sentimentos, “estados d’alma” e percepções, isso diz-nos muito mais sobre a verdade dos estudos culturais do que qualquer programa teórico. A facilidade com que se imputam juízos psicologizantes a textos literários e o mecanicismo com que isso é feito são bem reveladores dos grandes horizontes de preocupações dos estudos culturais e da crítica literária contemporânea. Só lhes é possível admitir este modo de leitura graças a uma visão que, mais do que eventualmente “pós-moderna”, será forçosamente pós-histórica, pós-ideológica, e, paradoxalmente, pós-cultural.

Se o “círculo filológico” descrito por Spitzer concebia a crítica como uma espécie de espiral que atravessa círculos concêntricos sobrepostos determinantes das relações entre a obra e a sua situação, do exterior – social, histórico, cultural, político, económico – para o interior (como a hermenêutica de Gadamer, oscilando entre o detalhe e a totalidade), o paradigma metodológico contemporâneo pressupõe a inversão perfeita deste encaixe: o anel exterior é a própria obra literária, o “texto” (o “B”), e, dentro dele, organiza-se a ideologia e o meio social e económico, em círculos não concêntricos, mas apenas parcialmente sobrepostos: a crítica literária, aqui, percorre num movimento iterativo o espaço da obra, simulando descobrir nela as dimensões que lhe são, na verdade, exteriores. É, com efeito, algo de próximo disto que significa o estudo de categoriais culturais na obra de um autor.

Este modo de ler produz um efeito imediato para o qual me parece importante estarmos de sobreaviso: ao tornar-se num ícone sem espaço exterior, o texto é amputado do seu valor diferencial.20 E se ele não possui valor pelo lugar que ocupa na memória do sistema, isto é, enquanto

20 Cf.: “When reading world literature we should beware of the perils of exoticism and assimilation, the two extremes on the

spectrum of difference and similarity. We won’t get very far if we take the Sanskrit poem as the product of some mysterious Orient whose artists are naïve and illogical, or whose people feel an entirely different set of emotions than we do. On that assumption, we might experience the poem as charming but pointless, either lacking any real focus or else oddly over- dramatizing a minor annoyance as a cause of suffering. (…) We need to learn enough about the tradition to achieve an overall

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produto de um contexto, mas sim pela sua capacidade de reorganizar e produzir mensagens culturais no seu interior, então o texto perde toda a pertinência testemunhal, já que vai estar dependente da habilidade e do engenho do crítico para “extrair” dele narrativas mais ou menos “interessantes”. A ser assim, devemos esperar da crítica essa leitura preocupada com o diagnóstico de sintomas: tudo é lido a partir de uma escala de desvios, e o normal passa a ser encontrar o extraordinário, o anormal, o exótico. Podemos imaginar o que isso significará (e já significa) para tantos livros cuja excepcionalidade se expressa numa linguagem (leia-se, numa cultura) com a qual já não podemos dialogar.21