3. MATERIAL E METÓDOS
3.3. Índice de Vulnerabilidade Social (IVS)
O Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) foi desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) em 2015 a partir dos indicadores do Atlas do Desenvolvimento Humano (ADH) no Brasil em uma tentativa de sintetizar a realidade social brasileira. Esse índice aponta situações indicativas de exclusão e vulnerabilidade social em uma perspectiva que supera a definição de pobreza apenas por insuficiência de recursos monetários, por isso é considerado complementar ao Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). O IVS contém dezesseis indicadores divididos em três dimensões (subíndices) advindos dos dados do Censo do IBGE: infraestrutura urbana, capital humano e renda e trabalho. Dessa forma, o índice tem o objetivo de sinalizar o acesso, a ausência ou a insuficiência de alguns “ativos” que deveriam ser disponibilizados pelo Estado para todos os cidadãos. Os três subíndices do IVS representam os grandes conjuntos de ativos, cuja posse ou privação determina a qualidade de vida das populações (IPEA, 2015).
A dimensão de infraestrutura urbana se refere às condições de acesso aos serviços de saneamento básico e de mobilidade urbana. Os indicadores que compõem esse subíndice são a presença de redes de abastecimento de água, de serviços de esgoto e de coleta de lixo, assim como o indicador do tempo de deslocamento até o trabalho e o local de trabalho da população de baixa renda. O subíndice do capital humano envolve os dois aspectos que determinam a inclusão dos indivíduos na sociedade: saúde e educação. Incluem-se nessa categoria os indicadores de mortalidade infantil, da presença de jovens que não frequentam a escola, de mães precoces, mães chefes de família com baixa escolaridade e filhos pequenos, assim como a ocorrência de baixa escolaridade dos adultos e a existência de jovens que não trabalham e nem estudam. A dimensão de renda e trabalho agrupa informações relacionadas com a insuficiência de renda e também com o fluxo de renda que podem configurar um estado de insegurança de renda. Os indicadores considerados são a desocupação de adultos, a ocupação informal de adultos pouco escolarizados, a dependência com a renda de pessoas idosas e o trabalho infantil (IPEA, 2015). A composição do IVS e seus indicadores estão descritos no quadro abaixo.
Quadro 5 - Síntese da formulação do IVS.
Subíndices Variável (dados agregados do IBGE) Peso (%)
Infraestrutura Urbana
1) Percentual da população que vive em domicílios urbanos sem o
serviço de coleta de lixo (0-100%) 30 2) Percentual de pessoas em domicílios com abastecimento de água e 30
esgotamento sanitário inadequados (0-100%)
3) Percentual de pessoas em domicílios vulneráveis à pobreza e que gastam mais de uma hora até o trabalho no total de pessoas
ocupadas, vulneráveis e que retornam diariamente do trabalho (0- 100%).
40
Capital Humano
1) Mortalidade até um ano de idade 12,5 2) Percentual de crianças de 0 a 5 anos que não frequenta a escola 12,5 3) Percentual de crianças de 6 a 14 anos que não frequenta a escola
(0-100%) 12,5
4) Percentual de mulheres de 10 a 17 anos de idade que tiveram 12,5 5) Percentual de mães chefes de família, sem fundamental completo
e com pelo menos um filho menor de 15 anos de idade, no total de mães chefes de família (0-100%
12,5 6) Taxa de analfabetismo da população de 15 anos ou mais de idade
(0-100%) 12,5
7) Percentual de crianças que vivem em domicílios em que nenhum
dos moradores tem o ensino fundamental completo (0-100%) 12,5 8) Percentual de pessoas de 15 a 24 anos que não estudam, não
trabalham e são vulneráveis à pobreza, na população total dessa faixa etária (0-100%)
12,5
Renda e Trabalho
1) Proporção de vulneráveis à pobreza (pessoas com renda domiciliar per capita igual ou inferior a meio salário mínimo) (0- 100%)
20 2) Taxa de desocupação da população de 18 anos ou mais de idade
(0-100%) 20
3) Percentual de pessoas de 18 anos ou mais sem fundamental
completo e em ocupação informal (0-100%) 20 4) Percentual de pessoas em domicílios vulneráveis à pobreza e
dependentes de idosos (0-100%) 20
5) Taxa de atividade das pessoas de 10 a 14 anos de idade (0-
100%) 20
Fonte: IPEA (2015).
O valor do IVS varia entre 0 e 1, sendo que quanto mais próximo de 1, maior é a vulnerabilidade social do município. Os municípios que apresentam valores entre 0 e 0,200 são considerados com muito baixa vulnerabilidade social. Valores entre 0,201 e 0,300 representam baixa vulnerabilidade social. Os que possuem entre 0,301 e 0,400 são de média vulnerabilidade social, enquanto que os valores de 0,401 até 0,500 indicam alta vulnerabilidade social. Por fim, os municípios que possuem o IVS entre 0,501 e 1 apresentam muito alta vulnerabilidade social (IPEA, 2015). A figura 17 demonstra essa classificação do índice.
Figura 17 - Faixas do índice de vulnerabilidade social (IVS). Fonte: IPEA, 2015.
O índice de vulnerabilidade social é um instrumento que permite analisar e compreender as desigualdades socioespaciais por meio dos dados socioeconômicos do IBGE. O grande benefício da utilização desse índice é que ele está disponível na escala intramunicipal, diferente de outros índices com o IDHM, que apresenta apenas a escala municipal. Por isso, é possível discutir as desigualdades socioespaciais e seus efeitos na realidade intramunicipal (IPEA, 2015).
Ao mesmo tempo, o IVS não é tão restrito quanto os setores censitários do IBGE, que representam a área de referência na qual um recenseador do Censo Demográfico realiza o seu levantamento de dados. A escala utilizada no IVS contém um conjunto de setores censitários que apresenta as mesmas características socioeconômicas (Figura 18). Esse conjunto é chamado de Unidades de Desenvolvimento Humano – UDH. No entanto, esse recorte das UDHs está disponível apenas para as principais Regiões Metropolitanas do País, enquanto que os demais municípios possuem o IVS apenas na escala municipal (IPEA, 2015).
Figura 18 - Relação entre setores censitários (imagem A) e Unidades de Desenvolvimento Humano - UDHs (imagem B). Fonte: Elaborado pela autora.
A vulnerabilidade social é definida nesse índice como a ausência ou insuficiência de bens e serviços públicos, e por isso indica as falhas de oferta de bens e de serviços públicos no território brasileiro. Tal índice foi desenhado para dialogar com a política social brasileira. Assim, é possível realizar uma caracterização da exclusão e da vulnerabilidade social do País através de indicadores que orientam o trabalho dos gestores públicos em diferentes âmbitos do governo.
A partir desse índice será feita a correlação da disponibilidade de serviços de esgotamento sanitário com a vulnerabilidade social, assim como a análise da capacidade das obras em suprir a necessidade de infraestrutura sanitária das áreas de maior vulnerabilidade social, pois teoricamente estas regiões seriam as mais deficitárias em relação ao esgotamento sanitário.