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Índice Simples de Alagamentos – ISA

No documento Índice simples de alagamentos (páginas 54-64)

6. RESULTADOS E DISCUSSÃO

6.4 Índice Simples de Alagamentos – ISA

Com a integração das três variáveis, vistas anteriormente, foi possível elaborar o mapa do Índice Simples de Alagamentos – ISA, ultilizando a fórmula, ISA = IT + INDWI – IMDE, e foi possível chegar no resultado da Figura 17. Com a classificação em 4 etapas, o índice classifica as zonas, na mancha urbana da cidade, mais sucessíveis a alagamentos. Partindo da cor azul, que significa áreas com poucas possibilidades de alagamento. Verde, é classificado como moderado. Vermelho, representando uma forte probabilidade de alagamento. Por fim o preto destaca as áreas com maiores índices de risco.

O oceano é identificado numa cor neutra, junto com o rio Potengi. No mapa o destaque vai para a região no entorno do rio Potengi, que o mapa mostra a presença de áreas alagadas, e é justamente onde está localizado o mangue. Ao nordeste do rio, podemos notar uma faixa em vermelho, marcando boa parte do município até o oceano. Área que está localizado lagoas naturais e o rio Doce. Além dessas áreas, praticamente toda a faixa litorânea apresenta o mesmo padrão. Outro aspecto é a presença de vegetação a de cor verde escura presente ao sul do rio Potengi. Está vegetação está assentada, geralmente me dunas fixas e possuem sua área preservada.

Figura 17: Mapa do Índice Simples de Alagamentos – ISA

É possível, com essa classificação, identificar as áreas urbanas que estão em vulnerabilidade. Em vermelho ao sul do rio Pontengi, temos bairros históricos da cidade como; Cidade alta, Rocas, Ribeira, Alecrim, Quintas e Lagoa Seca. O processo de alagamento em alguns deles são registrados desde a década de 50 do século XX, como mostra o jornal, O diário de Natal, no ano 1957, com a notícia “Efeitos do forte temporal foram além das expectativas: Cidade inundada, e milhares de flagelados sem teto”. A notícia foca na rua do motor e na av. Alexandrino de Alencar. Contudo é possível notar a forma como a população de algumas áreas eram tratadas pela mídia e não muito diferente pelos administradores, na quais regiões onde não se tem interesse político, financeiro, turístico são negligenciadas com o passar do tempo.

Outro exemplo é Mãe Luiza, onde o mesmo jornal noticiou em 1987, a notícia “chuvas alaga ruas, tumultua trânsito e atrasa pedestre” onde no decorrer do texto, eles descrevem que nas intermediações da rua Mipibu no Tirol, que por ser muito próxima do bairro, corre risco de deslizamento. Neste contexto podemos observar a zona norte, onde a mancha em vermelho se apresenta em destaque nas proximidades da Av. Moema Tinoco que alaga constantemente e no bairro de Lagoa Azul (Figura 18), as lagoas presentes contribuem para os alagamentos.

Figura 18: Av. Moema Tinoco da Cunha, Lagoa Azul

No trabalho de campo foi notório que mesmo em dias com precipitações pouco intensas como a do dia 03/03/2019 existia uma preocupação da população com o possível alagamento de suas residências (Figura 19).

Figura 19: Av. Moema Tinoco da Cunha, Lagoa Azul

Fonte: Própria do Autor

O morador da residência busca conter com o que tem em mãos, no caso entulho, para barrar o avanço das águas em chuvas mais intensas (Figura 19). Sem contar com a presença de lixo que moradores depositam na parte mais alta no entorno da avenida, que acaba sendo carregado com a força da água e invadindo casas.

Figura 20: Av. Moema Tinoco da Cunha, Lagoa Azul

Fonte: Própria do Autor

O bairro é um dos mais populosos da capital com, 61 mil habitantes, e abriga ao norte a Zona de Proteção Ambiental –09 (ZPA – 09). Contudo a população carente é uma das que mais sofrem com alagamentos e inundações não somente devido à proximidade com o rio Doce, mas também com as lagoas de captação que por falta de manutenção assoreiam e nas precipitações mais intensas alagam as moradias.

O bairro de Lagoa Azul traz uma característica praticamente encontrada em todo município, que é o povoamento ao redor de lagoas. Os conjuntos habitacionais surgiram na década de 80, a população a procura de preço acessível busca residência, e após alguns anos começam a surgir os primeiros alagamentos mais intensos, e a cena se repetiu em vários bairros da cidade. A população carente, com pouca ou nenhuma educação ambiental, são instruídas pelo discurso dos gestores, mídia, e líderes locais, a acreditar que o problema é a chuva, que esse ano veio muito acima do esperado, que a culpa são deles próprio ao comprarem terreno próximo de lagoas, e pôr fim a resposta quase nunca é a solução verdadeira, mas sim um pretexto para prevalecer grupos políticos, financeiros, atuantes no local.

Outros lugares visitados, foi a Av. Maranguape, localizado no bairro Nossa Senhora da Apresentação, que o ISA apontava alguns trechos como passíveis de alagamento. Na visita é possível notar sistemas de drenagem, mas também dificuldade no escoamento superficial.

Figura 21: Av. Maranguape, Nossa Senhora da Apresentação

Fonte: Própria do autor

Na zona norte da cidade existem localidades onde o poder econômico reduzido, colocam a população em situação mais vulnerável, consequentemente o risco é agravado. Os alagamentos afetam principalmente a parcela mais pobre do município, que é obrigada a se adaptar para não perder o pouco que conseguem acumular.

Bairros com poder aquisitivo mais elevado da capital também enfrentam problemas de alagamentos. Como é o caso do bairro Neópolis na Zona Sul da capital. A Av. Ayrton Senna foi possível registrar em alguns pontos do seu trajeto alagamentos (figura 22), principalmente pela ausência de sistema de drenagem. Por ser uma avenida movimentada com intenso fluxo

de carros, ônibus, motos e caminhões o risco de acidentes é ampliado, pois a lâmina d'água atinge altura considerável.

Figura 22: Ponto de alagamento na Av. Ayrton Senna, Neópolis

Figura 24: Mapa ISA com os pontos visitados no campo

A naturalização dos alagamentos, assim como a terceirização da culpa, seja para divindades, políticos, instituições privadas, públicas ou até mesmo para população dificulta uma visão clara e coesa do problema.

As obras se tornam promessas de campanha, e quando realizadas reeleição na certa, e isto se tornou um ciclo vicioso no Brasil, mas é notado principalmente no Nordeste. Os alagamentos tomam conotações parecidas com a seca, a culpa é terceirizada, para Deus, os moradores, o gestor passado, e a realidade continua a existir e a pessoas começam a se adaptar, e com o passar do tempo naturalizar. Verdade seja dita, os municípios, neste o qual Natal se inclui, não possuem verba suficiente para realizar toda obra de estrutura para extinguir eventos como alagamentos e inundações, mas não significa que não possamos quebrar esse uso irracional deles. O processo de mudança é quase uma questão utópica, passamos a priorizar com o tempo a questão econômica, deixando as questões sociais, do bem comum, sempre em segundo plano, fazendo com que aqueles mais vulneráveis sofram durante décadas, ou até quando situações extremas como a de 1998 aconteça e chame atenção do país inteiro, para que a discussão volte a ser realizada.

A Lei nº 11.445/2007 também nomeada de Diretrizes Nacionais para o Saneamento Básico (LDNSB), traz consigo uma série de medidas que devem ser adotadas pela união, buscando a universalização do bem-estar através do saneamento. Nesta lei que está encadeado os quatro pilares que fundamentam as estruturações das cidades. A Lei vai definir saneamento básico em “o conjunto de serviços, infraestruturas e instalações operacionais de:”

A. abastecimento de água potável: constituído pelas atividades, infraestruturas e instalações necessárias ao abastecimento público de água potável, desde a captação até as ligações prediais e respectivos instrumentos de medição;

B. esgotamento sanitário: constituído pelas atividades, infraestruturas e instalações operacionais de coleta, transporte, tratamento e disposição final adequados dos esgotos sanitários, desde as ligações prediais até o seu lançamento final no meio ambiente;

C. limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos: conjunto de atividades, infraestruturas e instalações operacionais de coleta, transporte, transbordo, tratamento e destino final do lixo doméstico e do lixo originário da varrição e limpeza de logradouros e vias públicas;

D. drenagem e manejo das águas pluviais urbanas: conjunto de atividades, infraestruturas e instalações operacionais de drenagem urbana de águas pluviais, de transporte, detenção ou retenção para o amortecimento de vazões de cheias, tratamento e disposição final das águas pluviais drenadas nas áreas urbanas.

A lei estabelece que os planos de saneamento devam ter validade de 20 anos, avaliados anualmente e revisados a cada 4 anos. É de responsabilidade do município aderir e

cumprir essas ações, por que saneamento é uma questão de saúde e qualidade de vida da população. A diminuição de doenças é somente um dos vários benefícios, sendo que se tudo for cumprido de acordo com a legislação, não nós demoraríamos a médio prazo com problemas como hospitais lotados, mortalidade infantil e alagamentos.

Como visto, a sazonalidade da precipitação torrencial é uma situação que favorece tanto o planejamento quanto os problemas, associado ao relevo com altitude baixa, em sua grande maioria, com alguns pontos elevados em seu entorno, torna possível identificar áreas passíveis de alagamentos. A proposta do método aponta zonas propícias para alagamentos em toda cidade, porém, uma região de destaque, é a parte central do município, que se localiza numa parte côncava, e teve o seu processo de assentamento da população feito sem a preocupação das águas pluviais.

No documento Índice simples de alagamentos (páginas 54-64)

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