• Nenhum resultado encontrado

Eu Esqueci

Era tão estranho estar voltando para casa nesse momento. Era definitivamente uma das sensações mais esquisitas em que seu corpo fora posto a sentir. Uma parte de si se sentia incrivelmente conectado com aquele lugar, na realidade sentia como se fosse uma parte que estava faltando de si, como um pedaço do seu corpo que tinha sido roubado. E era ali que estava enterrado.

Talvez estivesse, pensou.

E não era um bom sentimento. Tocou sua barriga, sentindo-a mover, seu coração parecia um pedaço de gelo e sua cabeça doía. A coisa mais esquisita de toda aquela situação era que a casa não tinha nada demais fisicamente, era uma simples casa moderna com um portão branco enorme contrastando com o verde saturado das paredes, uma cerca elétrica percorria todo o muro e na área era possível ver os móveis dos seus pais.

Estava em casa novamente. A sensação de pertencimento era inegável. Suas pernas moveram sozinha, caminhando para o lado direito da casa, onde ficava a porta de entrada principal, sua mão soltou a alça da mala que carregava e ergueu-se pressionando o botão da campainha, seu coração disparou, ouvindo aos poucos o crescente barulho que percorria toda a residência. Enquanto esperava a porta ser aberta, virou de costas e semicerrou os olhos contemplando o ambiente que vivera há alguns anos.

Nilo suspirou. Sua ansiedade começava a formar uma bola na sua barriga ao mesmo tempo que sua mente viajava tornando aquele momento de segundos em horas. Tinha voltado finalmente naquela cidade depois de alguns anos fora fazendo seu mestrado. Tinha voltado em julho, quando acontecia uma festa local muito famosa na cidade, bem valorizada pelos habitantes.

Nilo era um escritor em ascensão. Seus livros não eram os melhores, reconhecia, mas sua escrita era bem elogiada pelas pessoas, desde quando conseguia se lembrar tinha o costume de escrever e através do incrível apoio do seus maravilhosos pais, tinha crescido e conseguido se tornar o que sempre quisera ser. Nem todo mundo tinha aquela sorte.

Virou-se de volta no momento que o chato barulho de abrir o portão tocou seus ouvidos, sua mãe sorriu mirando-lhe de cima a baixa e sabia que ela estava

entraram, encaram o gato preto da família correr porta afora. Ao cruzar a porta, era como se uma saraivada de lembranças atingisse seu peito, fazendo-lhe estancar por segundos, fechar os olhos e se recompor para sua mãe não notar e criar um estardalhaço em cima daquilo.

O menino não tinha uma memória de verdade, à medida que o tempo avançava era como se tivesse gradualmente passando a esquecer mais e mais coisas, confundia números, esquecia uma coisa que alguém acabara de lhe falar e seu maior ódio era quando trocava os objetos de lugares, guardando o celular na geladeira e teclando um copo de leite. Todo mundo pode dizer que seria normal esquecer daquela forma quiçá uma atenção maior às situações seria o remédio perfeito para se livrar daquilo. Mas sabia que não. Definitivamente tinha algo a mais naquilo tudo. Ninguém se esquecia de toda uma parte da sua vida do dia pra noite. Sua barriga doeu novamente, sentindo uma pontada no coração e levando sua mão automaticamente até lá.

Sua mãe o dirigiu para o seu quarto, um meio-sorriso brotou estampando seu rosto enquanto seria seus olhos lacrimejarem. Estava terrivelmente emocional naquele dia e não entendia o porquê. Parado na porta, seus olhos percorreram o guarda-roupa preto colocado no canto direito, contrapondo-se a sua cama com lençol vermelho, seu quarto estava completamente arrumando.

Era noite quando deitou em sua cama caindo com a cabeça no travesseiro, suspirando e encarando o teto. Queria conseguir lembrar de tudo que viveu dentro daquele quarto, e queria que aquelas lembranças não fosse nada demais, seria mais reconfortante e simples de aguentar tudo. Fechou os olhos e, como em questão de segundos, tudo desapareceu e estava finalmente dormindo.

O gélido toque de metal rasgou por completo seu peito, aquelas espécies de garras arrancaram delicadamente cada órgão da sua barriga, passando-os entre seus dedos de metal, como se tivesse brincando e se divertindo com aquilo. Sua visão era turva, seus olhos faziam uma força gigantesca para ficar encarando aquilo que jazia acocado sobre si.

Conseguia enxergar os ossos proeminentes em seu quadril, suas costelas saltavam do peito e era impossível não enxergar os músculos do seu corpo. Os olhos de Nilo encararam profundamente os dois poços luminosos e infinitos que brilhavam onde deveriam estar seus olhos. A criatura continuava a brincar com seus olhos, passando suas garras de metal, agora ensanguentadas, pelo seu rosto, deixando-lhe marcado com uma trilha de sangue que seguia da sua testa ao seu maxilar.

Não era uma paralisia do sono, conseguia discernir por completo. Era totalmente diferente de tudo que já sentira, não aguentava mais. Precisava

cérebro, tinha certeza que já tinha vivido aquilo.

Ergueu-se da cama com rapidez, ficando de pé, esfregando seu rosto e encarando a madrugada através da janela aberta. Não conseguia mais aguentar, precisava entender o que tinha sonhado, sentia ímpeto de correlacionar aquilo com sua perda de memória, sabia que tinham relação.

Jogou-se contra o guarda-roupa, as veias da sua testa saltando enquanto suas mãos cavavam tirando tudo que tinha no objeto. Ao tirar todos os livros que estavam amontados, encontrou uma espécie de envelope, amarelado, contudo um volume o adornava. Nilo abriu furiosamente o pacote, encontrando-se diante de um livro.

Os quatro cantos eram adornados por metal, ao tocá-los, sentiu a gelada sensação. A mesma das garras da criatura rasgando sua pele. Passou suas mãos pelo livro, a capa tinha uma cor esquisita, coisas parecidas com veias faziam volume. A pele da criatura. E um círculo de luz enfeitava o centro. Seus olhos. A porta explodiu com um grito desesperador de uma mulher.

e então...

...

Quem sou eu?

Ivanildo Antonio dos Santos Pessôa

Documentos relacionados