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L ÓCUS S TAND

No documento A CIDADE NO FRAGMENTO: (páginas 43-47)

1 DO MACRO AO MICRO: CIDADE E LUGAR 1.1 F RAGMENTOS DE UMA L EITURA DO E SPAÇO

1.1.4. L ÓCUS S TAND

A cidade, na sua vastidão e beleza, é uma criação nascida de numerosos e diversos momentos de formação; a unidade desses momentos é a unidade urbana em seu conjunto,e a possibilidade de ler a cidade, com continuidade, reside em seu preeminente caráter formal e espacial. Aldo ROSSI, 1995, p. 66.56

O lócus pode ser definido como a “relação singular, mas universal, que existe entre certa situação local e as construções que se encontram naquele lugar (...) determinado pelo espaço e pelo tempo, por sua dimensão topográfica e por sua forma, por ser sede de acontecimentos antigos e novos e por sua memória” (ROSSI, 1995, p. 147, 152). Com

esta definição colocamos em questão, também, a relação de manutenção de um lócus, de acordo com a experiência produzida pelo tempo e de acordo com as trocas exercidas entre ambiente e usuário.

O cerne da definição de lócus está no papel de lugar como espaço singular e concreto, e mesmo: locus = espaço + tempo. Nesta relação, podemos realçar os vínculos formais e estéticos que fazem parte de uma delimitação dos contornos do espaço analisado, muito relacionado ao tempo de transição deste espaço ao longo dos anos e segundo uma individualidade. Quanto a isto, ROSSI (Op. Cit.) comenta que os contornos dizem respeito à

individualidade dos monumentos, da cidade, das construções e, portanto, ao conceito de limites, onde começa e onde acaba uma restrição espacial, o lugar da arquitetura. Segundo o autor, esses temas são de ordem coletiva e nos obrigam a deter-nos sobre o estudo das relações entre lugar e homem e, conseqüentemente,

56 Quanto a esta citação, uma concepção da cidade a partir das partes urbanas pode ser encontrada em

LYNCH, Kevin. A Imagem da Cidade. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1997; e nos ensinamentos de Fritz SHUMACHER, teórico do Plano de Hamburgo e Colônia (1951). Para este último autor, a diferenciação da cidade moderna é a característica principal da sua particularidade (Eigenart) e todas as zonas tendem a se distinguir cada vez mais claramente umas das outras. A sua forma e seus objetivos (Gestaltungsaugabe) caracterizam a estrutura da cidade, independentemente de um princípio formal.

memória. O lócus urbis, uma vez determinado, influencia, de algum modo, o indivíduo e a coletividade. Esses problemas pertencem, desta forma, à cidade, ao conjunto de indivíduos que habita uma circunscrição, dela se utiliza cotidianamente e dela extrai suas formas de interação e continuidade.

Nesta leitura é inevitável uma alusão aos estudos relativos à psicologia coletiva, não como foco de atenção desta Dissertação, mas como uma nota referencial para consultas correlatas. Não é nossa intenção esboçar um ensaio sobre as relações de coletividade sob o foco da sociologia (dentro da qual insere-se a psicologia social), mas colocar como dado importante o fator humano e agregador que é parte inerente das relações sociais que se desenvolvem, em especial, nos espaços livres públicos e no Largo da Carioca, como mostraremos adiante. Sob este foco, muitos outros estudos foram desenvolvidos e cabe ressaltar que a psicologia coletiva torna-se perceptível em todas as ciências que têm a cidade como objeto de estudo em primeiro plano. A delimitação do conceito lócus standi vai um pouco além do delimitado até agora; ela abarca a relação do ‘lugar em que se está’, e tem relação direta com a imagem que se produz do mundo, ora denominada imago mundi.

De certo, a relação do lócus standi pode ser representada pelas considerações sobre Lugar, desde a vertente mais humanista na Geografia (tomada por TUAN, 1983), pela fenomenologia (em BACHELARD, s.d. e MERLEAU-PONTY, 1991) e pela abordagem

sociológica (MOLES, 1978 e FROSSARD, 1998). O fato é que a

relação de lugar tem uma ligação direta com a existência cotidiana e relaciona-se com os fenômenos concretos (pessoas, ruas, praças, casas) e intangíveis (emoções, sensações, percepções).

SCHULTZ (1976) coloca que “O lugar representa esta parte da verdade

[dimensão existencial] que pertence à arquitetura, a manifestação concreta do ‘habitar’ próprio do homem, e a identidade do homem depende do pertencimento a este lugar” (Id., Ibid., p. 6). Isto significa, entre outras análises, que vemos no lugar a junção de coisas concretas que possuem sua substância material, sua forma, sua textura e sua cor. Esta junção de coisas define um caráter de ambiência que é a essência deste lugar. O caráter denota, também, uma atmosfera geral que compreende tudo, desde a forma concreta à substância dos elementos que definem o espaço. Toda presença real é ligada, intimamente, a um caráter. Todo lugar tem um caráter. “O caráter de um lugar tem também uma função temporal; muda com as estações do ano, as cores do dia, a situação meteorológica e de iluminação” (Op. Cit., p. 14). Então, ambiência e caráter estão sempre relacionados, traduzindo uma nomenclatura específica para cada espaço que vivemos e representamos.

Da mesma forma, o caráter depende de como as coisas são feitas e, assim, é determinado pela realização técnica (construção). Techne (do grego=revelação criativa da verdade) pertence à poiesis, ao “fazer”. Retiramos, daí, duas vertentes: uma que associa a questão da construção ao meio urbano construído, que como lócus standi se apresenta ao observador como um elemento a ser avaliado e interpretado; outra, mais simbólica, que associa a poiesis ao constante construir e desconstruir do homem, elegendo espaços ‘louvados’ (conforme nomeia BACHELARD, p. 130, s.d.) e,

de forma causal, reprimindo espaços não apropriados.

Para HEIDEGGER, a relação de lócus standi é “O modo como você

está e eu estou, a maneira como os homens estão sobre a terra e o buan [habitação]” (apud SCHULTZ, 1976, p. 10). Quando o homem adquire a capacidade de habitar, o mundo se torna um “interior”. O espírito ou a identidade particular do ambiente

pode ser descrito por meios concretos, criando assim um ponto de partida para as discussões (processo de qualidade do meio). Podemos observar que, nesta relação, abordando a questão da imago mundi, do lugar e do lócus standi, o espaço aberto e livre do Largo da Carioca, representado morfologicamente como exterior, converte-se em interior = cloture = Point-ici57, para aqueles que

estabelecem relações de afetividade, simbolização e apropriação no espaço.

Como conclusão desta primeira etapa do capítulo 1, uma pergunta é suscitada: por que estudar uma cidade? Esta sentença, motivadora do início deste trabalho e produtora de inúmeras considerações sobre seus elementos definidores físico- sociais e culturais, encontra repouso numa resposta tanto simbólica quanto existencial:

As cidades são o texto da história; ninguém pode imaginar estudar os fenômenos urbanos sem se colocar esse problema (...) porque as cidades se oferecem a nós através dos fatos urbanos determinantes, em que é preeminente o elemento histórico e memorial (ROSSI, 1995, p. 193).

57Antropologicamente, o homem necessita de espaço, porém, além disso, de um Lugar. O que chamamos

de Point ici e segundo PROSHANSKY, “Place identity”. O “aqui” só existe em oposição a outros lugares. O “aqui” é um endereço, um domínio de influência assinado, reconhecido: a criação do Point ici é uma prática social. Ver: MOLES, Abraham; ROHMER, Elisabeth. Psychologie de l’Espace. Paris: Ed. Casterman, 1978 [Cap. 3].

No documento A CIDADE NO FRAGMENTO: (páginas 43-47)