Amanhecer na Bahia de Todos os Santos
Não há registro de data da produção desta tela, contudo, o motivo, tratamento e colorido são encontrados na produção final do artista, em obras “amanhecer” da década de 1960.
Figura 11633: Mendonça Filho. “Amanhecer na Bahia de Todos os Santos”. OSM, 0,30 X 0,75 m.
Fonte: Acervo do MAB. Foto: Anderson Marinho, 2011.
Assinado no canto inferior esquerdo, esse trabalho privilegia a luminosidade de um dia ensolarado. Sua composição é simples e transmite uma emoção triste, gélida como as despedidas.
Parece um quadro de feitura rápida, embora muito preciso na utilização dos tons observados. Há pinceladas largas e curtas distribuídas na composição. As nuvens cinza e brancas sobrepõem uma lisa camada de azul cerúleo, sobre a qual o artista enriqueceu com pequenos toques de rosa claro para a construção da luminosidade. Trata-se de um amanhecer, claro, porém frio. Não existem cores saturadas neste trabalho.
É uma poesia pintada. De todos os trabalhos de Mendonça, este é o que mais nos surpreendeu por sua sensibilidade. Não há nenhum pensamento em retratar o local. É pura emoção.
O mar tranquilo, quase um espelho, levemente tocado por quatro barcos em diferentes distâncias. Estes, só foram necessários para demarcar os planos, separando o céu do mar que lutam por trocar de lugar.
Um quadro de pequenas dimensões mais que demonstra o quanto Mendonça Filho era fascinado pela luz. Qualquer um que já tenha atravessado de barco, em um dia ensolarado à baía de todos os Santos pode facilmente perceber aquela luz. Com certeza, entre os quadros analisados, o mais tímido em suas dimensões e colorido, porém, se ousar pintar àquelas nuvens pelo menos uma vez na vida, afirmará que aquele é um trabalho de mestre.
Em “Madrugada”, de 1963, a luminosidade é serena, representando o amanhecer. Esse foi um momento difícil na vida do artista, pois havia passado por uma importante cirurgia e tentava se recuperar. A atmosfera geral desta pintura trás uma religiosidade poética.
Com predomínio dos tons azuis e rosas, a composição apresenta um barco encalhado em destaque nas primeiras horas do dia. Os recifes aparentes com a maré baixa criam uma poça d’água que cerca o pequeno barco com uma luminosidade e um tratamento digno de mestre. São centenas de pequenas pinceladas aplicadas na horizontal, onde os azuis, rosas e branco se intercalam criando uma dinâmica e chamando tanto a atenção que por um momento esquecemos-nos do restante da cena representada. Notem as pinceladas em azul turquesa próximo as rochas do lado esquerdo plasmadas em azul e leves pinceladas de siena.
O barco ao centro aponta para o horizonte como se sentisse saudades do alto mar. Há mais algumas embarcações completando a cena.
O céu construído com os mesmos tons do mar possui um efeito esfumado ao fundo, sendo que suas nuvens são carregadas de tintas onde predomina o azul cobalto.
Figura 11734: Mendonça Filho. Madrugada – Mar Grande. OST, 33 X 42 cm, 1963.
Acervo do Museu da Cidade do Salvador. Foto: Anderson Marinho 2011.
A composição foi retirada da tela “Maré Vazia – Mar Grande”, realizada um ano antes pelo artista. A qualidade da tela de 1963 é superior à primeira em sua composição e em seu acabamento. Podemos notar Salvador ao longe e a mesma embarcação com o mesmo ângulo.
Figura 11835: Mendonça Filho. Maré Vazia Mar-Grande. OSM. 46 X 55 cm. 1962.
Nesse motivo, há uma relação entre as obras de Castagneto28 e as de Mendonça Filho, principalmente no que se refere à representação de barcos encalhados na praia. O tema relaciona diretamente os dois artistas principalmente naquelas pinturas produzidas por Mendonça Filho na Ilha de Itaparica. O motivo dos barcos encalhados na praia que tanto aparece na produção de Mendonça, esteve presente em todos os momentos da vida de Castagneto (OLIVEIRA, 2007, p.67).
Vários artistas representaram cenas do cotidiano dos pescadores, e os barcos encalhados aparecem nesse contexto. No Brasil, durante o século XIX e início do XX outros artistas representaram o tema, a exemplo de Henri Nicolau Vinet (1817-1876) Benedito Calixto (1853 - 1927) e Antônio Parreira (1860 - 1937) (OLIVEIRA, 2007, p.88).
A série das “Lavadeiras do Rio Cachoeira – Itabuna”. Segundo a família do artista, a aproximação do artista com essa região nesse período era devido à família de sua esposa que tinham casas no local.
Nas telas desenvolvidas em Itabuna sobre as “Lavadeiras do Rio Cachoeira”, obras do final de sua produção, a composição e o tratamento transmite uma tranquilidade, com a mesma luz clara da tela “amanhecer”.
Essas telas possuem algo de moderno, parecendo com aquelas telas produzidas na lagoa de Abaeté, por exemplo, por João José Rescala e Bustamante Sá. Não insinuamos que o artista tenha enveredado para uma linha mais moderna, acreditamos sim, que o artista tenha reafirmado suas escolhas, embora não tenha deixado de observar a tudo que acontecia ao seu redor. Diante de tantas qualidades vinculadas ao artista aqui apresentado não acreditamos que Mendonça Filho passasse a produzir obras pseudomodernas por questões mercadológicas ou de tendências.
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Sobre a representação do corriqueiro na obra de Castagneto e Almeida Junior, Oliveira (2007, p.121) indica que no caso de Castagneto a figura só aparece em raríssimas exceções, pois, o foco do artista eram os barcos que, indiretamente acusariam a existência humana.
Figura 11936: Mendonça Filho. “Lavadeiras do Rio Cachoeira”, OSP, 45 x 55 cm. Década de 1960.
Fonte: Catálogo de Leilão Galeira Zeca Fernandes 2011.
Figura 120: Lavadeiras do Rio Cachoeira – Itabuna. OST, 0,44 X 0,55. Década de 1960.
Figura 121: Lavadeiras do Rio Cachoeira – Itabuna. Óleo sobre Eucatex, 0,49 X 0,60. Década de 1960.
Fonte: FMCCP (1995, p.23). Acervo de Ângelo Calmon de Sá.
A tela “Manhã de verão”, segundo a família, foi a última obra do artista. O detalhe apresenta uma figura a calafetar o barco Duda. Há uma sensação de que o artista se transportou para a própria obra.
O fogo que aqueçe e dá acabamento na vedação do pequeno saveiro cria um verdadeiro arco-íris refletido na poça d’água.
Figura 37: Mendonça Filho. “Manhã de Verão”. OSM, 0,72 X 0,60 cm. Década de 1960.
Fonte: Catálogo FMCCP, 1995, p.23.
O barco DUDA apareceu em muitas obras. Essa repetição de alguns temas e elementos pode ser entendida como uma série. As escolhas compositivas que apresentam diferentes locais com a mesma disposição de barcos, variação do ponto de vista ou do enquadramento, assim como o tratamento técnico reforçam esse entendimento, mesmo que não fosse intencional. As pinturas eram produzidas em um mesmo dia ou em dias diferentes. Os tamanhos de telas empregados, de pequenos formatos, podem ter sido escolhidos para facilitar o transporte. Entre os locais mais representados estão Mar Grande, Ilhota e Baiacu.
Parece que por conta da idade avançada, cansado e com enfermidades, o pintor deixou de lado todas as discussões, embates políticos, burocracia e críticas e se permitiu simplesmente pintar. Em essência, como se naquele momento nada mais importasse.