8. RESUMO DA OBRA
8.22. Último caderno de Kindzu – As páginas da Terra
Kindzu volta a Matimati sem Quintino e sem Gaspar. Ao chegar à casa de Assane, é recebido por Antoninho com os braços envolvidos por ataduras.
Assane, tentando abraçar Kindzu, como se quisesse confortá-lo, relata que Farida já não o esperava mais.
Assane ordenara a Antoninho que fosse até ela para ajudá-la. Ela queria saber as novidades, pois Kindzu demorava demais para lhe trazer Gaspar e já havia perdido a esperança de reencontrar o filho. Farida disse que iria até o farol para acendê-lo, partindo na embarcação de Antoninho. Depois de algum tempo, houve uma forte explosão e toda a ilha ardeu em chamas.
Ao ouvir o relato, Kindzu não acredita na morte de Farida, afirmando que Antoninho mentia. Assane garante a Kindzu a veracidade do ocorrido e conta que Antoninho tentou salvar Farida, entrando no meio do fogo, queimando seus braços intensamente, mas não obteve êxito no resgate.
Assane ouve de Kindzu o desejo de ir embora e oferece-lhe transporte no primeiro machimbombo da empresa, que de lá partiria no dia seguinte.
Assane havia se unido ao administrador Estêvão Jonas e prestava-lhe favores, como a tentativa de tirar Farida do navio encalhado.
Kindzu pensa na mãe, infinitamente grávida, em Junhito cocoricando, e revela seu último sonho para se libertar das lembranças terríveis do que havia passado. Desejoso de “desexistir”, escreve seu último caderno relatando o que sonhara desordenadamente: ele descia por um vale cheio de luz na primeira madrugada do mundo, quando vira centenas de pessoas pobres e esfarrapadas seguindo o feiticeiro da aldeia. O adivinho, que parecia procurar um lugar invisível, parou e iniciou seu discurso:
— Chorais pelos dias de hoje? Pois saibam que os dias que virão serão ainda piores. Foi por isso que fizeram esta guerra, para envenenar o ventre do tempo, para que o presente parisse mons -tros no lugar da esperança. Não mais procureis vossos familiares que saíram para outras terras em busca da paz. Mesmo que os reencontreis eles não vos reconhecerão. Vós vos convertêsteis em bichos, sem família, sem nação. Porque esta guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país de dentro de vós.
Agora, a arma é a vossa única alma. Roubaram-vos tanto que
nem sequer os sonhos são vossos, nada de vossa terra vos pertence, e até o céu e o mar serão propriedade de estranhos.
Será mil vezes pior que o passado pois não vereis o rosto dos novos donos e esses patrões se servirão de vossos irmãos para vos dar castigo. Ao invés de combaterem os inimigos, os melhores guerreiros afiarão as lanças nos ventres das suas próprias mulheres. E aqueles que vos deveriam comandar estarão entretidos a regatear migalhas no banquete da vossa própria destruição. E até os miseráveis serão donos do vosso medo pois vivereis no reino da brutalidade. Terão que esperar que os assassinos sejam mortos por suas próprias mãos pois em todos haverá medo da justiça. A terra se revolverá e os enterrados assomarão à superfície para virem buscar as orelhas que lhes foram decepadas. Outros procurarão seus narizes no vómito das hienas e escavarão nas lixeiras para resgatarem seus antigos órgãos. E há-de vir um vento que arrastará os astros pelos céus e a noite se tornará pequena para tantas luzes explodindo sobre as vossas cabeças. As areias se voltearão em remoinhos furiosos pelos ares e os pássaros tombarão extenuados e ocorrerão desastres que não têm nome, as machambas serão convertidas em cemitérios e das plantas, secas e mirradas, brotarão apenas pedras de sal. As mulheres mastigarão areia e serão tantas e tão esfaimadas que um buraco imenso tornará a terra oca e desventrada. No final, porém, restará uma manhã como esta, cheia de luz nova e se escutará uma voz longínqua como se fosse uma memória de antes de sermos gente. E surgirão os doces acordes de uma canção, o terno embalo da primeira mãe. Esse canto, sim, será nosso, a lembrança de uma raiz profunda que não foram capazes de nos arrancar. Essa voz nos dará a força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres sossegarão nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o ingénuo entusiasmo dos namorados.
Tudo isso se fará se formos capazes de nos despirmos deste tempo que nos fez animais. Aceitemos morrer como gente que já não somos. Deixai que morra o animal em que esta guerra nos converteu. (TS, p. 200-201)
A profecia do feiticeiro aponta para a necessidade de Moçambique ouvir a voz de seus ancestrais e resgatar o que é tradicionalmente africano, valorizando suas crenças e sua história ao longo dos tempos, orgulhando-se da identidade autêntica de Moçambique. Ao pedir a seus seguidores que abandonem a condição de animais e enfrentem a morte como seres humanos, o adivinho joga um líquido sobre seus ombros e sobre seus fiéis, que caem convulsivos, transformando-se em animais e, convertendo-se-lhes a fala, espalham-se pelos matos.
Kindzu olha para seu corpo para constatar-se ainda humano, quando vê um galo se aproximando: era Junhito que se humanizava, ao contrário dos demais que se animalizavam. Surgem Romão Pinto, Estêvão Jonas, Shetani, Assane, Antoninho e os milicianos para capturarem Junhito:
Então, Junhito me chamou. Eu me olhei, sem confiança. Mas o que em mim vi foi de dar surpresa, mesmo em sonho: porque em meus braços se exibiam lenços e enfeites. Minhas mãos seguravam uma zagaia. Me certifiquei: eu era um naparama! Ao me verem, em minha nova figura, aqueles que maltratavam o meu irmão se extinguiram num fechar de olhos. Mas Junhito ainda lutava para se desbichar, desembaraçar-se da condenação. Me veio à ideia que ele precisava de um pouco de infância e cantei os embalos de nossa mãe, sua última ponte com a família. Enquanto eu cantava ele se foi vertendo todo gente, completamente Junhito.
A seu lado, como se chamada por meu canto, minha mãe apareceu segurando uma criança em seu colo. Lhes chamei mas eles nem me pareciam ouvir. Junhito colocou a mão aberta sobre o peito e depois fechou as duas mãos em concha. Me agradecia. Acenei uma despedida e ele, segurando minha mãe pelo braço, desapareceu nas infinitas folhagens. (TS, p. 203)
Kindzu tem mais alucinações e vê a estrada mexer-se, deslocando-se de paisagem a paisagem. Repentinamente seu coração aperta e surge o machimbombo queimado, caído num acostamento da estrada:
De repente, a cabeça me estala em surdo baque. Parecia que o mundo inteiro rebentava, fios de sangue se desalinhavam num
fundo de luz muitíssimo branca. Vacilo, vencido por súbito desfalecimento. Me apetece deitar, me anichar na terra morna.
Deixo cair ali a mala onde trago os cadernos. Uma voz interior me pede para que não pare. É a voz de meu pai que me dá força.
Venço o torpor e prossigo ao longo da estrada. Mais adiante segue um miúdo com passo lento. Nas suas mãos estão papéis que me parecem familiares. Me aproximo e, com sobressalto, confirmo: são os meus cadernos. Então, com o peito sufocado, chamo: Gaspar! E o menino estremece como se nascesse por uma segunda vez. De sua mão tombam os cadernos. Movidas por um vento que nascia não do ar mas do próprio chão, as folhas se espalham pela estrada. Então, as letras, uma por uma, se vão convertendo em grãos de areia e, aos poucos, todos meus escritos se vão transformando em páginas de terra. (TS, p. 203-204)