Considerando o contexto histórico, político, econômico e sociocultural, o Plano de Gestão Integrada de Terras Indígenas e Unidades de Conservação no Sul do Amazonas foi elaborado por meio de um amplo processo formativo voltado para realizar uma reflexão sobre a gestão das áreas protegidas e resolução de conflitos socioambientais. O processo envolveu quatro etapas: 1) reuniões de articulação interinstitucional; 2) oficina de detalhamento do Curso Gestão Integrada; 3) Realização do Curso Gestão Integrada de TIs e UCs no sul do Amazonas; e 4) Seminário Gestão Integrada de TIs e UCs no Sul do Amazonas.
Na primeira etapa, realizada ao longo de 2015, foi possível fazer uma série de articulações políticas com diversas instituições regionais interessadas na discussão sobre gestão integrada. Por meio de reuniões, uma rede de instituições foi envolvida no processo formativo: IEB, OPAN, CR1 do ICMBio, três CRs da FUNAI (Madeira, Alto Purus, Médio Purus), oito associações indígenas (OPIAM, APITEM, OPIPAM, APITIPRE, APIJ, OPIAJIBAM, OPIAJ e FOCIMP) e sete instituições representativas dos extrativistas (Associação Extrativista Deus é Amor do Rio Inauini, AMARI, APADRIT, APREA, ATAMP, CNS, STTR Pauini). Ao todo, essa rede engloba 19 instituições, sendo 17 da sociedade civil e duas governamentais, como dito anteriormente.
Na segunda etapa, após consolidado o interesse desse conjunto de instituições em avançar com as discussões sobre gestão integrada de TIs e UCs no sul do Amazonas, uma oficina de detalhamento do Curso foi realizada, no mês de março de 2016. Na ocasião, foi discutida com representantes das 17 instituições envolvidas o conteúdo, a metodologia a ser usada, os critérios de seleção dos participantes, o perfil dos instrutores, os materiais didáticos, a estrutura em módulos presenciais e não presenciais e a data de realização do Curso de Gestão Integrada.
Foi concebido, portanto, de modo participativo com diversas instituições comprometidas com a gestão integrada. As informações produzidas e pactuadas durante a oficina permitiram a elaboração de um edital de convocação dos participantes. No edital, foram disponibilizadas 30 vagas para um processo de formação continuada em gestão integrada, composto por três módulos presenciais de uma semana cada, intercalados por atividades entre módulos. O público beneficiário foi composto por lideranças indígenas (10 vagas), lideranças extrativistas (10 vagas), gestores públicos da Funai (5 vagas) e gestores públicos do ICMBio (5 vagas), além de dois monitores, um da FUNAI e outro do ICMBio (anexo 2).
A execução do curso, considerada a terceira etapa do processo formativo mais amplo, ocorreu ao longo do ano de 2016 e contou com 136 horas/aula. O objetivo geral foi proporcionar às lideranças indígenas e extrativistas e aos gestores públicos
da FUNAI e do ICMBio um conjunto qualificado de informações sobre o potencial social, econômico e ambiental da gestão integrada de áreas protegidas na região do sul do Amazonas.
O curso utilizou uma metodologia interativa entre facilitadores e participantes, estimulando um diálogo intenso entre o conhecimento indígena, o conhecimento extrativista e a expertise de gestão dos técnicos locais da Funai e ICMBio. Durante a formação, os participantes foram sensibilizados sobre as especificidades culturais, sociais, econômicas, políticas e ambientais do sul do Amazonas, sendo estimulada a interface entre o conhecimento técnico e científico e os saberes tradicionais e regionais para trocas de experiências.
O primeiro módulo do curso intitulado “O que é Gestão Integrada? Conceitos e Contexto”, ofereceu uma base de conhecimentos niveladores para os participantes em relação a gestão de Terras Indígenas e Unidades de Conservação. A partir das experiências dos próprios participantes foram tratados aspectos históricos, conceitos e modelos de desenvolvimento que se instauraram na região do sul do Amazonas e que determinam as relações políticas, institucionais e econômicas no contexto atual. Os participantes também aprenderam a operar ferramentas de diagnóstico e mapeamento. Encerrado o módulo, as atividades desenvolvidas no período de dispersão foram pactuadas. Os participantes foram estimulados a realizarem uma pesquisa sobre as experiências de gestão territorial nas suas TIs ou UCs, a repassar as informações aprendidas no módulo para outros membros da sua comunidade ou da sua instituição e sistematizar as informações produzida para apresentar aos colegas no próximo módulo.
O segundo módulo, “Instrumentos de Gestão, legislação e políticas públicas”, proporcionou um maior entendimento dos participantes sobre a estrutura de funcionamento do Estado Brasileiro contemporâneo e o histórico da legislação ambiental, indigenista e de populações tradicionais, bem como das políticas públicas. Com base nos conceitos e instrumental apreendidos anteriormente, e nas informações recolhidas durante a atividade entre módulos, os alunos adensaram seus conhecimentos sobre os instrumentos de gestão formais dos órgãos gestores e apresentaram as experiências de gestão de suas comunidades. Os participantes tiveram a oportunidade de aprofundar seus conhecimentos sobre instrumentos de gestão integrada e normativas disponíveis para casos de sobreposição entre Unidade de Conservação e Terras Indígenas. Ao final do módulo, os participantes foram orientados a realizar a atividade entre módulos. Assim foram estimulados a realizar uma pesquisa sobre as possíveis ações de gestão integrada na região onde moram, repassar o conhecimento aprendido no módulo para outros membros da sua comunidade ou instituição e sistematizar as informações produzidas para apresentar durante o último módulo.
No terceiro módulo, denominado “Instrumentos de Gestão Integrada e construção das propostas locais”, o resultado dos diagnósticos e mapeamentos realizados nos módulos anteriores e entre eles foram sistematizados e as propostas de gestão integrada para a região começaram a ser construídas, dando forma ao Plano de Ação de Gestão Integrada. Nesse módulo, os participantes também foram estimulados a refletir sobre os desafios, as oportunidades, as políticas e os programas relacionados com os instrumentos de gestão estudados. Experiências de gestão entre indígenas e extrativistas de outras regiões foram apresentadas, enriquecendo as discussões. Este módulo teve um enfoque menos teórico e foi mais prático e reflexivo. Ao final do módulo, uma primeira versão do Plano de Ação de Gestão Integrada foi consolidada para ser complementada, revisada e pactuada durante a última etapa do processo formativo mais amplo.
Na quarta etapa do processo formativo foi realizado o Seminário Gestão Integrada de TIs e UCs no Sul do Amazonas. O seu objetivo foi propiciar um novo encontro entre os participantes do curso para avaliar as possibilidades de fortalecer as alianças, aprofundar e validar o Plano de Ação de Gestão Integrada e pactuar junto a outros parceiros as possíveis ações para a manutenção sustentável das áreas protegidas no sul do Amazonas. O evento foi uma oportunidade de troca de conhecimentos a respeito de experiências de gestão, além de outros debates que ajudaram a ampliar o entendimento sobre a temática, otimizando ações e estabelecendo parcerias.
da Fundação Moore e USAID. Além dos alunos do curso representando suas instituições, o seminário contou com outros representantes indígenas e extrativistas do sul do Amazonas. Estiveram presentes no evento, também, representantes de diversas instituições governamentais e não governamentais apoiadoras das ações de gestão integrada na região, dentre elas: Secretaria de Extrativismo e Desenvolvimento Rural Sustentável (MMA), Coordenação Geral de Gestão Ambiental (FUNAI), Diretoria de Ações Socioambientais e Consolidação Territorial em UCs (ICMBio), Coordenação do Comitê Gestor da PNGATI, Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), Comitê Gestor da PNGATI União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (UMIAB), Operação Amazônia Nativa (OPAN), Instituto Piagaçu-Purus, Centro de Trabalho Indigenista (CTI), Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-bio), Fundo Amazônia - Área de Gestão Pública e Socioambiental (FAM/BNDES), Prefeitura de Lábrea, Fundação Gordon e Betty Moore, Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e Serviço Florestal Americano (UFS).
Por meio do seminário, portanto, foi possível não apenas finalizar o processo de formação em gestão integrada e consolidar o Plano de Ação de Gestão Integrada, minimizando os conflitos socioambientais no sul do Amazonas, mas também estreitar o diálogo com apoiadores da iniciativa. Governo, sociedade civil organizada e cooperação internacional tiveram a oportunidade de conhecer o Plano de Ação e de visualizar o apoio que cada instituição pode realizar para a implementação das ações.