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3. ESTADO DO CONHECIMENTO EM INTERSECCIONALIDADE

3.2 Ações afirmativas e o status das pesquisadoras

Ainda que não tenha sido possível desenhar o perfil de raça/gênero dos pesquisadores, os recortes apresentados e as temáticas de estudos evidenciam a ligação da interseccionalidade com a discriminação racial e de gênero.

Tendo constatado que as pesquisas têm tido um aumento exponencial nos últimos anos, é necessário equacionar o impacto das ações afirmativas no desenvolvimento de estudos com essa temática. A implementação destas políticas no ensino superior, além de garantir o acesso da

população negra nos espaços acadêmicos também pode estar possibilitando um maior interesse dos pesquisadores/as sobre temáticas raciais.

É necessário compreender as políticas que favorecem o ingresso da população negra e também a discussão sobre práticas de racismos, a partir da fundamentação desta e de uma agenda que vise combater a herança do processo de escravização e das práticas de racismo e segregação racial que vitimizam a população negra no Brasil.

Compreende-se ação afirmativa enquanto prática que visa combater desigualdade racial e “que seu conceito e utilização envolve uma tentativa de compensar a população negra pela discriminação sofrida ou pela alocação nos patamares mais baixos, no que se refere aos índices sociais, como educação, distribuição salarial e habitação” (MUNANGA, 2003, p. 86).

Tais políticas se fazem cada vez mais presentes nos debates político e intelectual brasileiro, e se fundamentam como forma privilegiada para a promoção da população negra, inclusive no que se refere ao maior acesso de negras e negros à pós-graduação. Desta forma, destaca-se que a identificação de pertencimento racial do indivíduo, acrescido dos valores e conteúdos inerentes à realidade histórico-cultural própria desse contexto, incide em sua identidade e possibilita o reconhecimento enquanto sujeito-pesquisador-negro, o que pode gerar o desenvolvimento de pesquisas sobre as opressões da população negra.

Problematizando, todavia, a existência de uma lacuna nos estudos sobre desigualdade racial e políticas de ação afirmativa no ensino superior, em relação à questão racial na discussão sobre gênero e ciência é preciso notar que “de modo inverso, na literatura sobre desigualdade racial e políticas de ação afirmativa no ensino superior, poucos estudos têm tratado das disparidades entre negros e brancos, homens e mulheres, na categoria docente e nas carreiras acadêmicas e científicas” (BARRETO, 2015, p. 42).

Com a continuidade da realização de estudos sobre a desigualdade racial no ensino superior, e dez anos depois das primeiras iniciativas de criação das políticas de ação afirmativa, estão surgindo outras demandas quando se trata de promover a igualdade racial nas IES, e outros temas de pesquisa, com destaque para a criação de espaços institucionais e de projetos antirracistas e antissexistas, a inovação nos currículos e a situação dos docentes (BARRETO, 2015, p. 40).

A análise do levantamento bibliográfico apresentada nesta tese evidenciou o apontado pela autora de que “em termos teóricos, a preocupação com a interface entre classe, gênero e raça cresceu na pesquisa sobre desigualdade, incentivada, por exemplo, pelos estudos que utilizam a abordagem interseccional” (idem, 2015, p. 40).

Sugere-se então que conceito de interseccionalidade surge como forma de permitir às pesquisadoras negras incluir suas demandas nos debates raciais. Na academia34, estas mulheres

estariam ocupando o status de outsider within35, que permite um direcionamento de atenções para

áreas específicas do questionamento sociológico (COLLINS, 2016).

O gráfico 4 a seguir demonstra que mulheres negras ocupam um número assustadoramente baixo na pós-graduação.

Gráfico 4 - Docentes doutores na pós-graduação

Fonte: INEP – Censo da Educação Superior 2016

Há compreensão de que mulheres negras acadêmicas, mesmo que ainda em número relativamente baixo, têm papel importante na construção de conhecimentos e práticas que contribuam para o rompimento da cultura machista e racista.

34 Necessário salientar que não só mulheres negras acadêmicas têm produzido o feminismo negro; outras mulheres negras – professoras, pastoras, empregadas domésticas, mulheres em situação de cárcere – também constroem o feminismo negro. “Desde o movimento dos direitos civis e do feminismo, as ideias de mulheres negras têm sido cada vez mais documentadas e está atingindo um público mais amplo” (COLLINS, 2016, p. 102).

35 De acordo com a tradutora do texto de Collins (2016), Juliana de Castro Galvão, o termo outsider within não tem uma correspondência inquestionável em português, por isso em sua tradução opta-se por manter o termo original, trazendo como possíveis traduções: “forasteiras de dentro”, “estrangeiras de dentro”.

Discorrendo sobre mulheres negras enquanto “outsider within”, é interessante observar na análise do percurso histórico a íntima relação de mulheres afro-americanas36 com a sociedade

branca, porque além de oferecerem seus trabalhos na parte de cozinha e limpeza também cuidavam dos filhos destas famílias e davam conselhos a seus empregadores. Essa relação de

insider era positiva para todos os envolvidos. Há relatos de brancos ricos demonstrando esse

amor pelas suas “mães” negras. As mulheres negras percebiam que sua posição de inferioridade não tinha relação com um intelecto de menor valor do que o das mulheres brancas, e sim com o racismo. Mulheres negras se viam como melhores mães do que as mulheres brancas, e com capacidade maior para desenvolver inúmeras tarefas. Por outro lado, essas mulheres tinham a noção de quem jamais pertenceriam às “suas” famílias brancas: apesar de seu envolvimento, permaneciam como outsiders37 (COLLINS, 2016).

Esse status de outsider within tem proporcionado às mulheres afro-americanas um ponto de vista especial quanto ao self, à família e à sociedade. Uma revisão cuidadosa da emergente literatura feminista negra revela que muitas intelectuais negras, especialmente aquelas em contato com sua marginalidade em contextos acadêmicos, exploram esse ponto de vista produzindo análises distintas quanto às questões de raça, classe e gênero (COLLINS, 2016, p. 100).

“Outsider within” pode ser definido como essa possibilidade da mulher negra de viver na margem e poder observar tanto de dentro para fora, quanto de fora para dentro – o que permite uma compreensão mais ampla da sua realidade (COLLINS, 2016). Este status proporciona obstáculos, mas também é benéfico, pois a objetividade permite ao mesmo tempo proximidade, distância, preocupação e indiferença; trazem a tendência dessas pessoas se abrirem para estranhos de modo como não fariam umas com as outras e, finalmente, possibilitam a habilidade destes sujeitos em ver padrões que dificilmente seriam percebidos por aqueles imersos nas situações.

A autora problematiza que os estrangeiros na academia são os intelectuais marginais, e que a postura crítica destes intelectuais nos trabalhos acadêmicos é essencial para o desenvolvimento criativo das próprias disciplinas acadêmicas.

Sociólogos podem se beneficiar ao considerarem seriamente a emergência da literatura multidisciplinar que denomino pensamento feminista negro, precisamente porque para muitas mulheres intelectuais afro-americanas a “marginalidade” tem sido um estímulo à criatividade. Como outsiders within, estudiosas feministas negras podem pertencer a um dos vários distintos grupos

36 Collins (2016) trabalha a partir da realidade norte-americana, porém acredita-se com base na análise do percurso histórico da mulher negra latino-americana que a realidade não é/foi muito diferente.

de intelectuais marginais cujos pontos de vista prometem enriquecer o discurso sociológico contemporâneo. Trazer esse grupo – assim como outros que compartilham um status de outsider within ante a sociologia – para o centro da análise pode revelar aspectos da realidade obscurecidos por abordagens mais ortodoxas (COLLINS, 2016, p. 101).

O “pensamento feminista negro consiste em ideias produzidas por mulheres negras que elucidam um ponto de vista de e para mulheres negras” (COLLINS, 2016, p. 101). Esta questão evidencia a impossibilidade de separar estrutura e conteúdo temático de pensamento e das condições materiais que fazem parte da vida de suas produtoras. Então, embora o pensamento feminista negro possa ser registrado por outras pessoas, ele é produzido por mulheres negras (COLLINS, 2016).

Um segundo ponto fundamental apresentado por Collins (2016) que merece destaque é que mulheres negras defendem uma perspectiva única sobre suas experiências e que alguns elementos nesta perspectiva serão compartilhados pelas mulheres negras como grupo. Em contrapartida, embora algumas visões sejam compartilhadas por mulheres negras, cada uma vive em um contexto social diversificado, e essas diferenças em suas identidades pode fazer com que estas vivências sejam experenciadas de forma específica por cada mulher negra.

Além da política de ações afirmativas, a análise sobre o número crescente de produções sobre a interseccionalidade pode ser atribuída a uma visibilidade maior do feminismo e do feminismo negro nas mídias digitais. Renata Barreto Malta e Laila Thaíse Batista de Oliveira (2016) trazem importantes reflexões sobre os contornos que o feminismo negro brasileiro tem adquirido com a sua inserção nas redes e o alcance e multiplicação de informação através do compartilhamento de textos políticos. As autoras relatam como estas plataformas digitais têm sido cada vez mais utilizadas para o compartilhamento de experiências de racismo e machismo na vida de mulheres negras.

Destaca-se a importância das redes sociais para que indivíduos e grupos possam atuar como agentes de transformação – tal fenômeno vem ocorrendo dentro do feminismo negro através da inserção de mulheres negras, jovens em sua maioria, em ações no ciberespaço (MALTA; OLIVEIRA, 2016).

São sites e blogs como o “Geledés” e “Que Nega é Essa? ”, que, compartilhando textos através das redes sociais como o facebook e o twitter, têm ganhado um alcance e visibilidade cada vez maiores. Dentre os sites e blogs destacamos a atuação do Blogueiras Negras (http://blogueirasnegras.org/) que, ao aceitar contribuições textuais das leitoras de todo o Brasil, estimula a formação de uma política que

descentraliza o conhecimento. O blog tem incentivado que mais mulheres negras possam narrar suas experiências e, através de suas histórias, ajudar outras mulheres que vivenciam situações de opressão (MALTA; OLIVEIRA, 2016, p. 61-62).

As autoras evidenciam a forma como o movimento feminista negro se modificou e alcançou novas facetas de atuação, com foco nas ações realizadas por meio da internet e das redes sociais.

Com o aumento da população negra nas universidades, fruto também das políticas de ação afirmativa, é possível observar uma produção mais expressiva de negras e negros e sobre a história da população afro- brasileira. Estamos vivenciando um período onde a população negra reivindica com veemência o papel de protagonista da sua própria história. Atualmente, temos acompanhado as novas expressões e canais de difusão de informação e conhecimento na internet utilizado por diferentes ativistas negras, estudiosas ou não, que buscam algo em comum: o desejo de compartilhar suas experiências através de narrativas sobre sua história e sobre como enfrentam o racismo e o machismo em suas vidas. Tais narrativas têm contribuído para a formação de uma rede onde outras mulheres negras conseguem se enxergar e buscar meios para enfrentar esses problemas que também estão presentes nos seus cotidianos (MALTA; OLIVEIRA, 2016, p. 68).

Há de se destacar o apontado pelas autoras de que o compartilhamento destas narrativas fortalece e estimula mulheres de todo o país a escrever suas próprias histórias. Durante o desenvolvimento desta pesquisa, o acesso às redes sociais foi uma forma de aproximação de novos referenciais, e também de possibilidade de espaços para discussão sobre a temática da pesquisa e o ser mulher negra pesquisadora. Da mesma forma, problematiza-se que este canal de comunicação possa ter servido de inspiração, motivação e fortalecimento para o aumento de pesquisas interseccionais com referenciais do feminismo negro.