2.1 TEORIA INSTITUCIONAL
2.1.5 Ações estratégicas
Uma das questões presentes nas pesquisas do tema, formulada por Hardy e Maguire (2008, p. 206) é: “Como os empreendedores institucionais procedem em suas atividades para mudar campos institucionais?”. Os próprios autores procuram responder esta questão, analisando outros trabalhos empíricos. Eles encontram, como resposta, a existência de estratégias de intervenção, criadas pelos atores para suportar a mudança. Estas estratégias em três grupos: mobilização de recursos materiais; construção de relações; e construção de raciocínios, especialmente o processo discursivo. Battilana, Leca e Boxenbaum (2009) apresentam, como um dos fatores para a implementação da mudança divergente, a mobilização de aliados, que é feito tanto pelo uso do discurso como pela mobilização de recursos – sendo estes de natureza financeira ou posição social.
Este tópico apresenta uma junção destas duas ideias, considerando o tema de mobilização de recursos sob uma perspectiva mais ampla, conforme proposta por Battilana, Leca e Boxenbaum (2009), na qual estão presentes a mobilização de recursos de ordem financeira e de posição social. Este conceito, mais amplo, permite agrupar as novas relações entre atores (HARDY; MAGUIRE, 2008), por ser uma mobilização de recursos de ordem. O segundo tópico está relacionado ao uso do discurso para comunicar o novo projeto.
O conceito de mobilização de recursos já estava presente na definição inicial proposta por DiMaggio (1988). Os recursos são mobilizados para negociar e induzir o apoio ao projeto de mudança proposto. Hardy e Maguire (2008) optaram por privilegiar os recursos materiais na sua análise, enquanto Battilana, Leca e Boxenbaum (2009), destacam, além destes, a importância dos recursos relacionados a posição social. Segundo os autores, todos estes recursos são importantes, para auxiliar os empreendedores institucionais a convencer outros atores, a apoiar a mudança. Os fatores relacionados a posição social serão tratados por Hardy e Maguire (2008), quando elas analisam a construção de relações.
Conforme relatado por Hardy e Maguire (2008) existe alguns casos que os atores possuem recursos suficientes para impor a inovação proposta. Entretanto, na maioria dos casos, a negociação e barganha com outros atores são inevitáveis. Nestes casos, o empreendedorismo institucional envolverá recompensas, para os apoiadores, e punição, para os oponentes. O empreendedor pode recrutar aliados, que detenham o controle sobre recompensas e punições, para apoiar a sua ideia (HARDY; MAGUIRE, 2008).
O empreendedorismo institucional, na maioria dos casos, depende de relações colaborativas – parcerias, coalizões, alianças, etc – pois implica na participação de diversos atores (HARDY; MAGUIRE, 2008). Isto o caracteriza como um processo predominantemente coletivo. Portanto, é considerado relevante que o empreendedor institucional possua a habilidade de induzir a cooperação entre atores. A posição social, a autoridade formal e o capital social, que o ator ocupa, é importante para mobilizar aliados no apoio a implementação da ideia proposta (BATTILANA; LECA; BOXENBAUM, 2009). A autoridade formal se refere a legitimidade do autor para tomar a decisão. Existem casos, nos quais os empreendedores institucionais procuram se aliar a atores que possuem autoridade formal, para fortalecer o apoio a ideia de mudança. O capital social esta relacionado a posição dos atores em uma rede relações informais, na qual ele tem acesso a informações e apoio político.
Além de mobilizar recursos, os empreendedores institucionais também fazem uso do discurso, para construir raciocínios e promover, em outros atores, cognições (e emoções) compartilhadas, que apóiem a mudança proposta (HARDY; MAGUIRE, 2008). O discurso adotado procura primeiro identificar um problema, a seguir elabora uma solução e, posteriormente, motiva outros atores a participarem da mudança.
Battilana, Leca e Boxenbaum (2009) destacam diversas estratégias desenvolvidas pelos empreendedores. Um exemplo é o uso de analogia, que procura legitimar a prática proposta associando-a a uma prática já existente no campo organizacional. Uma segunda alternativa empregada é o uso de histórias, relacionando eventos do passado com as propostas de futuro, que são apresentadas.
As ações estratégicas são ações intencionais (LAWRENCE; SUDDABY; LECA, 2009) desenvolvidas pelos atores sociais que empreendidas com vistas a
alcançar um objetivo específico, ainda que o mesmo não seja alcançado (ARENDT, 2010). Se refere a ação inicial, não ao resultado da ação, pois este pode ser distinto do inicialmente planejado.
Antes de avançar para o próximo tópico faz-se necessário definir de maneira mais clara o que é considerado ação e quem pode ser considerado o ator que irá realizá-la.
Conforme destacam Hardy e Maguire (2008) existem diferentes tipos de atores que iniciam a mudança institucional e agem nas instituições, incluindo: indivíduos, organizações, profissões, redes, associais e movimentos sociais. Ao descrever os empreendedores institucionais Garud, Hardy e Maguire (2007) afirmam que eles são atores inteligentes, com capacidade para refletir e agir de outras formas, além das prescritas pelas regras sociais. Apesar do trabalho não analisar empreendedores institucionais os conceitos de atores inteligentes, com capacidade de refletir e agir de maneira distinta da usual podem ser considerados na presente análise.
Na teoria institucional existe um debate sobre o nível de análise, sendo privilegiado o campo organizacional e as organizações em detrimento ao nível individual (BATTILANA; D’AUNNO, 2009). Porém Battilana e D’Aunno (2009) destacam a necessidade de analisar o nível individual de análise para compreender a agência humana, lembrando que os indivíduos estão inseridos em organizações, e as mesmas inseridas em campos organizacionais. Portanto, segundo os autores, é preciso também analisar o papel dos indivíduos para compreender as mudanças que ocorrem nas organizações e nos campos organizacionais, pois os três níveis são interrelacionados.
Battilana (2006) destaca a importância de compreender a posição social dos indivíduos, visto que esta é uma variável chave para compreender como os indivíduos podem agir como empreendedores institucionais, apesar das pressões institucionais. A literatura já apresenta alguns trabalhos que destacam o papel dos indivíduos em mudanças institucionais, como a análise elaborada por Kraatz e Moore (2002) sobre o impacto da migração de executivos (indivíduos) na mudança institucional. Outro destaque do papel individual na análise é feito por Mutch (2007) ao analisar detalhadamente as ações desempenhadas por Sir Walker.
A ação é essencialmente coletiva, conforme apresentado por Arendt (2010[1958]) ela ocorre “com” outras pessoas, portanto jamais é possível no
isolamento. Portanto, a maior parte da ação e do discurso humano ocorre no espaço-entre as pessoas. Estas afirmações podem ser relacionadas com as apontadas por Fligstein (1997) que, ao relatar sobre as habilidades sociais que definem os empreendedores institucionais, afirma que a base da habilidade social é a habilidade de se relacionar com a situação dos ‘outros’. Ou, “habilidade social pode ser definida como a habilidade de motivar a cooperação de outros atores provendo a estes atores significados e identidade comuns” (FLIGSTEIN, 1997, p. 398).
Conforme relata Arendt (2010[1958]) a ação está relacionada com o início do curso de ação e não pode ser diretamente relacionada com o resultado, pois toda ação é realizada dentro da teia de relações humanas. E “é em virtude dessa teia preexistente de relações humanas, com suas inúmeras vontades e intenções conflitantes, que a ação quase nunca atinge seu objetivo” (ARENDT, 2010, p. 230). Pois o resultado da ação depende da sua relação com diversas ações realizadas por inúmeros atores. Portanto, nunca poderemos apontar um sujeito como autor do resultado final, no máximo poderemos isolá-lo como o agente que pôs o processo inteiro em movimento. Por isso é importante compreender o ator como agente e paciente da mesma história:
O ator nunca é um simples agente, mas sempre, e ao mesmo tempo, paciente. Fazer e padecer são como as faces opostas da mesma moeda, e a estória iniciada por um ato compõe-se dos feitos e dos padecimentos dele decorrentes. Essas consequências são ilimitadas porque a ação, embora possa provir de nenhures, por assim dizer, atua em um meio no qual toda reação se converte em reação em cadeia, e no qual todo processo é causa de novos processos. (ARENDT, 2010, p. 238)
Ou seja, a ação humana não ocorre em um vácuo, mas é fruto de um contexto. Na teoria institucional foram desenvolvidos estudos sobre campos organizacionais que são os espaços nos quais as organizações interagem entre si para agirem, tanto na reprodução de instituições como na criação de novas.