3.1 O MODELO NUMÉRICO
3.1.2 Modelos de materiais
3.1.2.2 Aço do perfil
Para a modelagem dos aços das mesas e da alma do perfil, foi utilizado o critério de plastificação de von Mises (1913) com endurecimento isotrópico. Essa superfície pode ser expressa pela equação (3.15). No espaço tridimensional de tensões principais, ela apresenta o formato de um cilindro – as suas intersecções com o plano desviador são círculos (figura 3.16a), e com os planos meridianos são retas horizontais (figura 3.16b). Este critério não depende do primeiro invariante de tensões 𝐼1 nem tampouco do ângulo de similaridade 𝜃, estando relacionado apenas com as tensões desviadoras. Segundo Ottosen e Ristinmaa (2005, p. 179), o critério de von Mises se ajusta com bastante precisão a dados experimentais do aço e de metais diversos.
𝑓(𝐽2) = √3𝐽2− 𝜎𝑦 = 0 (3.15)
Em que 𝜎𝑦 é a tensão de escoamento do material.
Figura 3.16 – Superfície de von Mises. (a) Plano desviador; (b) Plano meridiano
Fonte: adaptado de Ottosen e Ristinmaa (2005)
Antes que o estado de tensões de um ponto atinja a superfície dada em (3.15), ou seja, enquanto 𝑓 < 0, admite-se que o aço possui comportamento elástico linear. No momento em que esta superfície é atingida (𝑓 = 0), inicia-se a plastificação deste ponto, e então passa a valer a lei de endurecimento. Admite-se plasticidade associada, ou seja, o incremento de deformação plástica ocorre na direção perpendicular à superfície de plastificação. Dentro do script desenvolvido, são disponibilizados três tipos de lei de endurecimento para o aço do perfil, além da opção elástica, a partir da definição do valor numérico para o parâmetro ap_opt. A tabela 3.3 apresenta estas opções, que são esquematizadas na figura 3.17. No caso da opção de material elástico (ap_opt=0), admite-se que o material permanece no regime elástico para qualquer incremento de tensão, sem plastificação. As demais opções (1, 2 e 3) consideram a plastificação conforme descrito neste parágrafo e diferem na complexidade de suas formulações.
Tabela 3.3 – Opções de modelos constitutivos para o aço do perfil Valor de ap_opt Modelo constitutivo
0 Elástico Linear
1 Elastoplástico perfeito
2 Bilinear
3 Multilinear - Gattesco (1999) Fonte: elaborado pelo autor
__________________________________________________________________________________________ Figura 3.17 – Modelos constitutivos para o aço do perfil. (a) Elástico Linear;
(b) Elastoplástico perfeito; (c) Bilinear; (d) Multilinear – Gattesco (1999)
Fonte: (a), (b), (c) Elaborado pelo autor; (d) Adaptado de Gattesco (1999)
Sendo 𝑓𝑦 a tensão de escoamento do aço; 𝑓𝑢 a tensão última do aço; 𝜀𝑦 a deformação de escoamento do aço; 𝜀𝑢 a deformação quando é atingida a tensão última; 𝜀ℎ a deformação no
início do endurecimento no modelo de Gattesco (1999); 𝐸 o módulo de elasticidade do aço na zona elástica; e 𝐸ℎ o módulo de elasticidade tangente à curva de endurecimento no modelo de Gattesco (1999).
O modelo utilizado por Gattesco (1999), ilustrado na figura 3.17d, admite um patamar de escoamento antes do início do endurecimento. No presente trabalho foi fornecida uma pequena inclinação a este patamar, com o objetivo de prevenir problemas numéricos. O trecho do endurecimento é modelado por uma parábola cujo vértice coincide com o ponto (𝜀𝑢, 𝜎𝑢). Este modelo constitutivo é expresso na equação (3.16).
𝜎 = { 𝜀. 𝐸 𝑝𝑎𝑟𝑎 0 ≤ 𝜀 ≤ 𝜀𝑦 𝑓𝑦 + (𝜀 − 𝜀𝑦) (𝜀ℎ− 𝜀𝑦). (𝑓𝑢− 𝑓𝑦) 100 𝑝𝑎𝑟𝑎 𝜀𝑦 < 𝜀 ≤ 𝜀ℎ 𝜎(𝜀ℎ) + 𝐸ℎ. (𝜀 − 𝜀ℎ). (1 − 𝐸ℎ. (𝜀 − 𝜀ℎ) 4. (𝑓𝑢− 𝜎(𝜀ℎ)) ) 𝑝𝑎𝑟𝑎 𝜀ℎ < 𝜀 ≤ 𝜀𝑢 (3.16) Com 𝜎(𝜀ℎ) = 𝑓𝑦 + (𝑓𝑢−𝑓𝑦) 100 ≅ 𝑓𝑦
A função contínua definida por partes em (3.16) é inserida no software via pontos discretos, com interpolações lineares nos seus intervalos. O manual do Ansys (2018) denomina este modelo como multilinear. A figura 3.18 ilustra um exemplo hipotético com valores típicos 𝐸 = 20000 𝑘𝑁/𝑐𝑚²; 𝐸ℎ = 400 𝑘𝑁/𝑐𝑚²; 𝑓𝑦 = 30 𝑘𝑁/𝑐𝑚2; 𝑓
𝑢 = 45 𝑘𝑁/𝑐𝑚² e 𝜀ℎ/𝜀𝑦 =7,5.
Em razão da entrada de dados ser feita desta forma, o valor de 𝜎(𝜀ℎ) pode ser aproximado para
𝑓𝑦 na equação do trecho parabólico sem que seja gerada uma descontinuidade na função.
Figura 3.18 – Exemplo de aplicação do modelo de Gattesco (1999)
Fonte: Elaborado pelo autor
Na prática, muitas vezes só estão disponíveis os dados das tensões de escoamento e última do aço, além de seu módulo de elasticidade inicial. Nestes casos, os demais valores dos modelos devem ser calculados e/ou arbitrados. Sadowski et al. (2015) fizeram um estudo estatístico com um conjunto de dados de diagramas tensão-deformação acumulados entre 2010 e 2013, no
Karlsruhe Institute of Technology, na Alemanha: para aços do tipo S355, encontraram um valor
médio para a razão 𝜀ℎ/𝜀𝑦 igual a 8,3, e para a razão 𝐸ℎ/𝐸 igual a 2,41%, com desvios padrão
de 1,94 e 0,15%, respectivamente. Gattesco (1999) utilizou valores para a razão 𝐸ℎ/𝐸 variando
entre 1,2% a 1,7%; e para a razão 𝜀ℎ/𝜀𝑦 variando entre 1 e 15,7. No presente trabalho, na ausência de maiores informações, optou-se por utilizar 𝜀ℎ/𝜀𝑦 entre 6,5 a 8,5 e 𝐸ℎ/𝐸 entre 1,5% a 2,0% (resultando em 𝐸ℎ entre 300 kN/cm² e 400 kN/cm² para 𝐸 = 20000 kN/cm²).
No caso da adoção de um modelo bilinear, conforme ilustrado na figura 3.17c, o Eurocode 3 –
Part 1-5 (CEN, 2006) permite que a análise seja feita utilizando-se uma inclinação para o trecho
__________________________________________________________________________________________ O modelo elastoplástico perfeito, ilustrado na figura 3.17b, não é muito representativo do comportamento do aço pois desconsidera o endurecimento do material. Contudo, é um modelo mais simples do que os demais e pode servir como boa aproximação inicial. A este modelo também foi fornecida uma pequena inclinação no patamar plástico, igual a 0,1 kN/cm², com o objetivo de prevenir problemas numéricos. O Eurocode 3 – Part 1-5 (CEN, 2006) determina que, neste caso, a inclinação do patamar deve ser menor ou igual a 𝐸/10000.
Cabe ressaltar que o modelo constitutivo de Gattesco (1999) também foi utilizado por Kotinda (2006), Queiroz, Vellasco e Nethercot (2007), Schmitz (2017) e Mittelstadt Júnior (2017). Apesar de ser um modelo mais complexo, e, portanto, dependente de mais valores, ele é o único, dentre os utilizados, capaz de captar um patamar de escoamento com posterior endurecimento, se aproximando mais realisticamente dos diagramas tensão-deformação dos aços estruturais. No script desenvolvido, é possível adicionar diferentes valores para os aços de cada mesa e da alma do perfil. Devem ser informados o módulo de elasticidade (kN/cm²), a tensão de escoamento (kN/cm²), a tensão última (kN/cm²), o coeficiente de Poisson, o módulo de elasticidade tangente 𝐸ℎ (kN/cm²) e a razão 𝜀ℎ/𝜀𝑦. No caso de serem utilizados os modelos elastoplástico perfeito ou bilinear, estes dois últimos valores não são utilizados diretamente, mas entram no cálculo da deformação 𝜀𝑢, associada à tensão última (alternativamente, existe a opção dentro do código de inserir diretamente o valor de 𝜀𝑢).