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3 CRITERIOLOGIA: FUNDAMENTOS DE TODO CONHECIMENTO

3.1 SENSO-PERCEPÇÃO (AÍSTHESIS)

3.1.1 AÍSTHESIS: ENQUANTO A FACULDADE DA SENSIBILIDADE

A gnosiologia epicúrea, herdeira direta da ontologia grega engendrada pelos pensadores pré-socráticos, toma a senso-percepção190 (aísthesis) enquanto o primeiro “critério da verdade”191, partindo sempre do pressuposto de que há um mundo dado e que este é evidentemente percebido, ou seja, é captado pelas competências físico-naturais de um conjunto de qualidades derivadas, originalmente, de uma estrutura atômica complexa, isto é, o corpo como o conjunto dos órgãos sensoriais (toís aistheteríois). Todavia, tal estrutura se mostra efetiva e é garantida pelo ato mesmo de sentir, o que afirma Diógenes Laércio: “a verdade das sensações [aisthéseon alétheian] é garantida pela existência efetiva das percepções imediatas [epaisthémata]”192, logo, parafraseando o cogito cartesiano, seria mais

187

Cf.: EHe 115. 188

EHe, 46.

189 Epicuro usa dois termos semelhantes para designar esta atividade natural dos corpos compostos: avporroh, “emanação” e r`eu/ma, melhor entendido como “fluxo”, “derramamento”.

190 Doravante, far-se-á menção ora a sensação (como o ato mesmo de sentir) e faculdade da sensibilidade ou da percepção (competência do sujeito sensitivo de perceber o mundo), como sinônimos de senso-percepção (aisthesis).

191 Além da sensação, Diógenes Laércio também considera como “critérios da verdade”, para Epicuro, as antecipações e as afecções: “krith,ria thj avlhqei,aj ei;nai ta.j aivsqh,seij kai. prolh,yeij kai. ta. pa,qh”. (Ibidem, §31.). Já os discípulos de Epicuro acrescentam “as representações intuitivas do pensamento”, “ta.j

fantastika.j evpibola.j th.j dianoi,aj\” (Tradução levemente modificada). 192 DL, X, 32.

ou menos como: sinto, logo existo!, isto é, sentir garante imediatamente a estrutura que a possibilita, assim como pensar, para Descartes, implica na necessidade da existência. Portanto, é da sensibilidade que tudo necessita para se conhecido se efetivar como realidade possível na ordem do discurso.

Segundo Platão os objetos da diánoia são mais claros que os objetos da aísthesis193, situando-a num nível “inferior” (num sentido hierárquico do conhecimento, e não depreciativo, como é comum encontrar em manuais de filosofia) em relação a diánoia, logo, acaba que nesta relação, “a crítica da razão consegue purificar os dados da sensibilidade” (informação verbal)194, demonstrando que ainda cabe uma mútua relação de necessidade entre a sensibilidade e o entendimento no pensamento de Platão, como bem se pode apreciar no diálogo Teeteto, no passo 184b e seguintes, em que Teeteto responde afirmativamente a pergunta de Sócrates: “Respondeste que percepção é conhecimento, não respondeste?”195, embora se conclua, no mesmo diálogo, que “o conhecimento não está nas sensações, mas no raciocinar sobre elas”196, como também a utilização do corpo pela psyché claramente demonstrada no Fédon. Portanto, para Platão o conhecimento não é apenas sensação nem apenas razão, mas é o fruto desta mútua relação.

O discurso de Diógenes Laércio acerca do lugar da sensibilidade (aísthesis) na filosofia de Epicuro, inicia-se – diferentemente de Platão e Aristóteles – com a afirmação “dogmática” de que “toda sensação é não-discursiva (álogon) e não participa da memória”197, numa clara demonstração de um “salvo conduto”, ou um privilégio para a senso-percepção na ordem do conhecimento. Esta convicção permeará toda obra de Epicuro, e diz respeito, neste momento, à sensibilidade como uma faculdade e não como um conhecimento adquirido, mas donde provém a seguridade para a aquisição de todo conhecimento possível, desde o imediato sensível até o inferido noético. É o que parece se identificar claramente nas próprias palavras de Epicuro nas Máximas Capitais: “se te opuseres a todas as sensações, não terás sequer um

193 Esta mesma estrutura encontra-se em Descartes, por exemplo. Clareza e distinção parecem ser, tanto em Platão como em Descartes, características necessárias, isto é, evidente, para estabelecer a verdade: “E, portanto, parece-me que já posso estabelecer como regra geral que as coisas que concebemos muito clara e distintamente são todas verdadeiras” (DESCARTES, René. Meditações Metafísicas. 2 ed. Tradutor:

GALVÂO, Maria Ermantina de Almeida Prado. São Paulo: Martins Fontes. 2005. p. 58).

194 José Trindade Santos, em uma aula ministrada no dia 11/03/2014, no curso de Mestrado em Filosofia, na disciplina: Seminário de Leitura IV da Universidade Federal do Ceará.

195ai;sqhsin ga.r dh. evpisth,mhn avpekri,nw h= ga,r;”, BURNET, Ioannes. Platonis Opera: QEAITHTOS. 183b.

196paqh,masin ouvk e;ni evpisth,mh”, BURNET, Ioannes. Platonis Opera: QEAITHTOS. 186d. 197

“pa/sa ga,r( fhsi,n( ai;sqhsij a;logoj evsti kai. mnh,mhj ouvdemia/j dektikh,” (BGFE, 31, tradução levemente modificada).

ponto de referência para julgar as que consideram falsas”198. A aplicação destas afirmações resulta na impossibilidade de se rejeitar a sensibilidade como um critério de verdade (kritéria tès aletheías), o que afirma também Lucrécio de forma categórica: “descobrir-se-á que é pelos sentidos que primeiro se revela a nós o sinal da verdade e que os sentidos não se podem refutar”199.

Uma segunda afirmação ainda imbricada com a primeira, isto é, a ‘não- enunciabilidade da sensação’, é que uma sensação qualquer – da mesma natureza (homogenê) ou de natureza diferente (anomogéneian) – não pode incorrer numa refutação, em última análise, de si mesma (autós). Todavia, isto se dá, devido a seu caráter evidente (enárgema), “porque nossa atenção está voltada igualmente para todas”200, estrutura lógica já demonstrada por Empédocles: “é por isso que um sentido não é capaz de julgar um outro”201, pois implica na afirmação de que cada sentido dá conta de um ‘processo receptivo’ particular. Tampouco a razão (oúde mèn lógos)202 pode refutar (dielégksai) a sensação, por causa de sua relação de dependência ao que é concedido pelos órgãos dos sentidos, logo, “se eles [os sentidos] não são verdadeiros, também a razão se torna inteiramente falsa”203, pois é da sensação que o entendimento recebe a possibilidade de se referir ao mundo. Esta afirmação de Lucrécio demonstra claramente, tanto a centralidade como a passividade próprias da sensibilidade na obra de Epicuro, e também como ele entende o ato do pensamento inteiramente dependente (értetai) das sensações, embora se relacione mutuamente com o entendimento204, “posto que todo raciocínio [lógos] é enunciado a partir das sensações”205.

A sensação se apresenta como um processo “não-discursivo” (álogon206) pertencente tanto à faculdade da sensibilidade como o ato de sentir, já que não é de sua alçada justificar racionalmente ou discursivamente (lógos) seus fundamentos, por essa razão a

198 VOFI, Livro X, 146, XXIII. 199

LUCRÉCIO. Da Natureza, p. 93. 200 EHe, 32.

201 KRS. Empédocles. De sensu 7. DK 31 a 86. Por isso não se deve “confiar mais na vista que no ouvido, nem no ouvido ruidoso acima dos esclarecimentos da língua”. (KRS. Empédocles. Fr. 3 DK).

202lo,goj é o termo empregado por Diógenes Laércio no Livro X, já Epicuro usa dia,noia na Carta a Heródoto. 203 LUCRÉCIO, Op. Cit., livro IV, 485-486.

204 Marca-se, todavia, uma distinção entre pensamento (no,hma) e entendimento (dia,noia). No,hma é o pensamento em ato, designa o pensamento em geral, adquirindo no período clássico, mais precisamente com Platão, um sentido mais preciso, como o estágio último do conhecimento adquirido dialeticamente (PLATÃO, República. 1965. 509d-511c; 534a). Dia,noia, por sua vez, é uma estrutura que engendra o ato de pensar, uma faculdade que segundo Epicuro, gerencia, por exemplo, os prazeres (tw/n h`donw/n) evitando que tanto o corpo como a alma experimente sofrimentos (DL, X, 142, MC, X).

205 VOFI, Livro X, 32. 206

O a;logon diz respeito ao “não discursivo”, e nunca ao “absurdo” ou o “incompreensivo”. È o “irracional” no sentido de que não pode haver uma articulação discursiva.

sensação pertence “a um domínio anterior ao da razão”207, e é justamente aqui, que se põe a distinção com Platão, que na ordem do conhecimento, se inverte, e a primazia passa a ser da razão. Mas tanto Platão como Epicuro não pensam a sensação como uma pura receptividade, não cabendo nada mais, na verdade, quando a faculdade da sensibilidade percebe um determinado dado sensível, ela, por sua própria natureza, possibilita ao entendimento estender esta sensação a nível do pensamento, isto é, a sensibilidade não enuncia nada, mas é a condição necessária para o entendimento produzir conhecimento.

Como faculdade ou capacidade (dýnamis), isto é, a “força” natural para exercício de suas competências, e isso traduz o termo dýnamis na concepção de Epicuro, ou seja, diz-se do caráter passivo (pathetikón) da aísthesis. A partir do momento em que se observa que as sensações se originam a partir de algo externo, isto é, das imagens (eídola) desprendidas dos corpos compostos, e estas imagens fazem-se conhecidas por tocarem esta faculdade (distribuída por todo o corpo), afirma-se, portanto, o caráter de passividade que se deve considerar a faculdade da sensibilidade. Observa-se, também, que “uma sensação não se desencadeia por si”208, necessitando sempre da relação com os entes no mundo, pois “não se move por si mesma, nem é movida por causas externas [operações dialéticas, por exemplo209], nem é capaz de colocar ou retirar nada”210. Todavia, essa descrição da aísthesis é o que caracteriza esta passividade necessária que, conseqüentemente, a leva à afirmação de que “nada pode refutá-la”211, isto porque refutação se dá na ordem discursiva, procedimento a que a aísthesis não se permite por não ser de sua competência. Logo, Lucrécio mais uma vez endossa essa ideia quando se pergunta: “Ora, que pode merecer maior fé do que os sentidos”212.

Diógenes Laércio ao afirmar que nenhuma sensação, seja ela de qual classe for não pode refutar outra da mesma classe, por serem equivalentes, nem sensações de classes diferentes se refutam, pois elas não se referem “aos mesmos objetos”213, está descrevendo uma teoria da sensibilidade blindada, em outras palavras, onde o olho não pode negar (no sentido de opinar, emitir um juízo) o que se lhe apresenta a visão, seria um absurdo negar tal evidência, como também, o paladar não pode refutar o que lhe percebe pela visão, por ser o

207

BRUN Jean, Op. Cit., p. 44. 208 Jean Brun, Op. Cit., p. 45.

209 Cf. início do §31 onde se rejeita a dialética. 210 DL, X, 31.

211 Ibidem, loc. cit. Cf. em BGFE: ouvde. e;sti to. duna,menon auvta.j diele,gxai”. 212

DRN. IV, 479-480. 213 VOFI, Livro X, §32.

paladar de uma classe de sensação diferente da visão214, ou seja, todo o processo de desencadeamento da sensação – eídola(do objeto)/tyípoi(na sensibilidade)/fantasmata(no entendimento) – é algo passivo, não podendo o juízo interferir no fato da ocorrência da sensação. O papel da sensação, portanto, é apresentar o que não pode ser contrafactado, como testemunha Sexto Empírico:

Todas as representações são verdadeiras e com razão. [...] A sensação deve limitar-se a captar o que está presente e a move, como a cor, por exemplo, ela não deve julgar se uma coisa é o objeto em certo lugar, outra o objeto em outro. Por isso as representações são todas verdadeiras.215

Mesmo Cícero, talvez o primeiro grande crítico do atomismo e da gnosiologia epicúrea, munido por sua inclinação estóica já no período romano, entendeu bem a preocupação de Epicuro em se manter coerente em seu sistema sensista e com o estabelecimento da sensação (aísthesis) como primeiro critério da verdade, chegando ele mesmo a afirmar, que Epicuro temia que se uma sensação se revelasse falsa e desprovida de confirmação (martýrion), nenhuma outra poderia mais ser considerada como verdadeira e segura, vindo a chamar os sentidos, como pensado na filosofia na epicúrea, de ‘enunciadoras da verdade’216. Por isso adverte o próprio Epicuro na Máxima XXIII, para não “lutar contra todas as sensações”217 e assim perder as referências para discernir (krísis) o falso e o verdadeiro o agradável e o desagradável.