A União Africana (UA) é uma organização composta por todos os países do continente africano (55 estados membros), que, em 2015, produziu o documento “AGENDA 2063: A África Que Queremos”, no qual foram estabelecidas sete aspirações para o continente, alinhadas com a Agenda 2030 e os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ONU, 2015).
1. Uma África próspera, baseada no crescimento inclusivo e desenvolvimento sustentável. 2. Um continente integrado, politicamente unido com base nos ideais do Pan-africanismo e na visão de Renascimento da África. 3. Uma África de Boa Governação, Democracia, Respeito pelos Direitos Humanos, Justiça e o Estado de Direito. 4. Uma África Pacífica e Segura. 5. Uma África com uma forte identidade cultural, património, valores, ética comum. 6. Uma África cujo desenvolvimento seja orientado para as pessoas, confiando no potencial dos povos africanos, especialmente no potencial da mulher, da juventude e onde a criança tem tratamento digno. 7. Uma África como um actor e um parceiro forte, unido e influente na arena mundial (UNIÃO AFRICANA, 2015, p. 2).
O conceito que deverá nortear o desenvolvimento regional das IES em África e que se aplica aos diferentes projectos universitários nacionais, conforme a literatura e política educacional para o continente, deve ser o de promotor da identidade cultural de um povo, a garantia de sua preservação às gerações futuras e o desenvolvimento regional e nacional com melhoria das condições de vida das comunidades (UNIÃO AFRICANA, 2015).
Ao aprofundar a 1ª aspiração “Uma África Próspera, Baseada no Crescimento Inclusivo e Desenvolvimento Sustentável”, destaque-se aqui que, até 2063, “Os povos africanos tenham um alto padrão e qualidade de vida, boa saúde e bem-estar”, bem como “os cidadãos serem bem-educados e qualificados, apoiados pela ciência, tecnologia e inovação, para uma sociedade culta”, além de que “nenhuma criança deixe de ir à escola devido à pobreza ou qualquer forma de discriminação” (UNIÃO AFRICANA, 2015, p. 3).
Até 2063 acredita-se que “o capital humano da África” estará totalmente desenvolvido como sendo “o recurso mais precioso de África” (UNIÃO AFRICANA, 2015, p. 4). Além do investimento sustentável da primeira infância a nível universal e do ensino básico, aposta-se no:
investimento sustentável no ensino superior, ciência, tecnologia, investigação e inovação, bem como eliminar as disparidades do género a todos os níveis de ensino. O acesso ao ensino pós-graduação irá expandir-se e será reforçado, garantindo infra-estruturas de classe mundial para o ensino e investigações, que visam apoiar as reformas científicas que impulsionam a transformação do continente. (UNIÃO AFRICANA, 2015, p. 4).
Durante a conferência da União Africana de janeiro de 2015, realizada na Etiópia, os chefes de Estado assumiram a Agenda 2063 como “um roteiro para os próximos cinquenta anos”, comprometendo-se a acelerar ações em diferentes áreas, dentre as quais destacam-se:
• Criar e expandir uma Sociedade Africana de Conhecimentos, através da transformação e investimentos nas universidades, ciência, tecnologia, investigação e inovação; e através da harmonização dos padrões de educação e reconhecimento mútuo das qualificações académicas e profissionais;
• Criar uma Agência Africana de Acreditação para desenvolver e monitorizar os padrões de qualidade da educação, com vista a expandir a mobilidade dos estudantes e académica no continente.
• Reforçar a Universidade Pan-africana, criar a Universidade Virtual Pan-africana e elevar o papel de África na investigação a nível mundial, desenvolvimento da tecnologia e transferência, inovação e produção de conhecimentos, e
• Aproveitar as universidades e as suas redes, incluindo, outras opções com vista a atingir o ensino universitário de alta qualidade (UNIÃO AFRICANA, 2015, p. 17).
A essas ações vinculadas à educação superior acrescentam-se outras direcionadas ao apoio aos jovens considerados como “impulsionadores do renascimento de África”, tais como: “Garantir movimento mais rápido na harmonização das admissões, currículos, padrões, programas e qualificações a nível continental e melhorar os padrões do ensino superior com vista a melhorar a mobilidade dos jovens e talentos africanos no continente” (UNIÃO AFRICANA, 2015, p. 20).
Pode-se afirmar que a Agenda 2063 expõe enormes desafios ao pensar em termos continentais e defender ações visando:
a) a transformação e investimentos nas universidades, ciência, tecnologia, investigação e inovação;
b) a expansão do ensino da pós-graduação e a garantia da infraestruturas de classe mundial para o ensino e as investigações;
c) a criação de uma Agência Africana de Acreditação para desenvolver e monitorizar os padrões de qualidade da educação;
d) a criação da Universidade Virtual Pan-africana;
e) a elevação do papel de África na investigação a nível mundial, desenvolvimento da tecnologia e transferência, inovação e produção de conhecimentos;
f) atingir o patamar de um ensino universitário de alta qualidade;
g) a harmonização das admissões, currículos, padrões, programas e qualificações a nível continental e melhorar os padrões do ensino superior.
Os desafios são enormes, não somente para os governos, mas também para as IES dos sectores público e privado. Embora na Agenda 2063 não se mencione explicitamente os rankings académicos, o cenário traçado, visando ações em nível continental e incluindo a criação de uma agência africana de acreditação, abre espaço, tanto para a criação e/ou o surgimento de novos rankings, quanto para a ampliação da utilização de rankings já existentes como ferramentas de mensuração da almejada qualidade, a exemplo do Multirank financiado pela União Europeia ou os grandes e tradicionais rankings mundiais. Aliás, sobre estes últimos, na visão de Altbach e Hazelkorn (2018, p.1), “em vez de nos enganarmos acreditando que os
rankings fornecem uma medida significativa da qualidade da educação, devemos reconhecer que eles simplesmente usam indicadores inadequados por conveniência comercial”.
Nesse cenário e diante da necessidade de monitorar a qualidade, dos escassos recursos públicos e da necessidade de distribui-los de forma mais eficiente, os rankings académicos ou os índices de desempenho seriam ferramentas viáveis para atingir os objectivos da Agenda 2063? Que tipo de rankings seriam os mais adequados para o continente africano? Como os Estados Nacionais deveriam conduzir as políticas de investimentos nas universidades e para elevar o papel da África na investigação a nível mundial?