4 O PROCESSO DE RECONSTRUÇÃO INSTITUCIONAL DA
4.3 A AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCINALIDADE (ADI) 2903/2005 E A
Outro episódio importante, que marcou a trajetória de afirmação institucional da Defensoria Pública no país, ocorreu no ano de 2005, consistindo no julgamento, por parte do Supremo Tribunal Federal (STF), da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 2903/2005, impetrada pela ANADEP e que resultou em sentença pela qual ficou determinado, por unanimidade do Plenário do STF, a observância da Lei Orgânica Nacional da Defensoria Pública para todos os entes da federação.
Nessa ocasião, a ANADEP questionou a validade da lei complementar nº 48/2003 do estado da Paraíba, que criava cargos de dirigência não previstos na lei orgânica da categoria, na estrutura institucional da Defensoria Pública Estadual.222 Ao STF, a ANADEP alegava que: “o Estado da Paraíba, ao transgredir os arts. 99, „caput‟, ambos da Lei Orgânica Nacional
220 BRASIL. EM nº 00024 – Ministério da Justiça [Subchefia de Assuntos Parlamentares]. Diário Oficial da
União, Brasília, 14. mar. 2007. Disponível em:
<https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/projetos/EXPMOTIV/MJ/2007/24.htm>. Acesso em 20. jan. 2017. Não paginado. Grifos nossos.
221 Ibidem. Grifos nossos. 222
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS DEFENSORES PÚBLICOS. Lei paraibana sobre Defensoria Pública é
declarada inconstitucional. [ANADEP na Mídia]. Disponível em:
da Defensoria Pública (LC 80/94), culminou por ofender, diretamente, o próprio texto da Carta Política”.223
Um desdobramento importante desse julgamento diz respeito ao aprofundamento da discussão, empreendido por parte do ministro relator da matéria, o decano Celso de Mello, sobre o status institucional ocupado pelo defensor público-geral de estado. Em sua manifestação de defesa, o governador do estado da Paraíba alegava que o defensor público- geral, “por ser Secretário de Estado [...] pode ser nomeado dentre pessoas estranhas à carreira de Defensor Público, sob pena de se retirar, ao Chefe do Poder Executivo, a prerrogativa da livre escolha do seu auxiliar”.224
Em densa explanação, o ministro Celso de Mello elencou, em seu relatório, as razões pelas quais o cargo de defensor público-geral diferiria do cargo de secretário de Estado, concluindo que:
A qualificação do Defensor Público-Geral como Secretário de Estado não tem o condão de excluir o Estado da Paraíba da necessária observância das diretrizes que, fixadas em sede de normas gerais definidas na legislação de princípios (ou de bases) emanada da União Federal, representam expressão de um poder que foi expressamente delegado, a esta pessoa política, pela própria Constituição da República, em seu art. 134, parágrafo 1º. [...] Se assim não se entender, estar-se-á admitindo a gravíssima possibilidade de o Estado-membro fraudar a vontade do constituinte, pois bastaria a tal unidade federativa atribuir, ao Defensor Público- Geral, a condição de Secretário de Estado, para incluí-lo dentre os agentes políticos sujeitos à livre escolha e exoneração pelo Chefe do Poder Executivo local, que passaria, então, a dispor de ampla competência para investir, no cargo de Defensor Público-Geral, pessoa estranha à carreira, como sustenta (e pretende) o Governador a Paraíba.225
Tal decisão, respaldada unanimemente pelo Plenário do STF, contribuiu sobremaneira para a consolidação da autoridade da figura institucional do Defensor Público-Geral de Estado e para a observância mais rigorosa da lei complementar nº 80/1994, por parte dos governadores de estados. Em função da jurisprudência produzida, tornou-se possível se repelir outras formas de “improviso” institucional, tendo em vista procrastinar a instalação da instituição ou substituí-la por arranjos de caráter paliativo, no âmbito dos estados. Por sua vez, esta seria apenas uma ocasião, dentre várias outras, em que a Suprema Corte seria provocada a se manifestar a respeito das atribuições institucionais da Defensoria Pública.
Também nesse mesmo ano, no mês de dezembro, foi criada a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, atendendo às reivindicações do “Movimento pela criação da
223
BRASIL. Superior Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade 2.903-7 Paraíba. Tribunal Pleno,
Brasília, DF, 01 de dezembro de 2005. Disponível em:
<http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=548579>. Acesso em 18. jan. 2017. p. 71.
224 Ibidem. p. 109.
Defensoria”, organizado em 2002, para pressionar as autoridades estaduais.226
Tal advento, à época, foi bastante significativo, sendo nacionalmente celebrado, pois durante dezesseis anos, o estado de São Paulo manteve a prestação de serviços de assistência judiciária através da Procuradoria da Assistência Judiciária, órgão vinculado à Procuradoria de Justiça do Estado. Por outro lado, atualmente, a Defensoria Pública de São Paulo conta com o segundo maior quadro de defensores públicos estaduais ativos no Brasil (719 membros ativos), perdendo, em número de membros, apenas para a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (771 membros ativos).227
Conforme um ex-dirigente da ANADEP, “em São Paulo se viu, a partir de 2006, um processo inovador em termos de interlocução com os movimentos sociais. Porque, lá, muito por força dos movimentos sociais, das organizações da sociedade civil, é que nasceu a Defensoria Pública”.228
Além disso, em função da intensa participação dos movimentos sociais no seu processo de criação, a Defensoria Pública paulista foi a primeira do país a contar com um órgão de Ouvidoria externa, indicada pela sociedade civil, antecipando-se em três anos ao que passaria a ser prescrito para todas as unidades do país, a partir da nova Lei Orgânica da Defensoria Pública, em 2009.
Na ocasião em que se completaram quatro anos da instalação da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, dirigentes da Associação Paulista de Defensores Públicos (APDP) publicaram, na revista Consultor Jurídico (Conjur), um balanço acerca das atividades da instituição durante esse período e algumas conclusões.
Observaram que, naquele período, “o salário de defensor público [era] o mais baixo das carreiras jurídicas congêneres no Estado, ganhando quatro vezes menos que juízes e promotores públicos”,229 de maneira que os ex-procuradores da Assistência Judiciária, que optaram pela carreira de defensor público, passaram a contar com uma defasagem de cerca e 60% em seus salários.
No cenário nacional, ao longo dos seus quatro anos de existência, a instituição ganhou destaque vencendo por duas vezes seguidas o prêmio Innovare, mais importante da área e que elege práticas voltadas à melhoria e à modernização do sistema de justiça, pela inovação em práticas de resolução extrajudicial de conflitos. No plano judiciário, o ganho de sinergia com a autonomia da Defensoria foi relevante. Em comparação ao último ano de atuação da Procuradoria de Assistência
226 DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Saiba mais sobre a Defensoria Pública. São Paulo, [2007?]. Disponível em: <https://www.defensoria.sp.def.br/dpesp/Default.aspx?idPagina=2869>. Acesso em 20. jan. 2017. Não paginado.
227 Fonte: IV Diagnóstico da Defensoria Pública no Brasil (2015).
228 HEERDT, Cristiano Vieira. Entrevista concedida em 23 de agosto de 2016. Não paginado. 229
PORTUGUÊS, Rafael; NAPOLITANO, Bruno. Quatro anos da Defensoria Pública em São Paulo. Revista Consultor Jurídico, São Paulo, 9. jan. 2010. Disponível em: <http://www.conjur.com.br/2010-jan-09/acesso- justica-anos-defensoria-publica-sao-paulo>. Acesso em 22. jan. 2017. Não paginado.
Judiciária (2006), a Defensoria Pública dobrou o número de atendimentos, já no ano de 2008, sem acréscimo de novos cargos, conforme dados da Corregedoria da instituição.230
Em vista disso, no ano de 2006, o estado de São Paulo tornou-se o último estado da região sudeste, bem como o antepenúltimo no país, a instalar a sua respectiva Defensoria Pública. Apesar dessas circunstâncias, ainda que tardia, a criação da instituição, no estado de São Paulo, aumentou a força política da Defensoria Pública, possibilitando a ampliação da capacidade de articulação da instituição em nível nacional.
4.4 A ATUALIZAÇÃO DA LEI DA AÇÃO CIVIL PÚBLICA E A NOVA LEI ORGÂNICA