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CAPÍTULO 4: AS ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS DA SOUZA CRUZ

4.1 A deterioração intensa e abrangente da imagem pública da indústria

4.1.1 A ação integrada dos grupos antitabagismo

A força do movimento antitabagismo nos espaços públicos locais, como ocorre no Brasil, pode ser atribuída, em grande medida, à organização do movimento em nível global, capitaneada pela Organização Mundial de Saúde. A estratégia consiste na atuação dos grupos sociais locais, coletivamente organizados, com suas demandas específicas, mas desenvolvendo uma ação convergente em relação aos objetivos mais gerais da luta contra o cigarro em nível mundial.

A experiência acumulada em cada país, seja em termos de pesquisa seja na da própria construção da linha argumentativa mais forte face aos interesses das indústrias tabagistas, é compartilhada em encontros e eventos regionais, promovidos pela OMS, em que representantes do Estado e da sociedade civil estão presentes.155

A troca de experiências em nível global combate, em grande medida, a possível defasagem temporal entre países que já vivenciaram os processos de mobilização antitabagismo, principalmente no que se refere às questões normativas e jurídicas, e aqueles que lutam por uma regulamentação. A ação, no que se refere aos órgãos de Estado e aos movimentos da sociedade civil, pode, então, ser mais madura e consistente, mesmo nas fases iniciais. Além disso, as instituições estatais podem melhor conhecer e solucionar seus problemas e legitimar-se através de public inputs continuados.

No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer, INCA, órgão ligado ao Ministério da Saúde, é o coordenador e executor, em âmbito nacional, do Programa de Controle do Tabagismo, promovido mundialmente pela OMS. Além de organizar ações educativas, como o Dia Mundial sem Tabaco e o Dia Nacional de Combate ao Fumo, o INCA funciona como um ponto de produção e irradiação de informações sobre os males do fumo e sobre questões econômicas e jurídicas relacionadas ao

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cigarro. No programa “Tabaco ou Saúde”, promovido pela OMS com o objetivo de estimular e apoiar políticas e atividades anti-tabagismo na América Latina, por exemplo, o INCA desempenha o papel de Centro Colaborador da Organização Mundial de Saúde.156

Os encontros articulados pelo INCA promovem debates entre especialistas e representantes do Estado. O resultado das discussões é a consolidação de estratégias discursivas que ganharão ressonância nas negociações no Congresso e nas falas dos representantes antitabagismo na mídia. Além desse lugar reflexivo, os espaços discursivos construídos nesses encontros funcionam como um background de sentido que complementa e respalda os argumentos, muitas vezes simplificados, apresentados pelos representantes do movimento na mídia.

4.1.1.1 O 1º Tratado Internacional de Saúde Pública

O maior exemplo da articulação local-global e do intercâmbio contínuo entre organizações sociais e entidades estatais é a Convenção Quadro para o Controle do Tabaco. Aprovado por unanimidade na 56a Assembléia Mundial da Saúde, em Genebra, no dia 28 de maio de 2003, pelos mais de 190 países membros da OMS, o acordo representa o 1º Tratado Internacional de Saúde Pública da história.

O texto do Tratado prevê uma abordagem integrada à questão do fumo em nível mundial, através de ações complexas, que articulam campos distintos: comércio, economia, meio ambiente, agricultura, justiça, saúde, educação, entre outros. Objetivando implementar o cerco global ao tabaco, este instrumento legal inclui a regulamentação da publicidade, do patrocínio, da venda de produtos de tabaco a crianças e adolescentes, o tratamento da dependência da nicotina, o combate ao comércio ilícito, o aumento da carga tributária sobre o cigarro, a substituição de cultura do fumo por outras culturas economicamente viáveis, dentre outras medidas. As razões apresentadas pelos grupos antitabagismo para a existência da Convenção-Quadro seriam a articulação dos mecanismos de controle sobre a indústria tabagista, a unificação dos dados de pesquisa, permitindo um melhor foco de atuação, o fortalecimento das políticas nacionais de controle do

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tabagismo, além da integração trans-fronteiriça, o que tornaria mais eficientes medidas como a proibição de propaganda e as ações de combate ao mercado ilegal.

Todas essas medidas previstas no texto da Convenção-Quadro dependerão da assinatura e da ratificação de cada um dos países membros e somente entrarão em vigor quando pelo menos 40 deles já tiverem efetuado esse processo. Portanto, ela não substitui as instâncias legislativas e jurídicas dos países membros. Em grande medida, a Convenção-Quadro serve como um instrumento de orientação, pressão e complementação das políticas contra o tabaco efetivadas em nível local.

A relevância desse Tratado, no contexto mais amplo do movimento antitabagismo, não está apenas no seu conteúdo e nas medidas rígidas e integradas que ele estabelece, mas, também, na forma como foi construído. O texto final é resultado de uma série de reuniões, que tiveram início em 1999, em que representantes dos diversos países signatários estiveram presentes, além de representantes de organizações da sociedade civil. As redes comunicativas formadas nos encontros dos especialistas de áreas diversas e dos movimentos sociais, ao mesmo tempo que influem nas decisões do poder público, fortalecem-no, legitimando suas decisões. Quando o Brasil organizou um dos encontros, estiveram presentes mais de 60 entidades da sociedade civil.157

Dessas experiências podemos perceber a solidez do projeto, tanto de discussão quanto de deliberação do movimento antitabagismo, em nível local quanto global. A articulação entre instituições estatais e organizações da sociedade civil permite o entrosamento entre as instâncias discursivas e executivas. O tratamento da questão em nível mundial, através de uma estratégia de abordagem convergente, rivaliza, em termos da logística de organização, com a própria

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A presença das ONGs no processo de construção e aprovação da Convenção-Quadro é destacada no site do INCA: “O INCA está criando uma rede de relacionamentos com ONGs para fortalecer o processo de aprovação das medidas propostas pela Convenção-Quadro. Para tanto, o papel primordial das ONGs é estabelecer uma rede de coalizão e comunicação com as comunidades onde atuam, determinando linhas e padrões, trocando experiências técnicas, monitorando e expondo os abusos cometidos pelas indústrias de tabaco exercendo pressão sobre elas e os legisladores. A mobilização das ONGs para apoiar a Convenção- Quadro tem o potencial de catalisar o desenvolvimento e as negociações de cada ponto. As ONGs não só mobilizam vários setores da sociedade, mas multiplicam informações. Além disso, seu mandato pode ser para um tema específico. As frentes para o controle do tabagismo são abrangentes e envolvem várias áreas, tais como: saúde, educação, meio ambiente, legislação, economia, direitos humanos, com especial foco nos direitos da criança e da mulher, públicos-alvo preferidos pela indústria do tabaco”. Disponível em: <http://www.inca.gov.br/tabagismo>. Acesso em: 17/07/2003

estruturação das grandes empresas tabagistas, que são transnacionais. Tal forma de atuação dos movimentos antitabagismo determinou, em muito, os planos mercadológicos das companhias de cigarro, influindo, inclusive, na definição das suas estratégias discursivas.