A S C ONFIGURAÇÕES S OCIAIS DO M EDO
2.1. A A BORDAGEM C ONFIGURACIONAL DO M EDO DO C RIME
Em face das discussões teóricas empreendidas parece evidente que a relação entre crime e medo é extremamente complexa. O medo e o sentimento de insegurança não são medidas exatas da criminalidade e violência, ou seja, a insegurança não é um reflexo linear da realidade criminal. Segundo Cunha e Durão (2011), uma vez que os paradoxos da insegurança são múltiplos, assim como as hipóteses para a sua explicação e os estudos empíricos que os analisam, não teria qualquer sentido buscar relações ou mediações entre o risco real (estatisticamente calculado) e o medo do crime e sentimento de insegurança. Para as autoras, tal confronto não seria mais do que uma abstração ingênua e descolada da realidade social. Antes, postulam, seria muito mais profícuo tentar captar o sentido que adquire dentro das diferentes categorias e contextos sociais.
Isso, pois, além de ser constituída por ações, a violência também elabora sentidos e práticas a partir de suas representações. Se de um lado, a experiência do crime não é idêntica para diferentes cidadãos, seja enquanto dimensão subjetiva ou objetiva, de outro lado, outras experiências, mesmo que semelhantes, adquirem sentidos distintos de acordo com o perfil dos indivíduos. O medo, ainda que generalizado entre os diferentes grupos sociais, é alimentado a partir de diferentes experiências e contextos nos quais os sujeitos estão envolvidos. Nesse sentido, não pode ser explicado apenas em termos de fatores quantificáveis, ou seja, através de análises estatísticas que buscam mensurar de que forma diferentes variáveis interferem no medo e sentimento de insegurança, buscando assim estabelecer relações de causalidade. Por maior que fosse o número de relações que se pudesse estabelecer, elas não poderiam, por si mesmas, levar a um entendimento claro do medo do crime nos diferentes contextos sociais e o modo como afeta a vida das pessoas nesses contextos. Para Rêgo e Fernandes (2012) “o crime é alvo de uma construção social, cujo produto será, entre outros, o sentimento de insegurança. Mas o medo do crime é também relacional – ele vive nas e das relações sociais - e, nesse sentido, pertence ao campo das subjetividades” (p.51/52).
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Oliveira (2003) também enfatiza a importância da dimensão subjetiva ao afirmar que os atores agem e se comportam de acordo com suas percepções e concepções sobre as coisas. Afirma que:
assim sendo, mesmo que o sentimento de insegurança não corresponda diretamente à experiência vivida pelas pessoas, o comportamento e a ação delas são moldadas por aquele sentimento. É isto o que importa nas relações sociais e também para os cientistas sociais, cuja tarefa não é desqualificar as representações sociais dos atores, mas compreendê- las, como ensinou o autor de Economia e Sociedade (p.245).
Nesse sentido, para estudar o medo do crime é necessário entender o que os indivíduos acreditam, percebem ou associam à criminalidade e ao perigo (Borges, 2011). Essa ideia remete para a definição do sentimento de insegurança como expressão de uma representação social do meio, ou como argumenta Machado (2004), como “um posicionamento interpretativo face à realidade criminal, discurso produtor de significados sobre o crime e a desordem” (p. 129).
Magrini (2011) considera que a insegurança urbana incorpora as representações ligadas ao crime e aos diversos delitos dentro de uma trama de sentido maior. Reconhece- se, assim, a existência de processos próprios de percepção de insegurança, que, embora, sejam experimentados individualmente, são construídos socialmente e compartilhados culturalmente, o que implica dizer que não ela não é homogênea. Dito de outra forma, as representações sociais, embora resultado da experiência individual, são condicionadas pelo tipo de inserção social dos indivíduos que a produzem, expressam visões do mundo concreto buscando explicar e dar sentido aos fenômenos, ao mesmo tempo em que, participam da constituição desses mesmos fenômenos. De modo prático, apresentam-se como máximas orientadoras dos modos de agir. Porto (2009) entende que essa perspectiva de análise possibilita “privilegiar a subjetividade das representações sabendo, no entanto, que elas só se constroem em relação a um dado contexto ou ambiente objetivamente dado, já que os sentidos não podem ser compreendidos independentemente do campo social no qual se inserem” (p.802).
Assim, como a violência se manifesta de forma distinta nos diferentes contextos e espaços sociais, o medo e a sensação de insegurança, também se expressam de modo distinto. Cada grupo social externaliza o medo de diferentes formas, elabora crenças e
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representações diferenciadas sobre os perigos da cidade, sobre quem são os agressores, as vítimas e os lugares do medo (Borges, 2011). Podemos imaginar, por exemplo, as possíveis distinções entre as concepções de violência urbana para moradores dos bairros nobres e para os que habitam os bairros periféricos, bem como, os distintos objetos de medo e insegurança que assombram os moradores desses diferentes espaços urbanos. Cada um desses grupos sociais constrói suas representações sociais a partir dos contextos que vivencia. A partir desse entendimento, Porto (2006) afirma que: “as representações sociais são passíveis de distinções, em função dos múltiplos pertencimentos socioeconômicos e culturais nos quais os indivíduos e/ou grupos de indivíduos se inserem” (p.263).
Todavia, essas representações são formadas a partir de diversas lógicas culturais, sociais e situacionais. O medo do crime é fruto de múltiplos processos, resulta das relações sociais, das condições de vida dos indivíduos e da forma concreta como se expressa nos diferentes espaços. Sendo assim, para se compreender esse fenômeno e as suas particularidades é necessário entender os fatores que influenciam na sua ocorrência, bem como o modo como se articulam em diferentes contextos e realidades sociais, ou seja, é necessário compreender as diferentes configurações sociais do medo e o tipo de representações que delas emergem.
Assim, estamos propondo uma nova perspectiva de análise do medo do crime: a abordagem con(figuracional) do medo. Para tanto, conceitos e concepções teórico- metodológicas de Norbert Elias serão utilizados como ferramentas analíticas visando à compreensão da dinâmica social em questão, especialmente o conceito de “figuração social” desenvolvido pelo sociólogo alemão. Diante de tais considerações, entendemos que a investigação das configurações sociais do medo do crime passa necessariamente pela análise da produção de significados ou “crenças do perigo” (Borges, 2011) que as pessoas constroem sobre o espaço habitado, os perigos, a criminalidade, a confiança nas instituições responsáveis por garantir a segurança, a vulnerabilidade, etc., através dos processos sociais e culturais presentes nas “teias configuracionais” formadas nos diferentes contextos. De acordo com Elias (2000), essas atitudes e crenças reveladas pelos indivíduos não são, contudo, a expressão de ideias formadas isoladamente, por cada um dos indivíduos, mas antes, compõem as crenças e atitudes comuns compartilhadas em um dado
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contexto no qual os indivíduos se inserem e mantidas por diferentes formas de controle social e auto coerção.