Contrariamente aos estudiosos da comunicação digital que utilizam em suas análises adaptações de paradigmas das teorias de comunicação de massa, concordo com as ideias que consideram que a comunicação contemporânea - hipertextual, imersiva, interativa e colaborativa - não pode ser compreendida dentro de um quadro teórico elaborado para explicar a comunicação de massa.
Nesse sentido, opto pela adoção de novas categorias, conceitos e metodologias.
Nesta pesquisa, identifiquei a necessidade de abordar os fenômenos ligados à comunicação digital enfatizando a perspectiva da dinâmica e do processo, conforme a teoria ator-rede de Bruno Latour et al., que defendem a necessidade de uma análise sociológica ampliada ao tratar a sociedade não como uma reunião de indivíduos, mas como associações dinâmicas das quais fazem parte actantes humanos, culturais, tecnológicos e naturais, diferentemente do que faz a sociologia clássica, focada exclusivamente na ação dos actantes humanos.
O que constatamos a partir de uma reflexão articulada entre a teoria e a prática é que a incorporação intensiva de tecnologias digitais de comunicação e informação nos processos de ensino e aprendizagem favorece a oferta de cursos de
qualidade e amplia a possibilidade de acesso aos mesmos em função da flexibilização das dimensões tempo e espaço. Com isso, restringe-se a necessidade de encontros presenciais para aulas expositivas, priorizando aqueles principalmente para atividades de laboratório, realização de provas e exercícios de fixação da aprendizagem.
A comunicação digital cria condições para que os atores estabeleçam novas formas de relacionamento, de interação, de participação e de colaboração. Como resultado, é constituído um cenário intricado de atores (humanos e não humanos como objetos, tecnologia e o próprio ambiente virtual de aprendizagem) que se relacionam por meio da comunicação no sentido estrito do termo, seja ela oral, verbal, icônica, sonora, ou no sentido lato, como se pode deduzir das noções de mediação e mediadores, entre outras, discutidas no capítulo dedicado à TAR.
Do lado da aprendizagem, entende-se que a tecnologia associada à educação formal implica não só acréscimos informacionais, mas, principalmente, em modificações na estrutura cognitiva do sujeito. Quando o aluno deixa de lado o papel passivo de receptor da informação, acaba por assumir papéis desafiadores que incluem a seleção de temas nos quais poderá se aprofundar (em função de seu perfil e de seus interesses) até a produção e a disponibilização de conteúdos, sem mencionar atividades ligadas à socialização e interação com seus pares. Nesse cenário, ele tem a chance de entender como aprende (metacognição) e de aprender a aprender (meta-aprendizagem). Se habilidades como essas são adquiridas, o aprendizado se torna um valor e uma necessidade para toda a vida e o aprendiz se torna um sujeito ‗empoderado‘.
Se o aprendiz tem um horizonte amplo de possibilidades de atuação, favorecido pela situação tecnológica, os professores e a instituição não são menos afetados. Ao contrário do que muitos têm propalado, ao professor de hoje não cabe apenas a condução dos percursos de aprendizagem do estudante e o papel de mediador, com a desculpa de que todo o conhecimento está disponível na rede.
Dele, a sociedade continua a demandar que ensine aos alunos conteúdos específicos, valorizando e transmitindo a herança científica, artística e tecnológica acumulada pela humanidade. Tanto do professor quanto da instituição, a
sociedade espera que façam valer a autoridade, não a que se baseia em atos autoritários, mas aquela adquirida com base em suas credenciais de formação e capacitação para o ensino, legitimadas pelo próprio aluno e pelo coletivo.
O desafio que o modelo pedagógico predominante enfrenta hoje tem equivalências com o desafio colocado ao modelo dos meios de massa. A comunicação digital, os dispositivos móveis e as redes sociais romperam definitivamente com o modelo um-muitos, característico do sistema broadcast, e diluíram as fronteiras entre os polos da produção, da distribuição e do consumo.
Como exposto na seção 2.5, novos modelos de educação online apresentam características que criam ressonâncias no modelo da comunicação digital em rede.
Nos dois primeiros capítulos procurei discutir aspectos de temas macro como educação a distância, educação semipresencial, comunicação digital e novas teorias do conhecimento e da aprendizagem, como forma de situar o leitor na problemática desta tese relativa à controvérsias em um curso a distância. A diversidade de temas pode ser entendida como um pequeno exemplo da complexidade de cursos a distância e semipresenciais. Esta, a complexidade, é o assunto tratado no próximo capítulo.
3 A complexidade da educação a distância: uma leitura da modalidade sob a ótica da Epistemologia da Complexidade, de Edgar Morin
[...] a partir do momento em que uma ação entra em um determinado ambiente,ela escapa davontade e da intenção daquele que a criou,entra em um conjunto de interações e múltiplos feedbacks e então ela irá encontrar-sederivada, desuas finalidades, e às vezes poderá até mesmo ir nosentidooposto.26 (MORIN, 2008, p. 21, tradução da autora)
Neste capítulo discuto aspectos relativos à complexidade como formulada por Edgar Morin com o objetivo de superar o senso comum a respeito da complexidade da educação a distância e semipresencial e, especialmente, a respeito de controvérsias tais como as encontradas no fórum geral do CLC da USP. Minha expectativa ao eleger a Epistemologia da Complexidade como um dos referenciais teóricos desta tese era ser capaz de fazer um diagnóstico e apresentar uma interpretação adequada de situações de conflito como as vivenciadas no CLC.
Para cumprir parte deste objetivo (já que também recorri à Teoria Ator-Rede para tanto), apresento algumas acepções do termo complexidade, resgato sua origem e destaco quatro princípios ou conceitos da Epistemologia da Complexidade de Morin que auxiliam no entendimento acerca de conflitos, a saber, princípio da disjunção e da simplificação; recursividade; determinismo, imprinting cultural e normalização; e dialógica cultural.
Outros pontos tratados neste capítulo relacionam-se ao conceito de sistema, que pode ser vinculado à concepção de Moore sobre a educação a distância enquanto sistema, já apresentada no primeiro capítulo; e à discussão sobre o fim da dicotomia sujeito-objeto, tema que será aprofundado no próximo capítulo sob a perspectiva da Teoria Ator-Rede. Concluo o capítulo fazendo a associação entre complexidade e a educação a distância.
3.1 Sentidos da complexidade
26 [...]from the moment an action enters a given environment, it escapes from the will and intention of that which created it, it enters a set of interactions and multiple feedbacks and then it will find itself derived from its finalities, and sometimes to even go in the opposite sense. Esta citação expressa o que Morin chama de princípio da ecologia da ação, um dos princípios centrais do pensamento complexo.