4. COMUNICAÇÃO E DESENVOLVIMENTO
4.6. A Abordagem dos Frames Comunicativos
Fogel (1993) defende que a co-regulação e a auto-organização dos sistemas de comunicação resultam das ações dos participantes e que esses processos manifestam uma regularidade e ordenação. Tal crença sugere que existem regras subjacentes ao desempenho das ações constituintes de um sistema de comunicação. Todavia, na verdade, em sua opinião, tais regras não existem e não guiam o comportamento. Elas são inferidas por observadores, pois são metáforas convenientes que os ajudam a descrever ou nivelar regularidades. Uma vez que elas são inferidas por um observador participante elas podem servir como um componente que orienta a compreensão do sistema, mas nunca poder ser a explicação definitiva para as ações. Além disso, ele observa que, o foco apenas nas ‘regras’ aparentes como uma explicação para a atividade pode limitar à atenção nas regularidades. Ao invés disso, uma compreensão completa da comunicação e do seu desenvolvimento requer ter-se em mente tanto as regularidades quanto às variações.
Partindo dessas idéias, Fogel et al (1997 apud PANTOJA, 2001, p. 2) descreveu um processo de negociação e emergência de um acordo presente nas situações de comunicação utilizando-se do conceito de frame. Segundo esse conceito, 'frames' são segmentos de ações mutuamente coordenadas que tem um tema, uma localização específica e envolve uma forma particular de orientação mútua entre os participantes’. Na aplicação desse conceito ele destaca quatro constituintes de um frame que compõe as situações comunicativas de mãe- bebê: 1) a direção da atenção, 2) a localização espacial, 3) a orientação da postura corporal e 4) a questão tópica discursiva. Todavia, o mais importante na identificação de um frame é ‘ a coerência que emana da influência mútua que os vários constituintes têm uns com os outros’ (itálico do original)
Segundo Fogel (1993), para que se inicie qualquer interação faz-se necessário uma negociação com relação a um frame, pois, em situações naturais, os indivíduos freqüentemente expressam movimentos que anunciam a sua intenção apenas parcialmente. Por exemplo, ao tentar sair de uma festa, pode-se encerrar com uma bebida, vestir a jaqueta e caminhar lentamente em direção a porta. Por outro lado nenhum desses movimentos expressa claramente por ele mesmo a intenção de sair. Ou, dito de outra forma, ele observa que a imprecisão na explicitação da ação incide na abertura para uma negociação co- regulada sobre cada frame.
4.6.1. Uma Tipologia de Frame
Pantoja (1996) também se utiliza dessa qualidade operacional do conceito de frame no desenvolvimento da comunicação entre mãe-e bebê e explora empiricamente as negociações no interior dos diferentes tipos de frame, procurando se aproximar da variabilidade na composição das ações co-reguladas investigando-a no menor tempo analítico (microgenético). Nessa pesquisa a autora procurou definições plausíveis de componentes que caracterizam as transições e as fronteiras dinâmicas entre diferentes frames. Para isso, ela propôs uma tipologia de frame com vistas numa linha de integração entre os sistemas de comunicação denominados de ‘face-a-face’ e aquele ‘mediado por objetos’.
Pantoja (1996) recupera construtivamente nos seus dados quatro tipos de frame comunicativos vividos pela díade, mãe-bebê: Frame social, frame dirigido por objeto, frame não dirigido por objeto e frame misto. O frame social é composto por co-orientações no sentido de uma aparência das ações mútuas que não são mediadas por objetos, tais como, por exemplo, sorrisos e gargalhadas, contato com o olhar, e a orientação da postura da interação
face-a-face. Frame dirigido por objeto é composto por mútuas orientações visuais, de posturas e manuais, na direção de um objeto. Por exemplo, as mães apresentam uma qualidade do brinquedo, balançando-o, apertando-o ou mostrando-o, apoiando o brinquedo ou a postura do bebê para facilitar o olhar do bebê para o brinquedo, ou para tocá-lo, manipulá-lo etc. O frame não dirigido por objeto também é composto por orientações mútuas visuais, de postura e manuais na direção de um objeto, entretanto a mãe não tem uma participação ativa se o bebê olha, pega ou manipula esse objeto. Nesse frame, a mãe não toca ou manipula o objeto embora a sua atenção esteja no bebê, podendo ela falar para ele sobre o objeto ou melhorar a sua postura com relação ao objeto. E por último, o frame misto é caracterizado pela orientação mútua nas duas condições. Nesse caso, essa orientação é mediada por objetos. Por exemplo, ele indica ações mútuas nos jogos da interação face-a- face, tais como, sorrisos e gargalhadas, olhar mútuo e postura de interação face-a-face. O frame misto inclui principalmente os toques físicos da interação face-a-face que ocorrem, por exemplo, quando a mãe toca o corpo da criança com um objeto como parte de brincadeiras que envolvem o corpo.
Na sua pesquisa, Pantoja (1996, p. 34) traduziu a transição entre frames como um processo contínuo de co-atividade da díade, expresso numa série de pequenas mudanças. A transição podia ser vista, quando um padrão de mudanças regular, observada no frame, fora alterado. Por exemplo, durante um frame dirigido por objeto, à mãe apertava um brinquedo de diferentes formas no campo de alcance visual do bebê, enquanto o bebê olhava para o objeto. Essas formas distintas de apertar o brinquedo, assim como a forma como o bebê observava, faziam parte da estabilidade dinâmica do frame. Posteriormente, o bebê começava a mover as pernas na direção do brinquedo e a mãe parava de apertá-lo. Dessa forma identificava-se uma mudança no padrão anterior da dinâmica do frame. Dando seqüência a essa descrição, o bebê segurava o brinquedo e a mãe parava definitivamente de
apertar o brinquedo e passava a observar o bebê que manipulava o brinquedo. Nesse momento outra organização no padrão de ações pode ser observada. Trava-se, portanto de um outro tipo de frame, o não dirigido por objeto. Nessa conduta analítica, a transição não foi compreendida apenas pelo reconhecimento dos dois padrões de organização das ações que diferenciavam um frame do outro, mas por uma sucessão de variação nas ações.
A elaboração desse capítulo objetivou situar os processos comunicativos como o terreno potencialmente fértil, que se deve estrategicamente preferir quando se busca explicar o desenvolvimento humano. Essa perspectiva foi fundamentada na observação de que convergem para o desenvolvimento da comunicação aqueles processos que revelam a dimensão de mútua constituição que se traduz na relação entre o organismo e o ambiente (físico e social).
No que diz respeito à organização das informações nesse capítulo, tinha-se em mente a menção das diferentes trajetórias que as pesquisas voltadas para o desenvolvimento da comunicação no começo da vida trilham. Resume-se que, reforçando essa concepção da comunicação como expressão de desenvolvimento, a maioria das pesquisas aqui mencionadas, destacou o caráter social da comunicação mãe-bebê, abordando fenômenos que denunciam o desenvolvimento do bebê relacionando-os diretamente a sua interação com que lhes prestam os primeiros cuidados. Todavia, a direção das informações aqui colocadas procurou demonstrar a evolução de diferentes abordagens metodológicas a qual culminou com uma avaliação do significado dessa heterogeneidade. Dentre as posições apresentadas, chama-se à atenção para aquelas pesquisas que mais se aproximaram do que foi definitivamente defendido como princípios da teoria dos SsDs, descritos mais
exaustivamente em secções anteriores do presente. Tal posição foi destacada aqui através dos trabalhos de Lyra e Rossetti-Ferreira, (1995), Lyra e Winegar, (1997), Lyra e Chaves, (2003) e Lyra e Souza (2003). A razão pela qual se pede a atenção para referido conjunto de
pesquisas é por tratar-se esse como a perspectiva do maior interesse do presente trabalho. Isto é, o presente trabalho empenha-se no aprofundamento das principais idéias que resultaram dessas pesquisas. Considerando o já descrito acerca dessas pesquisas, investe-se de forma prioritária para o presente estudo, no desenvolvimento da comunicação face-a-face. Essa decisão reflete a ausência de uma concentração maior nesse fenômeno nas pesquisas anteriormente realizadas por Lyra e Rossetti-Ferreira (1995), Lyra e Winegar (1997), Lyra e Chaves (2003) e Lyra e Souza (2003). De forma diferente, o que se pode observar é que essas pesquisas têm destinado um interesse maior pelas interações mãe-bebê mediada por objetos, mais precisamente, aquelas caracterizadas como trocas do dar e pegar. Posto esses esclarecimentos, apresenta-se a seguir o relatório de uma pesquisa acerca do desenvolvimento da comunicação mãe-bebê face-a-face realizada com base nos conteúdos defendidos até agora.