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A ABORDAGEM “ES TABELECIDOS E OUTSIDERS” DE ELIAS E

Enquanto o processo civilizador marcava sua Sociologia Figuracional por uma abordagem de longa duração, introduzindo o tempo como uma variante para compor os processos que constroem as relações entre o poder, as emoções, os comportamentos e o habitus, Elias desenvolveu o modelo chamado configuração estabelecido-outsider (Elias e Scotson, 2000) numa tentativa de colocar as fundações para uma teoria mais geral e que pudesse ser capaz de esclarecer os aspectos comuns de classe, etnia-racial, desigualdades de gênero e outros tipos de desigualdades.

Esse estudo de Elias e Scotson, Os estabelecidos e os outsiders, publicado em 1965, reflete dados de uma experiência de três anos de trabalho de campo no final da década de 50, sobre uma comunidade urbana dos arredores de Londres, de aproximadamente cinco mil habitantes, com o nome fictício de Winston Parva. Os

autores queriam investigar como a comunidade funcionava em seus diferentes setores e por que daquela forma existiam as tensões na comunidade. Utilizaram então diferentes dados, tais como; “estatísticas oficiais, relatórios governamentais, documentos jurídicos e jornalísticos, entrevistas e, principalmente, observação participante”, com o objetivo de compreender os princípios da diferenciação social que dividiam os moradores do povoado (ELIAS e SCOTSON, 2000, p. 9).

Segundo os pesquisadores, o que fazia desse um caso exemplar era o fato de que, segundo os indicadores sociológicos usuais (como renda, educação, ocupação etc.), a comunidade era tida como relativamente homogênea, mas apresentava, em seu interior, uma clara divisão: um grupo morava no local desde longa data (estabelecidos) e outro grupo havia chegado depois (outsiders). Portanto, a distinção se fazia por um princípio de antiguidade, e, entre ambos os grupos, estabelecia-se uma relação, ao mesmo tempo, de complementaridade e conflito. A rejeição entre eles era um elemento essencial na definição da identidade de cada um: o status superior dos estabelecidos e o status inferior dos outsiders (NEIBURG, 2001).

Como a transmissão de conhecimentos é construída pela passagem de geração em geração, sem a seleção politicamente correta, em Winston Parva essa transmissão também ocorreu com os preconceitos e atitudes discriminatórias. Os membros do grupo estabelecidos, desde crianças, passam a acreditar no status superior, sendo influenciados pela experiência dos pais e sua autoconfiança, visto que a criança é moldada pelos atributos do grupo a que pertence. Sob efeitos da herança sociológica, a criança do grupo outsider é acompanhada de ressentimento pela rejeição sofrida pelos seus pais (ELIAS e SCOTSON, 2000).

Assim, nessa pequena comunidade, observou-se a situação de tensão Estabelecidos-Outsiders, ou seja, o grupo estabelecido atribuía a seus membros características humanas superiores, excluindo todos os membros do outro grupo do contato social (não lhes dirigiam a palavra e excluíam-nos dos cargos de poder das associações locais), à medida que o controle social era mantido por meio de fofocas elogiosas e/ou depreciativas (ELIAS e SCOTSON, 2000).

Portanto, o que os pesquisadores demonstram é que os grupos sociais e bairros estudados nessa comunidade formam uma configuração e que, por isso, os indivíduos que as compõem são coagidos. O modo como uma criança recém-nascida se desenvolve e suas características se cristalizam são constituintes da relação dela com as outras

pessoas. Nada está traçado, mas depende da evolução histórica do padrão social, da estrutura das relações humanas (ELIAS, 1994a).

Os indivíduos pertencem a uma configuração em que as relações estão estabelecidas exercendo influências sobre eles. Assim, a auto-imagem de uma criança dessa comunidade passa a ser moldada e formada nessa relação, que também depende da estrutura da sociedade em que ela cresce, do grupo a que pertence.

O estudo traz ainda considerações mais sobre a exclusão. Um grupo outsider somente é tolerado enquanto seus membros permanecem no nível em que se encontram, os níveis inferiores. Nestes níveis que pertencem aos desprezados e estigmatizados, resta-lhes serem subordinados e submissos em seus comportamentos. “Os grupos estabelecidos forjam sua imagem do ‘nós’ sobre o modelo da minoria dos melhores e uma imagem do ‘eles’, a dos outsiders desprezados, sobre o modelo da minoria dos piores” (ELIAS, 2001, p.138).

A relação entre os dois grupos se dá nas relações de interdependência. Um grupo de estabelecidos só consegue se manter porque existe um grupo outsider e vice-versa. A rede de relações existentes entre as pessoas é o que as define no grupo a que pertencem e sua manutenção é decorrente de seu papel assumido no grupo. Quando numa comunidade ou num grupo social ocorre a exclusão é porque entre seus membros há uma identificação do excluído de sua porção pior (ELIAS e SCOTSON, 2000).

Sob muitos aspectos, configurações como as estudadas em Winston Parva exercem certo grau de coerção sobre os indivíduos que a compõem. Nesse sentido, as configurações que os indivíduos formam entre si exercem algum poder sobre eles e restringem sua liberdade no âmbito das decisões como resultado de sua interdependência. No caso Winston Parva, os membros de um grupo inflamavam os membros do outro grupo não por suas qualidades individuais, mas devido à sua vinculação a um grupo, julgado pelos estabelecidos, coletivamente, diferente do seu e, portanto, inferior.

É por essas influências que a auto-imagem de uma criança desta comunidade passa a ser moldada e formada. As ações humanas, que são construídas como resultado de uma sociedade, compartilham uma tradição e repercutem para todos que dela fazem parte, como uma das formas da história coletiva se cristalizar na sociedade (ELIAS, 1994).

Na figuração estabelecidos-outsiders de Elias e Scotson (2000), a relação central se dá no equilíbrio instável de poder. A influência de um grupo sobre outro grupo

acontece quando um deles está bem posicionado nas relações de poder e o outro delas é excluído das mesmas. Para os outsiders, neste estudo, os excluídos da comunidade, são construídas barreiras atitudinais pelos estabelecidos e com o passar do tempo os outsiders assumem para si o rótulo, o status que lhes é designado.

Nesse sentido, quando um grupo outsider socialmente inferior, desprezado e estigmatizado, percebe-se pronto para exigir sua igualdade legal e também social, a tensão entre os grupos, que está sempre presente, intensifica-se. Isso ocorre porque o grupo outsider aspira elevar sua posição social. E o que antes era natural para os estabelecidos como o sentimento de orgulho de si próprios e dos seus membros passa a ser intimidado. As relações de poder aproximam-se e o grupo dos estabelecidos torna-se ameaçado “pelo fato de que os membros de um grupo outsider, na verdade, desprezado reivindicam não apenas uma igualdade social, mas também uma igualdade humana”

(ELIAS, 2001, p. 136).

Assim, a grande contribuição de Elias e Scotson para esta pesquisa está não só no empirismo de sua sociologia, mas na concepção interacionista-simbólica (grupo-indivíduo) que têm das relações sociais. Este estudo trata de atletas com deficiência e conexões possíveis com a abordagem estabelecidos-outsiders de Elias e Scotson. Para tanto é preciso pensar a construção/produção social da deficiência associada a diferentes idéias como: doença, anormalidade, patologia, norma, desvio, diferença, estigma, ambivalência, expectativa e diversidade. Enfim, idéias, conceitos que se sofisticam cada vez mais na interação verbal e não verbal, num movimento contínuo.