10 CONSIDERAÇÕES FINAIS
2.1 A ABORDAGEM ETNOGRÁFICA MULTI-SITUADA E VIRTUAL
Ao observar o que comenta González de Gómez (2000) acerca da aproximação e das influências das Ciências Sociais na Ciência da Informação (CI) em relação à sua trajetória epistemológica, verifica-se, por exemplo, o delineamento de uma linha de investigação traçada em torno de uma produção de conhecimento de caráter semântico-discursiva. Para essa linha têm contribuído, sobretudo, os métodos e as técnicas de ciências como a Antropologia e a Linguística, uma vez que permitem ao pesquisador coletar e analisar evidências em direção à compreensão do modo como as pessoas elaboram, atribuem significado e reconhecem algo como informação, o que se dá no contexto das práticas e das interações diárias com o outro. Ao buscar uma relação mais precisamente entre a CI e a Antropologia em sua articulação e na produção de saberes, fiz a escolha pela aplicação da
pesquisa etnográfica em meu trabalho, a fim de conhecer e de compreender a experiência de pessoas que estão ou que estiveram estudando no Brasil entre 2010 e 2016.
Inserida em um conjunto de práticas de pesquisa nas Ciências Sociais e de influência fenomenológica – em que podemos incluir mais recentemente a CI, tal como sugere Capurro (2007) pelo paradigma social emergente –, a pesquisa etnográfica está na base da produção do conhecimento antropológico, disseminando-se, porém, para outros campos disciplinares a partir dos anos de 1960. Conforme Chizzotti (2010), etnografia vem do grego ethnos (estrangeiro, bárbaro) e graphein (descrever, escrever), tornando-se o método científico para descrever o modo de vida de uma pessoa ou das populações humanas. Sob um processo que De Sardan (1995) se refere como “antropologização” das Ciências Sociais, ou seja, do modo como diferentes disciplinas a exemplo da Sociologia, da Educação e da Psicologia têm se apropriado da etnografia, o instrumental teórico-metodológico que a sustenta, bem como a intenção que a orienta, vêm sofrendo mudanças na produção de sentido sobre os sujeitos no mundo contemporâneo, de maneira que os objetos de pesquisa não estão mais necessariamente vinculados ao conceito de cultura, aliás, tão caro à Antropologia.
Como estratégia de pesquisa de base fenomenológica, a etnografia conduz o pesquisador a olhar a ação humana no cotidiano, trabalhando a coleta de evidências por meio de técnicas aplicadas a pequenos grupos de pessoas, uma vez que seu objetivo não reside na mensuração dos fenômenos sociais, mas na compreensão das práticas, dos comportamentos, das crenças, dos valores, das interações sociais e dos significados que as pessoas atribuem ao que vivenciam. Assim, discorro sobre um tipo de pesquisa que se volta para a dimensão de subjetividade, procurando produzir um tipo de conhecimento sobre o modo como as pessoas constroem a realidade sobre a qual se movem. Um método pelo qual acredito ser possível entender as migrações para estudo como um tipo de experiência migratória, suas motivações, os sentidos dela para os estudantes, a produção de bens simbólicos como informações e conhecimentos que são compartilhados, colocados em movimento e ampliados nesse processo, passando tanto pelas redes digitais quando pelas interações cotidianas vividas dentro e fora das universidades. Procuro entender também, por esse tipo de pesquisa, o papel que as tecnologias de informação e comunicação (TIC) desempenham para os estudantes durante a condição de estar fisicamente distantes do país de origem, porém, virtualmente conectados a ele pela Internet e pelos meios que oferecem acesso às formas virtuais de sociabilidade, a exemplo do Facebook. Pela pesquisa etnográfica busquei entender, além disso, como os estudantes estrangeiros afetam e são afetados em suas relações interpessoais
com o outro, assim como a produção de diferença que pode resultar desse deslocamento para o Brasil, pelo qual entram em contato com outros modos de agir, pensar, sentir, viver e ser. Enfim, com outras subjetividades, informações, conhecimentos e afetos.
Pelas características gerais e heterogêneas das pessoas que pretendi conhecer, durante a elaboração do projeto, percebi que a pesquisa etnográfica em sua acepção tradicional e na forma como foi cientificamente aperfeiçoada por Bronislaw Malinowski19 nas primeiras décadas do século XX se mostrava insuficiente. Isto porque defini como sujeitos da minha pesquisa estudantes estrangeiros que, entre 2010 e 2016, frequentaram cursos de graduação ou de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) no Brasil. Pessoas de diferentes classes sociais, domínios disciplinares, línguas, idades, sexos e geograficamente dispersas, que vivem ou viviam um tipo particular de migração (voltada para estudo) como um fenômeno que se produz no amplo quadro de referência da mobilidade humana. Uma experiência na qual mais importante que a delimitação do campo – tal como se faz na etnografia tradicional – eram as pessoas em si, com o que elas agem, sentem, pensam, enfim, vivem. Além disso, paralelamente a esse movimento físico, percebi esses estudantes como protagonistas de outro tipo de movimento, de natureza simbólica, que se processa cada vez mais no mundo online, esse mundo representado pelas possibilidades interativas nas redes digitais, mormente a Internet. Esse outro movimento corresponde às trocas, ao compartilhamento de informações, conhecimentos, afetos e subjetividades que extrapolam as interações face a face do mundo offline. Tem-se, neste sentido, um tipo de mobilidade informacional e cognitiva que nas redes digitais ocorre na forma de fluxos, termo este que, de acordo com Hannerz (1997, p. 10), atualmente é “[...] transdisciplinar, um modo de fazer referência a coisas que não permanecem no seu lugar, a mobilidades e expansões variadas [...] em muitas direções”.
Mais do que uma etnografia ao modo tradicional da Antropologia, por se tratar de pessoas em movimento nos mundos offline e online, e, por envolver as informações e os conhecimentos que elas produzem, acessam e/ou compartilham em fluxos, senti a necessidade de utilizar esse tipo de pesquisa, mas, em outra expressão metodológica, a fim de que ela me permitisse construir um caminho para chegar aos estudantes migrantes e, desta maneira, conhecê-los em suas experiências no Brasil. Esse caminho foi viabilizado pelo modelo proposto pelo antropólogo da Rice University (Texas/EUA), George E. Marcus, chamado etnografia multi-situada ou etnografia multicampo, e o modelo desenvolvido pela bióloga e
19 Nascido na Cracóvia, Polônia, Bronislaw Kaspar Malinowski (1884-1942) sistematizou e aperfeiçoou o trabalho de campo como o método que, pela observação ciosa, fornece as bases da produção do conhecimento na pesquisa antropológica, uma contribuição que se deu a partir dos anos de imersão em comunidades da Melanésia, da Nova Guiné e da Austrália (DORTIER, 2010).
pesquisadora do departamento de Sociologia da University of Surrey (Guildford/Reino Unido), Christine Hine, chamado de etnografia virtual.
Tanto a etnografia multi-situada quanto a etnografia virtual são métodos que se aplicam aos estudos nas Ciências Humanas, Sociais e Aplicadas que lidam com a noção de movimento e de fluxo. Sobre a primeira, Falzon (2009) diz que, ao propô-la, Marcus busca romper com a convenção sobre a longa presença do pesquisador no campo e com a própria noção do campo, como algo fixo no lugar, corroborando o que pioneiramente ensinou Henri Lefebvre sobre a ideia de que o espaço é socialmente produzido pelas interrelações e pelas interações humanas. Em razão deste pressuposto, a etnografia multi-situada se volta para os fenômenos sociais que não podem ser estudados focando um único campo, uma vez que pessoas, ideias, objetos e informações estão em movimento, cabendo ao pesquisador segui-los por dois ou mais lugares (MARCUS, 1995; FALZON, 2009).
A etnografia virtual, por sua vez, considera a Internet não apenas como objeto de pesquisa, mas também como lugar de cultura. Entretanto, por sua intangibilidade, ela não pode ser definida em termos de fronteira como ocorre no mundo offline (HINE, 2004). Considerando que a cultura e a vida em comunidade não são produtos diretos do lugar, a etnografia também não pode ser, razão pela qual esse método precisa ser reformulado para lidar com a dinâmica, o fluxo e a mobilidade da vida nestes tempos de interações mediadas pelas redes digitais que ultrapassam a esfera do local, e, conforme o caso, adquirem proporções globais. Partindo do entendimento de Manuel Castells de que novas formas de relações sociais estão sendo construídas após o advento da Internet, Hine (2004) propõe que a etnografia se volte para os estudos dos espaços simbólicos, como os de fluxos de pessoas e de informações, estruturados mais em torno das conexões remotas do que lugares físicos, estes tradicionalmente bem delimitados pelo etnógrafo no desenho da pesquisa. Com efeito, em uma relação não exaustiva, Hine (2004) sugere a aplicação da etnografia virtual aos estudos sobre páginas Web, chats, lugares de trabalho que utilizam a Internet, grupos de notícias, portais, buscadores e muitos outros, dentre os quais se incluem pesquisas acadêmicas como esta, que lança um olhar sobre as comunidades virtuais de estudantes estrangeiros no Facebook.
Assim, como facetas novas do fazer etnográfico, as etnografias multi-situada e virtual surgem a partir de uma interpretação antropológica crítica sobre os desafios da pesquisa diante das transformações das sociedades contemporâneas no que se refere aos sistemas de comunicação online e à maior mobilidade física das pessoas. Nesse contexto, Luders (2004
citado por FLICK, 2009) destaca uma mudança na concepção e na prática etnográfica que tem se tornado cada vez mais extensiva, procurando ajustar-se às novas realidades socioculturais e tecnológicas para se chegar às pessoas, que, de outra forma, talvez não fosse possível. É assim que Hine (2004), em suas experiências de pesquisa no ambiente propiciado pelas TIC, verifica que esses recursos tecnológicos favoreceram o surgimento de um novo espaço, simbólico por natureza, a partir do qual o etnógrafo pode encontrar grupos humanos distintos em processos de interação social remota e, deste modo, fazer suas observações. É em razão disto que a diversidade das mídias sociais20 pode ser convertida em campo para o pesquisador, ou seja, em um espaço construído e delimitado a partir do qual se busca produzir interpretações sobre as pessoas em suas práticas cotidianas em comunidades virtuais, tais como as que existem no Facebook, em canais no YouTube e em blogs, por exemplo, que se referem tanto a experiências vividas no mundo offline quanto online.
Etnografar pessoas em suas práticas e interações no mundo offline e no mundo online gera implicações éticas e epistemológicas que não podem ser negligenciadas pelo pesquisador. Conforme registra Bezerra (2013) em estudo sobre a produção e o uso educativo de blogs pela comunidade acadêmica, no trabalho de campo em espaço físico ou simbólico é preciso que o etnógrafo assuma uma identidade diante das pessoas com as quais pretende dialogar, seja como pessoa de dentro (nativo) seja como pessoa de fora (estrangeiro) do grupo em estudo. Para a autora, nesse tipo de investigação é imprescindível que se faça também um exercício contínuo de aproximação e de estranhamento, pelo qual o pesquisador se perceba como sujeito da reflexão e da autorreflexão etnográfica, correspondendo àquilo que se convencionou chamar de reflexividade21. Assim, como estudante em doutoramento e docente em uma universidade, articulei-me nos mundos offline e online para produzir um texto
20 Martino (2014, p. 10), na obra Teoria das mídias sociais, explica com base no Dictionary of Media and Communication (2010) que esse conceito às vezes se intercambia com outros como “novas mídias” ou “novas tecnologias” para contrastar com os meios de comunicação de massa (leia-se: “mídias analógicas”), estes muito associados a uma base material. Assim, para ele, as mídias sociais se caracterizam por converterem “sons, imagens, letras e qualquer outro elemento” em sequências numéricas que são armazenadas e/ou compartilhadas com o auxílio da Internet, uma combinação que por meio dos computadores, celulares, smartphones, tablets e outros instrumentos tecnológicos de comunicação, permitem que pessoas em seu cotidiano sejam conectadas à Internet.
21 A ideia de reflexividade comporta em si reflexão e autorreflexão. Conforme Giddens e Sutton (2016), ela é um conceito recebido de forma controversa nas Ciências Sociais, pois, se de um lado permite que o pesquisador veja a si mesmo como ator social na pesquisa que conduz pela interação com outras pessoas, de outro lado tem-se o risco de que a reflexividade conduza “[...] a um processo interminável de reflexão sobre reflexão e interpretação sobre interpretação [...]”. Ainda assim, os autores consideram que “[...] uma dose de reflexividade pode ser muito saudável para pesquisadores que não têm por costume refletir sobre seus arraigados hábitos e práticas [...]” (GIDDENS; SUTTON, 2016, p. 66).
etnográfico que fosse capaz de refletir um conhecimento produzido a partir da experiência migratória dos estudantes estrangeiros no Brasil.
A vantagem da etnografia em relação às pessoas com e sobre as quais pesquisei é que ela possui um caráter inclusivo. Como método, ela não exclui homens ou mulheres tidos como destoantes em relação ao grupo estudado; ao contrário disto, os incorpora à observação para estabelecer relações, traçar paralelos, fazer comparações. Assim, no contato com a realidade dos estudantes estrangeiros no Brasil não se excluí o registro de outras experiências de estudo, como aquelas de migrantes, que, posteriormente, se tornaram estudantes, a exemplo de uma argentina e de um peruano contatados na pesquisa. Embora sejam poucas, essas pessoas me permitiram a construção de um mosaico mais rico e múltiplo sobre o sentido de estudar no Brasil.
Enquanto a etnografia virtual foi aplicada à observação das comunidades virtuais de estudantes estrangeiros no Facebook, o uso da etnografia multi-situada envolveu dois lugares distintos: Rio de Janeiro e Belém. Essas duas cidades brasileiras contrastam entre si de muitas formas, como em suas características demográficas e educacionais, por exemplo. Ocupando uma área de 1.199,828 m2 e com 451 anos de fundação, localizada na Região Sudeste, em contato com o Oceano Atlântico, o Rio de Janeiro é a segunda maior cidade do país em termos populacionais, com a estimativa de 2015 registrando 6.476,631 pessoas vivendo completamente em área urbana (IBGE, 2016b). Belém, por sua vez, ocupa uma área de 1.059,458 m2, tem 401 anos de fundação e está situada na Região Norte, de frente para a Baía do Guajará. A capital paraense é a 11ª cidade do país em termos populacionais, estimada em 2015 com 1.439,561 pessoas (IBGE, 2016a), das quais uma parcela de pouco mais de 11 mil habitantes vive em áreas rurais.
Em relação a ensino superior, a cidade do Rio de Janeiro conta com 107 Instituições de Ensino Superior (IES) cadastradas no MEC, enquanto Belém dispõe de 42 (INEP, 2016), diferença ampliada pelo grande número de instituições privadas que estão instaladas na primeira. Quando olhamos para o setor público, existem no Rio de Janeiro a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e, em Belém, a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e a Universidade do Estado do Pará (UEPA) (INEP, 2016). Dessas instituições, na avaliação do MEC de 2014, a UFRJ tem Conceito Institucional igual a 5, seguida pela UFPA com conceito 4. A UNIRIO e a UFRA possuem conceito 3, não havendo registro conceito para a UERJ e
para a UEPA. Independente dos conceitos e das diferenças que possuem quanto à oferta de vagas no ensino superior, infraestrutura e nível de produção científica e tecnológica, essas universidades possuem estudantes estrangeiros como parte do seu corpo discente. Isso significa dizer que o CI é mais um indicador de desempenho medido pelo MEC para subsidiar a política nacional referente ao ensino superior, e menos um critério a ser levado em consideração diante das alternativas de escolha dos estudantes migrantes.
2.2 CONSTRUINDO RELAÇÕES COM ESTUDANTES ESTRANGEIROS NOS