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A Abordagem Multidimensional da Pobreza e o Uso do IPH

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 97-101)

2 ASPECTOS TEÓRICOS

3.3 INDICADORES DE POBREZA USADOS NA TESE

3.3.4 A Abordagem Multidimensional da Pobreza e o Uso do IPH

Como visto no tópico 2, tomada a proposição de Boltvinik (1998), o IPH se qualifica para mensurar e mapear a pobreza. Além disso, tem o mérito de, diferentemente da linha monetária de pobreza, reunir diversas dimensões da mesma. Razão pela qual tratar-se-á um pouco mais desse índice, bem como das contribuições metodológicas feitas ao mesmo por Rolim (2005) e das adaptações necessárias para usar o IPH neste trabalho.

Como visto acima, o IPH é um índice usado para refletir todos os aspectos possíveis da pobreza, no menor número de variáveis, por isso chamado de indicador sintético. Neste sentido, mesmo a ONU, ao apresentar o IPH em seu Relatório do Desenvolvimento Humano de 1997, já chamava a atenção para o fato de que a pobreza humana é mais abrangente do que qualquer medida em particular, incluindo o IPH. Além disso, a ONU também considera que a natureza das privações varia de acordo com a realidade de cada país, a partir de seu contexto social. Dimensões críticas da pobreza humana – tais como falta de liberdade política, não participação nas decisões, falta de segurança pessoal etc. – estariam excluídas do IPH por esta razão.

Resumidamente, o IPH reflete a “privação” humana quanto à sobrevivência, o conhecimento e o padrão de vida. Com relação ao primeiro aspecto, a privação é representada pela possibilidade de morte prematura, indicada através da porcentagem de pessoas com expectativa de vida inferior a 40 anos. No tocante ao segundo, a privação corresponde ao analfabetismo e é indicada pela porcentagem de adultos analfabetos. O terceiro aspecto é representado pelo padrão de vida abaixo do aceitável e indicado por três componentes:

porcentagem de pessoas sem acesso a serviços de saúde, porcentagem de pessoas sem água potável e porcentagem de crianças desnutridas, abaixo de 5 anos.

O cálculo do IPH é representado na forma38

[ (

3 33

) ]

1/3

2 3

3 1

/

1 P P P

IPH= + + , sendo P13 a porcentagem de pessoas com expectativa de vida inferior a 40 anos; P23 a porcentagem de adultos analfabetos; e,

3

3 2

1 3 3

3 3 3

P P

P P + +

= , sendo P31a porcentagem de pessoas que não têm acesso a serviços de saúde; P32a porcentagem de pessoas sem água potável e P33a porcentagem de crianças desnutridas, abaixo de 5 anos.

O IPH aqui descrito é o IPH feito para os países em desenvolvimento, que também pode ser chamado IPH1. O outro IPH, ou IPH2, foi elaborado para os países ricos citados à nota do quadro 01 abaixo.

A diferença entre as duas formas de IPH, como discutido por Rolim (2005) diz respeito às realidades diferenciadas entre esses conjuntos de países e a base de dados, mais precária nos países em desenvolvimento. Tais diferenças podem ser discutidas a partir das componentes do IPH, como comparados no quadro 01 abaixo.

Quadro 01* – IDH, IPH1 e IPH2, componentes comparados Fonte: Reproduzido de Rolim (2005, p. 11).

Através das componentes mais diretamente relacionadas à pobreza, no tocante ao padrão de vida considerado no IPH1 ao invés de no IPH2 pode ser entendida da idéia de que,

38 Os detalhes da metodologia empregada na elaboração do IPH consta de PNUD (1997).

nos países em desenvolvimento, conforme Rolim (2005, p. 10), “a provisão de condições de vida vem em grande parte do setor público e que grande parte da renda é gasta em alimentos”.

O IPH apresentado no Relatório do Desenvolvimento Humano de 1997 diz respeito ao nível nacional.

Uma forma do IPH, que permite sua aplicação aos municípios, foi apresentada por Rolim (2005). O autor toma como exemplo o IDH-M, índice calculado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e pela Fundação João Pinheiro (FJP), no final da década de 1990, com apoio da representação do PNUD no Brasil. Esses índices em 2003, após aperfeiçoamento e atualização dos seus cálculos, foram publicados no Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil (PNUD et alli, 2003).

Para calcular o IDH-M, o IPEA e a FJP, em conjunto, adaptaram a metodologia do IDH para o âmbito territorial do município. Essa adaptação foi necessária, segundo Rolim (2005), devido, tanto à falta de informação de mesmo tipo nos diferentes níveis territoriais, quanto às diferenças verificadas entre as condições locais e as nacionais. Neste sentido, as variáveis mais agregadas foram substituídas por outras de caráter menos agregativo. Assim, o PIB foi substituído pela renda familiar per capita. Com relação à componente, a taxa bruta de matrícula combinada e taxa bruta de freqüência foram substituídas, respectivamente, pela taxa bruta de freqüência combinada e taxa líquida de freqüência.

Como citado anteriormente, considerando a formulação de um índice municipal a partir do índice nacional, Rolim (2005) sugere adaptar o IPH tornando-o IPH-M (municipal).

A formulação de Rolim (2005) adota como base de dados o PNUD et alli (2003). Na componente sobrevivência (variável P1) o autor substitui a probabilidade de pessoas com expectativa de vida inferior a 40 anos, por probabilidade de morrer antes dos 40 anos, calculada como 100-probabililidade de sobrevivência até os 40 anos, que é a variável disponível em PNUD et alli (2003). Da mesma forma, na componente conhecimento, a porcentagem de adultos analfabetos é substituída pela porcentagem de pessoas com mais de 25 anos analfabetas, sabendo-se que para o PNUD et alli (2003) são consideradas adultas as pessoas com mais de 24 anos. Com relação à carência, em termos de padrão de vida, a porcentagem de pessoas sem acesso à água potável é substituída pelo percentual de pessoas que vivem sem água encanada; e o percentual de crianças desnutridas, abaixo de 5 anos, é substituído pela mortalidade infantil até 5 anos. Nesse último caso, a adaptação é feita em termos de proxy. Como a informação de mortalidade de crianças até 5 anos é feita pelo PNUD

et alli (2003), para cada mil crianças, o autor usa do artifício de recalculá-la para cada cem, de modo a compatibilizar sua unidade com as das demais componentes do IPH adaptado.

Com essas adaptações, o IPH-M, à semelhança do IPH, continua sendo um índice de 0 a 100. As diferenças com relação ao IPH são apresentadas no quadro 02, reproduzido de Rolim (2005).

Na presente tese utiliza-se, para os municípios, os IPH-M calculados por Rolim (2005). Como dito anteriormente, porém, além do nível municipal, trabalha-se com agregados microrregionais.

O IPH para as microrregiões foram calculados, a exemplo de Rolim (2005), por adaptação do IPH. Neste caso, partiu-se do próprio IPH-M para construir aquilo que se chamou IPH-Mic, considerando que as características de maior abertura da economia, justificada por Rolim (2005), assemelham o nível microrregional mais ao agregado dos municípios do que a uma desagregação do nacional.

Quadro 02* – IPH1 e IPH-M, componentes comparados Fonte: Reproduzido de Rolim (2005, p. 13).

Uma vez que as informações do PNUD (2003) dizem respeito aos municípios, foram agregadas, a partir da base de dados do Micro dados da Amostra do Censo 2000 – que é a mesma fonte de dados de PNUD et elli (2003) – as populações totais, número de pessoas com mais de 25 anos e de crianças abaixo de cinco anos, dos municípios de cada microrregião de cada estado, para realizar o cálculo dos IPH-Mic.

Para o cálculo do IPH referente às microrregiões, foram somados os quantitativos de pessoas sob cada característica componente do IPH-M de todos os municípios de uma mesma microrregião. Em seguida, dividiu-se o resultado pelo total de pessoas da microrregião sob mesma faixa etária, para as componentes “probabilidade de morrer antes de 40 anos”,

“percentual de pessoas com 25 anos ou mais analfabetas” e “mortalidade até cinco anos de idade”.

No caso da componente “percentual de pessoas que vivem em domicílios sem água encanada” o somatório de pessoas com esse perfil, em cada microrregião, foi dividido pelo total da população da mesma. Finalmente, aplicou-se o cálculo do IPH-M para encontrar o IPH-Mic.

Cabe observar que os dados foram extraídos do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, do PNUD (2003), com exceção dos dados de população total, total de pessoas com idade igual ou superior a 25 anos e total de pessoas com idade inferior a cinco anos, por municípios, que foram extraídos dos micro dados do Censo 2000. Neste caso, o total de pessoas com idade inferior a cinco anos serve como proxy para o cálculo da mortalidade até cinco anos, por não abranger o total de filhos tidos, mas apenas o total de crianças vivas até aquela idade. Além disso, para ajuste à forma de cálculo do IPH-M, os resultados da mortalidade de crianças até cinco anos de idade foram divididos por 1039.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 97-101)