CAPÍTULO 2: METODOLOGIA
2.1.2. A abordagem qualitativa neste trabalho: como proceder?
O traço mais distintivo da fase atual da globalização é a comunicação eletrônica, a internet (KUMARAVADIVELU, 2006, p. 131).
Como já discutido, optar por uma pesquisa que se denomine qualitativa e, concomitantemente, esteja inserida na Linguística Aplicada não restringe o pesquisador ao uso de uma única metodologia ou de procedimentos metodológicos exclusivos da área. Inclusive, há que se distinguir entre metodologias e procedimentos metodológicos, uma vez que estes podem ser comuns a várias daquelas e até utilizados em combinação, ação que parece cada vez mais frequente dentro da LA e que será também adotada neste trabalho.
Gostaria de destacar que a presente pesquisa, em especial, embora não possa ser considerada estritamente como uma etnografia29, pois não utiliza todos os princípios fundamentais dessa, qualifica-se como estudo de cunho etnográfico por valer-se de alguns de seus procedimentos essenciais, como a presença do pesquisador por período
29 O conceito de etnografia (grego ethnós, -eos = raça, povo + -grafhé, -ês = escrita) consiste, basicamente,
no estudo do “outro”. Em estudos etnográficos, procura-se compreender o que indivíduos fazem em determinados ambientes e por que; bem como de que maneira eles próprios entendem suas ações. Duas perguntas essenciais sobre o campo são: O que está acontecendo aqui? e O que isso significa para os atores envolvidos?. Para aprofundamento ver Erickson (1984, 1989, 2001).
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considerável de tempo em campo, o interesse pelo que está acontecendo nesse e a valorização do ponto de vista dos atores envolvidos, entre outros.
Desta forma, acredito ser imprescindível mencionar que muitos de meus interesses de investigação foram suscitados por questões cuja discussão se torna inadiável com o crescimento vertiginoso das novas tecnologias digitais, como o computador e a Internet; o fato de eu mesma fazer parte de uma geração que cresceu praticamente toda já inserida no meio digital e, finalmente, por trabalhos30 que desenvolvi ao longo de minha graduação, também relacionados aos ambientes. Para Erickson (1984):
O trabalho de campo é fortemente indutivo, mas não há induções puras. O etnógrafo traz para o campo um ponto de vista teórico e um conjunto de questões, explícitas ou implícitas. A perspectiva e as questões podem mudar no campo, mas o pesquisador tem uma ideia base desde o início31
(ERICKSON, 1984, p. 1, minha tradução).
Ainda segundo este autor, o que caracteriza um estudo como etnográfico é, justamente, trazer os pontos de vista dos atores envolvidos nos eventos abordados (ERICKSON, 1984). No corpus desta pesquisa, a saber, enunciados do ambiente Orkut – que será melhor explicado na próxima seção – as pessoas costumam explicitar suas opiniões em fóruns, criar suas próprias comunidades, interagir com amigos, realizar práticas sociais e uma série de atividades voluntárias, nas quais suas “vozes” são evidenciadas.
Ademais, outras maneiras para “dar voz” a esses sujeitos são possíveis e plausíveis, como em minha própria interação com eles dentro das comunidades virtuais – às quais também sou associada –, quando solicito explicitação de seus pontos de vista ou formulo entrevistas virtuais,32 entre outras possibilidades.
30 Ver notas 4 e 8.
31 “Fieldwork is heavily inductive, but there are no pure inductions. The ethnographer brings to the field a
theoretical point of view and a set of questions, explicit or implicit. The perspective and questions may change in the field, but the researcher has an idea base to start from” (ERICKSON, 1984, p. 1).
32 Esse tipo de entrevista consiste em realizar comunicação com sujeitos de pesquisa por ferramentas
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De modo geral, as perguntas que orientaram minha entrada em campo e que nele me direcionaram são as fornecidas por Erickson (1989) em “Métodos cualitativos de investigación sobre la enseñanza” e transcritas abaixo:
1. O que está acontecendo aqui?
2. O que significam estas ações para os atores envolvidos?
3. Como estão organizados os acontecimentos em padrões de organização social e princípios culturalmente aprendidos para a condução da vida cotidiana? Em outras palavras, de que maneira as pessoas presentes se relacionam?
4. Como se relaciona o que está acontecendo neste contexto como totalidade (por exemplo, a aula) com o que acontece em outros níveis do sistema, fora e dentro dele (por exemplo, o estabelecimento escolar, a família de um dos alunos, o sistema escolar, as diretrizes do governo a respeito da adequação às normas)?
5. Como se comparam os modos em que está organizada a vida cotidiana nesse contexto com outros modos de organização da vida social em um espectro amplo de lugares distintos e de outros tempos?33 (ERICKSON,
1989, p. 200, minha tradução).
Embasada nessas orientações de Erickson e tencionando compreender o campo, a ação realizada foi a triangulação de procedimentos, em especial, a observação (algumas vezes participante), entrevistas virtuais (informais), gravação dos registros em Word, contato com orkuteiros por meio de seus perfis na rede, adicionando-os como “amigos” para, posteriormente, estabelecer conversas direcionadas às questões de pesquisa. Além disso, nessas conversas abriu-se espaço para que os sujeitos contassem suas experiências pessoais e discorressem sobre informações de qualquer natureza, caso desejassem, sobre as comunidades virtuais observadas. Vale ressaltar que, devido à grande quantidade de membros dessas, as entrevistas foram feitas somente com os criadores das comunidades selecionadas e com alguns de seus membros mais ativos, sendo que nem todos os solicitados a participar aderiram às propostas, totalizando um número de 8 sujeitos entrevistados.
33 “1. ¿ Qué está sucediendo, especificamente, en la acción social que tiene lugar en este contexto en
particular? 2. ¿ Qué significan estas acciones para los actores que participan en ellas, en el momento en que tuvieron lugar? 3. ¿Cómo están organizados los acontecimientos en patrones de organización social y princípios culturalmente aprendidos para la conducción de la vida cotidiana? En otras palavras, ¿de qué manera están consecuentemente presentes, unas para las otras, las personas que se encuentran em el lugar inmediato, en tanto médios para las acciones recíprocas significativas? 4. ¿Cómo se relaciona lo que está sucediendo en este contexto como totalidad (por ejemplo, el aula) con lo que sucede en otros niveles del sistema, fuera y dentro de el (por ejemplo, el estabelecimiento escolar, la família de uno de los alumnos, el sistema escolar, las directrices del gobierno respecto de la adecuación a las normas habituales)? 5. ¿Cómo se comparan los modos en que está organizada la vida cotidiana en este entorno con otros modos de organización de la vida social en un amplio espectro de lugares distintos y de otros tiempos?” (ERICKSON, 1989, p. 200).
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permanência longa em campo e notas sobre os registros. O contato prévio com o campo promoveu, então, algumas questões de pesquisa:
a) O que está acontecendo no meio digital: como se configura a questão da autoria nas comunidades do ambiente Orkut?
b) Como se dão as produções textuais: quais são os critérios usados para a correção das redações e o que podem revelar sobre a prática da escrita e quais as concepções de leitura e escrita dos atores envolvidos? Ou seja: o que seria uma boa escrita para os orkuteiros?
c) Quais as relações do on-line com o off-line: as comunidades virtuais do Orkut analisadas podem ser consideradas ambientes propícios ao ensino-aprendizagem e ao desenvolvimento da modalidade escrita?
2.2. Observando práticas de escrita em ambientes digitais: o Orkut como “porta de