CAPÍTULO III................................................................................................................. 105
3.3 Resultados e discussão: os rumos e contornos da acessibilidade no chão da UnB
3.3.2 A acessibilidade entre percursos: O Percurso 2 e o Percurso 3
O trajeto percorrido iniciou-se no Instituto de Biologia e finalizou no Bloco de Salas de Aula Norte que, por sua vez, está localizado ao lado do BAES. Para as referidas autoras, embora os edifícios mais antigos do campus estejam entremeados por avantajados espaços verdes que se sobressaem na sua parte central, onde se percebe uma organização coesa e integrada, além de uma estruturação urbana longitudinal proporcionada pelo ICC, a expansão da UnB – iniciada nos anos 2000, em virtude da Política de Expansão das Universidades Federais – contribuiu para que as novas edificações fossem construídas muito distantes umas das outras. Essas edificações, ao resultarem um conjunto de espaços desfavoráveis à mobilidade, acabaram por contribuir para a segregação socioespacial do pedestre (VASCONCELOS; PESCATORI, 2015).
Figura 25 - Percurso realizado no Campus Universitário Darcy Ribeiro
Fonte: Vasconcelos e Pescatori (2015).
Em estudo recente, Cardoso (2019), ao analisar as relações espaciais do campus a partir da Praça Central, corrobora com a análise de Vasconcelos e Pescatori (2015). Para ela, o modelo morfológico implantado nos últimos anos acabou por fortalecer a segregação socioespacial e, assim, dificultar as relações interpessoais de quem frequenta o campus. Segundo a análise desta autora, a predominância de áreas livres mal definidas e com grandes dimensões, além das edificações implantadas de forma isolada, as quais se encontram afastadas umas das outras, torna o espaço universitário pouco ou nada convidativo. Desse modo, as distâncias acabam por inibir a apropriação dos espaços. Outro problema identificado foi a ausência de manutenção na área observada: pisos rachados e desnivelados, grelhas de drenagem soltas, poucos postes de
iluminação, ausência de calçadas ou a conservação dessas estava comprometida (CARDOSO, 2019).
Cardoso (2019) pontua que o percurso entre a saída da BCE e a entrada do ICC Norte – o Percurso 2 desta pesquisa – é o terceiro local mais movimentado da Praça Central, destacando que nesse trajeto quase todos os pedestres preferiam caminhar pela ciclovia ao invés de usar a calçada, sobretudo por seu traçado rígido e ortogonal que, em contraste com o traçado sinuoso e orgânico da ciclovia, obrigava o pedestre a mudar de direção diversas vezes. Dentre os fatores de impedância observados, citam-se os muitos degraus existentes em alguns dos trechos que, ao apresentar um contraste com o caminho suavemente rampado da ciclovia, tornam a calçada um espaço menos convidativo, como pontua Gehl (2013). Para este autor, “[...] se tivermos que escolher entre uma rampa e uma escada, quase sempre vamos escolher as rampas [...]” (GEHL, 2013, p. 141). Diante das situações retratadas, as calçadas, com tantos degraus, tornam-se disfuncionais para as pessoas com deficiência; são elas, portanto, que portam déficits;
resultando na incapacidade imposta sobre as pessoas que possuem alguma lesão/impedimento ou mobilidade reduzida.
Figura 26 - Fatores de Impedância no Percurso 2: calçadas e degraus
Fonte: elaborada pela autora.
Assim, retornamos novamente a Gehl (2013) o qual descreve que um lugar considerado acessível deve necessariamente apresentar tanto elementos convidativos quanto facilitadores para a mobilidade de qualquer pessoa. Desse modo, às barreiras urbanísticas apontadas por Cardoso (2019), esta pesquisa, por sua vez, acrescenta a situação das faixas para a travessia de
pedestres que dão acesso à BCE (ver Figura 27 e Figura 28) e à Reitoria (ver Figura 29 e Figura 30). Nesse caso, a partir das paradas de ônibus, além das calçadas, que não estão adaptadas de acordo com o desenho universal, observa-se a ausência de rampa; ali, o pedestre precisa saltar o meio-fio para ter acesso à calçada. A situação se torna mais complexa para o pedestre que sai da parada de ônibus da BCE e atravessa a via pela faixa de pedestre. Além do entrave ocasionado pelo meio-fio, a ausência de calçada faz com que ele desvie para o acostamento, utilizado para a parada dos ônibus, ou caminhe pelo gramado.
Figura 27 - Faixa para a travessia de pedestres (BCE I)
Fonte: elaborada pela autora.
Figura 28 - Faixa para a travessia de pedestres (BCE II)
Fonte: elaborada pela autora.
Figura 29 - Faixa para a travessia de pedestres (Reitoria I)
Fonte: elaborada pela autora.
Figura 30 - Faixa para a travessia de pedestres (Reitoria II)
Fonte: elaborada pela autora.
Uma das respostas mais consolidadas do modelo social é a deficiência implicada na forma como a sociedade se organiza e não, necessariamente, na lesão/impedimento. Quando uma pessoa diz “[…] minha lesão é o fato de que eu não consiga andar, mas minha deficiência é o fato de a empresa de ônibus não ter transportes acessíveis […]” (MORRIS, 2001, p. 5), a limitação de se locomover é um impedimento de alguém que possui uma lesão de natureza física, ao passo que a impossibilidade de usar o transporte público se configura em uma incapacidade da política de mobilidade urbana em não acolher a demanda dos usuários de transporte coletivo. No mesmo sentido, o cego não é alguém que habita um corpo com impedimento físico, a limitação dele em se locomover por locais sem arquitetura acessível aos deficientes visuais configura uma deficiência na política de acessibilidade. O surdo não é alguém que habita um corpo com restrições auditivas, mas a incapacidade da sociedade em se comunicar em línguas de sinais é um déficit na política de educação. A limitação de se locomover de um cadeirante é um impedimento causado por uma lesão, ao passo que não poder entrar em um edifício porque a entrada consiste em uma série de degraus, configura o capacitismo na política de inclusão.
Figura 31 - E se esta praça fosse nossa?
Fonte: elaborada pela autora.
Cabe, portanto, destacar que um espaço para ser acessível deve necessariamente possuir elementos convidativos e facilitadores à mobilidade de todas as pessoas, tais como: o deslocamento com segurança e autonomia – que é a possibilidade ou a condição de se locomover de forma livre; o conforto; a orientação espacial – que é a possibilidade ou condição de compreensão do espaço a partir da sua configuração arquitetônica e da sua organização
funcional; e a existência de apoios e suportes informativos baseados na comunicação inclusiva – que é a possibilidade ou condição de troca e intercâmbio coletivo, que engloba a utilização de textos em braille, bem como o uso de Libras e outros meios de comunicação inclusivos.
Desse modo, embora os Percursos 2 e 3 estejam localizados em uma das áreas mais belas do campus, com vasta área verde, arborizada e repleta de cantinhos para cochilar, estudar, festejar, meditar, namorar, caminhar e se encontrar (ver Figura 32 e figura 33), as imagens revelam os lugares que os corpos com deficiência (não) ocupam.
Figura 32 - Um convite para caminhar (Jardins da Praça Central)
Fonte: Secom/UnB (2018).
Figura 33 - Fim de tarde no Teatro de Arena (Praça Central)
Fonte: Ferraz e Secom/UnB (2016).
Para Torres; Mazzoni e Mello (2007), os fatores ambientais podem exercer uma notável influência sobre os níveis de atividade e participação das pessoas com deficiência devido ao fato de ser, no meio ambiente – o espaço de convivência no qual se desenvolvem as atividades cotidianas e estabelecem-se as inter-relações – que as barreiras e os facilitadores estão presentes. Nesse sentido, o que se constitui como uma barreira para uma determinada pessoa, talvez não o seja para outra, “[...] podendo inclusive constituir-se em um facilitador para uma terceira pessoa [....]” (TORRES; MAZZONI; MELLO, 2007, p. 371). As dificuldades em termos de acessibilidade arquitetônicas e urbanísticas podem variar, conforme a deficiência, bem como o acesso a direitos; o que significa que, mesmo que uma pessoa considere as barreiras físicas – que lhe condiciona o acesso a vários locais – como possíveis de serem atravessadas, outra, que frequenta o mesmo ambiente, pode ter uma percepção bem diferente. Diante disso, considera-se crucial a adoção do desenho universal e de políticas inclusivas melhor estruturadas tanto no plano político quanto no ético-estético. Feitas essas reflexões, apresenta-se, além síntese da acessibilidade/inacessibilidade nos Percursos 2 e 3 (ver Quadro 5), a fotoetnografia desses percursos.
Quadro 5 - Síntese da acessibilidade/inacessibilidade nos Percursos 2 e 3
Especificação dos percursos
Locais adaptados/adequados e fatores positivos à mobilidade
(facilitadores)
Fatores de impedância e barreiras arquitetônicas urbanísticas Percurso 2 (BCE) o calçadas largas;
o ciclovia;
o faixas de travessia de pedestres;
o sombreamento (arborização);
o vagas exclusivas em estacionamentos.
o ausência de calçada próxima à parada de ônibus e faixa de pedestre;
o ausência de calçada rebaixada;
o ausência de conexão entre as calçadas;
o ausência de informações sonoras ou táteis e visuais;
o ausência de mobiliário para descanso.
o ausência de pisos táteis;
o ausência de rampa próxima às paradas de ônibus;
o ausência de totem de localização;
o carência de elementos arquitetônicos de abrigo;
o excessos de degraus;
o pisos irregulares (rachados ou desnivelados);
o rampas construídas em locais pouco estratégicos;
o sinalização dos prédios confusa ou inexistente.
Fonte: elaborado pela autora.
Fonte: elaborada pela autora.
Percurso 3 (Reitoria)
o calçadas largas;
o ciclovia;
o faixas de travessia de pedestres;
o rampas;
o vagas exclusivas em estacionamentos.
o ausência de calçada rebaixada;
o ausência de informações sonoras ou táteis e visuais;
o ausência de mobiliário para descanso.
o ausência de pisos táteis;
o ausência de rampa próxima às paradas de ônibus;
o ausência de totem de localização;
o excessos de degraus;
o pisos irregulares (rachados ou desnivelados);
o rampas construídas em locais pouco estratégicos;
o sinalização dos prédios confusa ou inexistente.
Figura 34 - A encruzilhada no Percurso 2
Figura 35 - Entre o belo e o disfuncional: os degraus do Percurso 3 (Reitoria)
Fonte: elaborada pela autora.
Figura 36 - Os tantos degraus do Percurso 3
Fonte: elaborada pela autora.
Fonte: elaborada pela autora.
Figura 37: Entre o belo e o disfuncional: conexões e desconexões do Percurso 2
Figura 38 - Por uma rota acessível na Praça Central
Fonte: elaborada pela autora.
Figura 39 - Onde está o problema?
Fonte: elaborada pela autora.
Figura 40 - Na deficiência?
Fonte: elaborada pela autora.