• Nenhum resultado encontrado

A admissão da CNBB como amicus curiae na ADI 3510

4. Os preceitos religiosos católicos e o julgamento da constitucionalidade

4.3 A admissão da CNBB como amicus curiae na ADI 3510

Após tantas considerações acerca da importância dos grupos sociais e de sua participação no Estado democrático, uma vez iniciada a ação por parte da Procuradoria Geral da República, a Igreja Católica Apostólica Romana, através da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), veio (como não poderia ser diferente), celeremente requerer participação na ação e discussão do tema80 atra-

vés de uma interessante figura introduzida no seio do controle concentrado da constituição: o amicus curiae, instituto de direito americano, que na prática vem dar realce a princípio do pluralismo democrático, pedra fundamental do Estado de direito em seu perfil atual.

A finalidade do amicus curiae vem da permissão de que interessados pos- sam atuar no processo fornecendo argumentos, informações de modo a demons- trar ao órgão julgador as repercussões e implicações da norma suspeita de in- constitucionalidade. Todavia, o próprio STF à guisa de outras decisões, elevou a importância desse instituto, acreditando que não se deva limitar a participação do amicus curiae à apresentação de memoriais ou à prestação de eventuais informa- ções que lhes sejam solicitadas, cumprindo permitir-lhe extensão muito maior, como o exercício de determinados poderes processuais como as sustentação oral das razões que justificaram sua admissão na causa.

Fica claro que, quis o STF, ao adotar tal posicionamento, garantir sempre maior legitimidade às suas decisões e valorizar, sob perspectiva pluralística, o

80 Peça processual fornecida pelo advogado, patrono da CNBB na ação, Dr. Ives Gandra da Silva

sentido essencialmente democrático dessa participação, sobremaneira, pelos e- lementos de informação e acervo de experiências que o amicus curiae poderá transmitir à corte constitucional em casos, nas palavras do ministro Celso de Mel- lo, “cujas implicações políticas, sociais, econômicas, jurídicas e culturais são de irrecusável importância e inquestionável significação.”81

Como muito bem asseverou a CNBB, através do ilustre patrono, advogado Ives Gandra da Silva Martins, em sua petição, não é de hoje que Igreja Católica Apostólica Romana defende os princípios que a traz a esta causa; no Brasil, nada mais nada menos do que desde a primeira missa em 1500 e, depois, acompa- nhando e fazendo parte de todo o desenrolar de sua história, que tais valores são defendidos por ela em todas as esferas políticas, jurídicas e sociais.82

Mundialmente, a Igreja Católica Apostólica Romana, destemida em sua missão (já descrita no capítulo 2 deste trabalho), incansavelmente se manifesta em favor da vida em todas as suas fases, posicionamento externado não somente por documentos e pronunciamentos (que dificilmente se poderiam contar haja vis- ta a quantidade deles), mas também na criação de Pastorais Sociais (como da Criança, do Idoso, da Mulher, da Sobriedade), movimentos em defesa e da pro- moção da vida, campanhas mundialmente reconhecidas em prol da dignidade da pessoa humana (como a Campanha da Fraternidade há mais 40 anos), manuten- ção de creches, hospitais, albergues, escolas e asilos e tantas outras iniciativas.

81 STF, ADI (MC) 2130-sc, rel. Min. Celso de Mello, j. 20.12.2000, (DJU 2.2.2001).

82 Isso manifestado até mesmo como base da formação humanística dos ministros do STF que

citaram em seus votos trechos da Bíblia Sagrada, representantes da filosofia patrística como San- to Agostinho e São Tomás de Aquilo ou até mesmo sermões do Padre Vieira (v.g. voto do ministro Marco Aurélio na ADI 35-10. p. 12 e voto do ministro Eros Grau na ADI 35-10. p. 11).

Em seus discursos e documentos mundialmente divulgados, e a todas as instâncias da sociedade (famílias, médicos, cientistas, diplomatas) fica clara a sua posição em assuntos de extrema relevância para a humanidade, a exemplo:

“Queridos médicos católicos, bem sabeis que a vossa missão im- prescindível é salvaguardar, promover e amar a vida de cada ser humano, desde o início até ao seu termo natural. Hoje, infelizmen- te vivemos em uma sociedade em que com freqüência prevale- cem tanto uma cultura abortista que leva à violação do direito fun- damental à vida do concebido, como uma concepção da autono- mia humana que se exprime na reivindicação da eutanásia como autolibertação de uma situação que de alguma forma se tornou penosa.” (Discurso do Papa João Paulo segundo nas celebrações do ano jubilar por ocasião do Jubileu dos Médicos, em 7 de julho de 2000).

“Caríssimos, comprometamo-nos com todas as nossas forças, em defender o valor da família e o respeito da vida humana, desde o momento da concepção. Trata-se de valores que pertencem à ‘gramática’ fundamental do diálogo e da convivência humana en- tre os povos. Formulo votos veementes por que tanto os governos e os parlamentos nacionais como as Organizações internacionais e, de modo particular, a Organização das Nações Unidas, não deixem que esta verdade se extravie. A todos os homens de boa vontade, que acreditam nestes valores, peço que unam eficaz- mente os próprios esforços, para que eles prevaleçam na prática

da vida, nas orientações culturais e nas opções políticas e nas le- gislações dos povos.” (Discurso do Papa João Paulo segundo nas celebrações do ano jubilar por ocasião do Jubileu das Famílias, em 14 de outubro de 2000).

“A missão específica da Igreja, e naturalmente da Santa Sé que é o seu centro, é de ordem espiritual, sendo a formação das consci- ências uma das suas preocupações fundamentais. Para isso tra- balham, no respectivo campo em cada país, as Igrejas locais em comunhão com o Sucessor de Pedro; elas deixariam de cumprir o seu dever, se não procurassem esclarecer as consciências, indi- car os males que ameaçam tanto a vida cristã como a integridade da pessoa, encorajar aquilo que é conforme à verdade e ao bem do homem. É verdade que a Igreja não tem poder direto sobre as leis e as instituições do Estado, escolhido democraticamente pe- los cidadãos com toda a liberdade; mas ela reivindica, no desem- penho da missão recebida do seu divino Fundador, o direito de pronunciar-se sobre as mesmas, distinguindo o que é permitido pelas leis civis e o que é moral, coerente com uma consciência bem formada. E a Igreja portuguesa não se tem cansado de o fa- zer nos mais diversos casos, como por exemplo com a lei iníqua do aborto e a equiparação legal à família assente na união matri- monial de modelos emergentes de vida conjunta radicalmente di- versos e irredutíveis àquela. (Discurso do Papa João Paulo se- gundo ao novo Embaixador de Portugal junto à Santa Sé por oca-

sião da apresentação das cartas credenciais, em 13 de novembro de 2000).

“O cinqüentenário da Convenção é uma ocasião para dar graças pelo que já se realizou e para renovar o nosso compromisso em fazer com que os direitos humanos sejam cada vez mais plena e amplamente respeitados na Europa. Por conseguinte, chegou a hora de reconhecer com clarividência os problemas que devem ser resolvidos, se se quiser que isto se concretize. Entre outros, é fundamental a tendência a separar os direitos humanos do seu fundamento antropológico ou seja, da visão originária da pessoa humana, inerente à cultura européia. Há também a tendência a in- terpretar os direitos a partir de uma perspectiva exclusivamente individualista, tendo-se pouca consideração pelo papel da família como ‘núcleo fundamental da sociedade’ (Declaração Universal dos Direitos do Homem, art. 16). Além disso é um paradoxo o fato de, por um lado, se afirmar com vigor a necessidade de respeitar os direitos humanos e, por outro, se negar o mais elementar den- tre eles o direito à vida. O Conselho da Europa conseguiu erradi- car a pena de morte da legislação de muitos dos seus Estados membros. Enquanto me alegro por esta nobre conquista e espero que a mesma se difunda no resto do mundo, a minha fervorosa esperança é de que chegue depressa o momento em que se compreenda igualmente que se comete uma grave injustiça quan- do não se salvaguarda a vida inocente no seio materno. Esta con-

tradição radical só é possível quando a liberdade se afasta da verdade inerente à realidade das coisas, e a democracia se sepa- ra dos valores transcendentais. (Discurso do Papa João Paulo segundo ao participantes nas celebrações do cinqüentenário da Convenção Européia sobre os Direitos do Homem, em 11 de no- vembro de 2000).83

Além dos discursos acima descritos, ainda pode-se citar outros tantos do- cumentos com profundo embasamento filosófico e de extrema respeitabilidade no mundo acadêmico, como a Carta Encíclica Evangelium Vitae, do Papa João Pau- lo II, sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana; ou indo mais além acerca de sua influência em todas as áreas do conhecimento, a histórica Rerum Nova- rum, do Papa Leão XIII, sobre a condição dos operários já em 1891; ou ainda a Carta Apostólica In Supremo, do Papa Gregório XVI sobre a condenação da es- cravidão e do comércio de índios e negros em idos de 1839.

Deste modo, o cumprimento da missão incessante de defender os valores evangélicos se dá por parte da Igreja Católica Apostólica Romana não somente pelos pronunciamentos do Sumo Pontífice, mas, com efeito, através de sua pre- sença espalhada pelo mundo todo e organizada conforme estudado no capítulo 2 deste trabalho.

Importante será ressaltar que, ao lado da representação diplomática do Va- ticano no Brasil (relação Estado/Estado), feita através da Nunciatura Apostólica,

83 Todos os discursos encontram-se disponíveis em <http://www.vatican.va> Acesso em:

tem-se também a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a qual se poderia chamar de real representação da Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil, não olhando-a enquanto Estado, mas como organização que – conforme salien- tamos no capítulo 2 – “acredita continuar a missão divina advinda do próprio Deus, que enviou Jesus, e que por sua vez, enviou os Apóstolos quando disse ‘ide, pois, ensinai todas as gentes, batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Es- pírito Santo, ensinai-as a observar tudo aquilo que vos mandei’.”

Sendo assim, a CNBB é, conforme seu próprio estatuto, “(...) a instituição permanente que congrega os bispos da Igreja Católica no país, na qual, a exem- plo dos Apóstolos, juntamente e nos limites do direito, eles exercem algumas fun- ções pastorais em favor de seus fiéis e procuram dinamizar a própria missão e- vangelizadora, para melhor promover a vida eclesial, responder mais eficazmente aos desafios contemporâneos, por formas de apostolado adequadas às circuns- tâncias, e realizar evangelicamente seu serviço de amor, na edificação de uma sociedade justa, fraterna e solidária, a caminho do Reino definitivo”84 e que traz

dentre seus objetivos o relacionamento com diversos segmentos da realidade cul- tural, econômica, social e política do Brasil, buscando uma colaboração construti- va, para a promoção integral do povo e o bem maior do país.

Por estes motivos que a CNBB se apresentou perante o STF: como entida- de apartidária, congregante de todos bispos brasileiros e representante do inte- resse de milhões de pessoas que integram suas pastorais, para as quais o direito

84 Cf. art. 1º. do Estatuto Canônico e Regimento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil,

à vida desde a fecundação representa direito fundamental e fundamento de ou- tros direitos assegurados na Carta Magna.

Desta maneira, mesmo ante a proibição da intervenção de terceiros nas ações diretas de inconstitucionalidade85, aprouve ao ministro-relator fazer uso da

possibilidade que lhe confere a mesma lei de, considerando a relevância da maté- ria, a representatividade e importância social da postulante, acolher a participação da CNBB no processo86, ressaltando posteriormente em seu voto que, justamente

por essa importância “postadas como subjetivação dos princípios constitucionais do pluralismo genericamente cultural (preâmbulo da Constituição) e especifica- mente político (inciso V do art. 1º da nossa Lei Maior) que certamente contribuirá para o adensamento do teor de legitimidade da decisão a ser proferida na presen- te ADIN.”87

E o estudo dos votos dos senhores ministros vem justamente ao encontro dos mesmos anseios trazidos pela Igreja no que tange à proteção da vida e ao pensamento moral que molda a sociedade e a protege dos perigos de uma pós- modernidade descomprometida com a consecução do bem comum, que envolve uma discussão muito mais ampla do que o que vem no pedido, sendo que “o te- ma central da presente ADIN é salientemente multidisciplinar, na medida em que objeto de estudo de numerosos setores do saber humano formal, como o Direito,

85 “Art. 7º. – Não se admitirá intervenção de terceiros no processo de ação direta de inconstitucio-

nalidade. (...) §2º. – O relator, considerando a relevância da matéria e a representatividade dos postulantes, poderá por despacho irrecorrível, admitir, observado o prazo fixado no parágrafo an- terior, a manifestação de outros órgãos ou entidades.” (Lei nº. 9.868 de 1999).

86 (Decisão monocrática do Min. Carlos Britto, de 17.04.2007, publicada no DJU 23.4.2007). 87 Voto do ministro Carlos Britto na ADI 3.510. p. 4.

a filosofia, a religião, a ética, a antropologia e as ciências médicas e biológicas (...)”88

Documentos relacionados