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CAPÍTULO 2 ELEMENTOS TEÓRICOS REFERENCIAIS PARA ESTE ESTUDO

2.1 A noção de agricultura familiar

2.1.1 A agricultura familiar no contexto mercantilizado

Nos estudos sobre a agricultura familiar, nos últimos anos, as discussões estão voltadas basicamente para a análise em torno dos aspectos e das estratégias que envolvem as tomadas de decisão no interior das unidades de produção agrícola de base familiar, bem como das possibilidades de permanência ou não dessa forma de produção frente ao crescente desenvolvimento das relações capitalistas no campo. Pretende-se, portanto, nesta seção apresentar argumentações de diferentes autores no sentido de nos situarmos dentro dessa problemática e ao mesmo tempo contribuir para caracterizar as formas sociais empíricas com as quais trabalhamos no presente estudo.

Para Abramovay (1992), a noção de unidade familiar de produção tem sido tratada de forma ambígua ao se associar este tipo de estabelecimento à “pequena produção”, a “produção de baixa renda”, a “agricultura camponesa”, entre outros. A agricultura familiar, tal como se desenvolveu nos países capitalistas avançados, apresenta especificidades que a difere das formas sociais do passado das quais muitas vezes é originária, “mas com o qual mantém laços cada vez mais tênues”. Tal diferenciação pode ser explicada, de um lado por sua dinamicidade econômica e capacidade de inovação técnica e, de outro, por sua generalização nos países avançados que não pode ser explicada pela herança histórica camponesa, mas em função da intervenção do Estado que lhe deu a modelagem atual. Para o autor, “uma agricultura familiar, altamente integrada ao

mercado, capaz de incorporar os principais avanços técnicos e de responder às políticas governamentais não pode ser, nem de longe, caracterizada como camponesa”. (Abramovay, 1992, p.22 – grifos no original)

Para Abramovay, no mundo capitalista a paisagem rural está dominada por uma forma de produção baseada na família, porém totalmente despojada dos traços camponeses do passado. Sustenta que a condição camponesa é totalmente incompatível nos ambientes econômicos plenamente mercantilizados ao indicar que

(...) o ambiente no qual se desenvolve a agricultura familiar contemporânea é exatamente o que vai asfixiar o camponês e obrigá-lo a se despojar de suas característica constitutivas, minar as bases objetivas e simbólicas de sua reprodução social. (Abramovay, 1992, p. 131)

De outra parte, a exploração familiar, para Lamarche (1993:15), corresponde “a uma unidade de produção agrícola onde a propriedade e o trabalho estão intimamente ligados à família”, apresentando uma grande diversidade de formas não podendo ser compreendida como um modelo único, ou nas próprias palavras do autor “a agricultura familiar não é um elemento da diversidade, mas contém em si mesma toda a diversidade”. Está presente em todo mundo independente de sistemas sócio-políticos vigentes e em todas as sociedades onde o mercado organiza as trocas: em alguns lugares a agricultura familiar apresenta-se tecnificada e plenamente integrada ao mercado, em outros permanece arcaica e voltada basicamente para a subsistência; em alguns lugares é mantida e reconhecida como a única forma capaz de manter a demanda da sociedade como um todo, enquanto em outros é desacreditada e excluída do desenvolvimento, quando não eliminada.

Tendo como eixo norteador o maior ou menor grau de integração das explorações familiares ao mercado, mas considerando também os aspectos econômicos, sociais, culturais e técnicos que as influenciam, Lamarche (1993) propõe uma análise baseada em modelos, ou seja

“modelo original” e “modelo ideal”. O “modelo original” seria a memória dos agricultores em

relação ao modelo anterior “ao qual todo o explorador, mais ou menos conscientemente, necessariamente se refere”. O “modelo ideal” seria uma representação da ambição de cada agricultor em relação a sua exploração, assim “ele organiza suas estratégias e toma suas decisões segundo uma orientação que tende sempre, mais ou menos, em direção a essa situação esperada”.

Considerando o grau de integração ao mercado e a lógica interna de cada unidade de exploração familiar, Lamarche (1998 p. 67) distingue quatro tipos de “modelos ideais” ou quatro modelos teóricos:

a) modelo empresa. Esse modelo se caracteriza por ser pouco familiar e muito dependente. Assim, para esse grupo, tem menor importância a propriedade da terra, a propriedade como patrimônio familiar e a participação da família no trabalho no estabelecimento. Embora a família participe, regularmente é contratada força de trabalho externa. Nesse modelo os produtores recorrem sistematicamente aos empréstimos para financiar seus investimentos e produzem exclusivamente para o mercado.

b) modelo empresa familiar. Nesse modelo, ao contrário do anterior, a família é muito importante, tanto no que se refere à organização do trabalho, que é basicamente familiar, quanto em relação a propriedade que é considerada patrimônio familiar. O produtor pertencente a esse grupo é fortemente dependente do exterior. A produção é pensada como renda agrícola e o trabalho em termos de salário.

c) modelo agricultura camponesa ou de subsistência. Esse modelo se caracteriza por ser muito familiar e pouca dependente do exterior. Utilizam técnicas de produção tradicionais e visa primordialmente atender as necessidades da família.

d) modelo agricultura familiar moderna. Caracteriza-se por buscar constantemente a diminuição do papel da família na relação de produção e pela busca de maior autonomia possível. Esse modelo representa um grupo que teria se libertado das limitações familiares (materiais e principalmente morais e ideológicas) e da dependência técnico e econômica.

As unidades familiares de produção, segundo o contexto em que estiverem inseridas, bem como suas próprias histórias, estariam posicionadas em determinado ponto entre o “modelo original” e o “modelo ideal”. As chances de atingirem o “modelo ideal”, ou simplesmente de se aproximarem dele, não dependerá somente do projeto individual, mas também do que a sociedade global projeta para elas. Por essa dependência das unidades familiares em relação ao projeto que a sociedade global tem para elas pode-se explicar ora sua dominação, ora sua estagnação, diminuição e até sua eliminação.

Apesar dos desafios de ordem econômica e política que a exploração familiar teve que enfrentar, esta mantém-se presente em toda parte do mundo graças a sua “excepcional capacidade de adaptação”. Muitas unidades desapareceram porque não souberam, quando necessário,

adaptar-se às exigências do mercado por estarem muito dependentes do “modelo original”, outras enfrentam grandes dificuldades por encontrarem-se desprovidas de praticamente todo seu patrimônio sócio-cultural. Assim, a hipótese de Lamarche é de que “nas sociedades dominadas pela economia de mercado quanto mais a exploração estiver próxima dos extremos menos ela poderá acomodar as restrições que se apresentam a essas sociedades e, por isso, mais dificuldades terá de assegurar sua reprodução”. (LAMARCHE:1993, p.21)

Seguindo as interpretações de Abramovay e Lamarche podemos empreender numa tentativa de caracterizar a formação atual empírica com a qual desenvolvemos o presente estudo, partindo de um modo de viver característico de um sistema de produção implantado pela colonização no sul do Brasil, ou seja, do “sistema produtivo colonial” tomado aqui como o “modelo original” da atual agricultura familiar do oeste catarinense.

Nesse intento, buscamos também apoio no trabalho de Miranda (1995), que ao estudar o processo decisório entre os agricultores familiares produtores de suínos do município de Concórdia conclui que esses agricultores “não podem ser considerados como empresários agrícolas capitalistas, pois suas estratégias perseguem objetivos (“modelo ideal”) que visam primordialmente garantir a reprodução da unidade familiar de produção”. O autor demonstra que as decisões dos agricultores familiares por ele entrevistados pautam-se também em aspectos subjetivos ao enfatizar que

em que pese a modernização do processo produtivo e a profunda integração ao mercado, os suinocultores familiares continuam se pautando por uma estratégia que está longe de ser classificada como “racional” segundo os preceitos da administração empresarial clássica. (Miranda, 1995:209).

Da mesma forma, Wanderley (1999) considera que nas sociedades atuais outras formas de agricultura que não a camponesa se multiplicam. Estas formas modernas de agricultura familiar em função das transformações na sociedade em geral tentam adaptar-se a esse novo contexto de reprodução. No entanto, a autora observa que embora modernizadas e plenamente integradas a sociedade nacional, essa não são categorias sociais totalmente novas e completamente despojadas dos traços característicos do campesinato, mas o resultado de uma continuidade.

Sendo assim, considera-se, por um lado, que os agricultores familiares de origem européia do oeste de Santa Catarina atuando de forma plenamente integrada ao mercado, não apenas através da venda de produtos in natura e compra de insumos, mas também por meio de atividades não-agrícolas como a agroindustrialização e o agroturismo, ou ainda, por meio da destinação de

parte da força de trabalho da família em atividades não-agrícolas de forma assalariada, não podem ser considerados “camponeses” ou “colonos”. Por outro lado, considera-se que além da influência externa exercida pelo mercado, as decisões da família são fruto também de uma “lógica interna”.