A sabedoria exige uma nova orientação da ciência e da tecnologia para o orgânico, o moderado, o não-violento, o elegante e o belo.
E. Schumacher em O negócio é ser pequeno
Embora sujeita a muitas definições que ora ampliam e ora reduzem o seu espectro teórico-prático, a agroecologia aqui é retratada dentro da acepção de Altieri (1989), ou seja, como um esforço para o entendimento das interações biológicas endógenas, acrescido de um sentimento e compromisso com a sustentabilidade ambiental e social dos sistemas agrícolas.
A agroecologia no Brasil surgiu a partir do movimento de agricultura alternativa, materializado na realização dos Encontros Nacionais e Regionais de Agricultura Alternativa - os EBAAs e ERAAs, durante a década de 1980. Nasceu com a participação de diversos segmentos da sociedade, sobretudo estudantes, professores universitários e profissionais de origem governamental e de organizações não-governamentais - ONGs, que em momento de crítica à revolução verde e de abertura política, com o enfraquecimento do regime ditatorial militar, passaram a se reunir regional e nacionalmente (EBAA, 1984).
Atualmente, conforme relatório do Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), realizado em 2002, a agroecologia brasileira, abarca diversas correntes de agricultura não convencionais e tem presença forte entre os movimentos sociais do campo, setores de igrejas, sindicatos, associações e cooperativas de agricultores familiares e consumidores, nas universidades, no setor de pesquisa e extensão rural e entre ONGs ligadas ao rural e ao chamado ambientalismo (Carvalho, 2003).
No relatório do ENA, contido em Carvalho (2003), está expresso a preocupação com a perda da diversidade dos cultivos via políticas públicas que incentivam as monoculturas, que por sua vez, levam ao progressivo desaparecimento das variedades locais. Também é realçada a necessidade de se valorizar os conhecimentos informais dos agricultores relacionados aos sistemas de cultivo, à agrobiodiversidade e ao modo de vida como um todo.
Na perspectiva da agroecologia, o aspecto multifuncional atribuído à agrobiodiversidade é potencializado (Altieri, 2000). Neste sentido, De Boef (2000) considera a agrobiodiversidade como um serviço ecológico e um componente importante na resiliência dos agroecossistemas. Já os sistemas de desenvolvimento agrícola e rural baseados nos pressupostos culturais, tecnológicos e estruturais da agricultura convencional ou agroquímica,
fica evidente, a incompatibilidade com a diversidade biológica e com o conhecimento tradicional que lhe é inerente. Portanto, a aplicação dos princípios agroecológicos na agricultura, além de outros aspectos, é estratégica na conservação, uso e melhoramento da diversidade agrícola nos campos (Thrupp, 2003), a partir inclusive da valorização dos conhecimentos informais (Toledo, 2005).
Para se compreender e ensaiar soluções duradouras de conservação e uso sustentável da agrobiodiversidade deve-se abordar as causas profundas da sua perda e erosão e a partir de então modificar práticas políticas e paradigmas de pessoas, instituições e governos (Thrupp, 2003). A concepção agroecológica pela sua prática produtiva e vertente sociológica é melhor entendida e praticada pela abordagem sistêmica.
Embora seja uma necessidade imperativa planetária que todos os agroecossistemas caminhem à agroecologia (ou a formas de produção e convívio sustentáveis), aos agricultores pobres poderá ser especialmente interessante a prática de uma agricultura baseada em insumos endógenos, pois além de mais baratos que os externos são mais adequados à melhoria das condições de vida e à busca da sustentabilidade (Jarvis et al., 2000).
Os aspectos geradores da agrobiodiversidade estão ameaçados em boa parte do planeta e inviabilizados nos espaços em que a agroquímica culturalmente já se enraizou, onde se fez uso de sistemas de manejo e posse da terra injustos e inadequados e nos locais de ocorrência da média e grande agricultura empresarial, bem como nas comunidades que perderam o seu modo de vida tradicional, quer seja em termos de tecnologias e processos de cultivo e processamento, ou de relação subordinada ao mercado (Khatounian, 2001).
Ao se referir à fertilidade do sistema agrícola Khatounian (2001) esclarece que o uso da diversificação das culturas é ponto-chave para a sua manutenção e para o controle de pragas e doenças das plantas. Segundo este autor, além disso nos agroecossistemas diversificados a integração interna da unidade é potencializada. Estes aspectos conjugados com outros são fundamentais para geração de sustentabilidade no sistema e construção efetiva da agroecologia.
Reijntjes et al. (1994), sugere que a aplicação de propostas baseadas na proposta da agroecologia possibilitam alcançar com mais facilidade a diversidade funcional dos agroecossistemas. A diversificação de espécies animais e vegetais gera interações sinérgicas positivas, e mais estabilidade e produtividade ao sistema. Em termos de diversidade genética
nas populações e comunidades de cultivo estes agroecossistemas são mais ricos que os convencionais (Gliessman, 2001).
A agricultura familiar presente no oeste de Santa Catarina maneja um estoque considerável de VL de diversas espécies (Canci, 2004). Na sua grande maioria, as famílias fazem uso de tecnologias convencionais, como fertilização química solúvel e herbicidas. No entanto, ano a ano tem crescido o número de famílias que trabalham com agroecologia (Epagri, 2006) e que, através desta proposta, ampliam a sua agrobiodiversidade.
2.9 Metodologias participativas de manejo e conservação da agrobiodiversidade A identificação do sistema local de conhecimento representa um passo prévio quando se deseja realizar trabalhos de pesquisa participativa ou processos de experimentação dialogada entre agricultores e técnicos. Mediante a identificação dos sistemas locais de conhecimento, os agricultores podem ter acesso a redes, utilizar as informações e apropriar-se de seu conteúdo (Sthapit et al., 2003a). Para Sabourin (2001), se trata de valorizar o conhecimento do agricultor para ele próprio, abrindo a possibilidade de aprimorá-lo, na medida em que se evidência as suas possibilidades e/ou carências.
Por sua natureza aberta, os sistemas informais poderão se integrar com a pesquisa formal para aprimorar a sua dinâmica e eficiência, de acordo com as necessidades de comunidades e levando em conta que, através do trabalho conjunto, será possível gerar ainda mais diversidade, conhecimentos e empoderamento das comunidades. Para Ceccarelli & Grando (2000) a importância da participação dos agricultores no processo de melhoramento dos seus cultivos vai muito além de uma questão de respeito e equidade, já que quando ocorre, a efetividade do melhoramento é otimizada.
Organismos internacionais como a FAO, Banco Mundial e Grupo Consultivo Internacional de Pesquisa Agropecuária (CGIAR, da sigla em inglês), que são as instituições que “aconselham” os países sobre os rumos de desenvolvimento rural, a partir da década de 80 têm, retoricamente, defendido em seus documentos, a agricultura e o desenvolvimento rural sustentável. Da mesma forma, passaram a recomendar e apoiar os métodos e processos de planejamento edesenvolvimento participativo e defender que o protagonismo dos agricultores e de suas organizações teria que ser respeitado e incentivado (Pretty et al., 1995).
Em todo o mundo tem crescido os projetos envolvendo diversas metodologias de pesquisa e desenvolvimento participativo, já que comparados aos métodos tradicionais de melhoramento de plantas, são mais adequados, para ambientes onde os agricultores e as instituições dispõem de poucos recursos financeiros (Witcombe, et al., 1996), podendo, no entanto, também ser utilizados em ambientes incluídos no sistema formal (Witcombe et al., 2000) do ponto de vista de relevo e de acesso a recursos produtivos. Existe uma tendência na literatura de relacionar os métodos de pesquisa participativa com áreas de amplitude menor, argumentando que seria a contra-lógica do modelo convencional que tende a fazer estudos localizados e estender os seus resultados a grandes áreas, muitas vezes de ecossistemas diferentes.
Na acepção de Almekinders (2003), as instituições de pesquisa e desenvolvimento devem examinar seus enfoques e atividades para apoiar o manejo da biodiversidade agrícola, sendo que para isso implica uma cultura institucional diferente na qual haja espaço para o enfoque participativo e de aprendizagem mútua.
Conforme Pinheiro & de Boef (2006), nas metodologias de pesquisas participativas interativas utilizadas na América Latina, o mais importante tem sido o fortalecimento dos processos locais de “aprender a aprender”, fortalecendo, desta forma a capacidade dos atores a lidar com outros temas que possam no futuro ser importantes para o desenvolvimento da comunidade ou de determinado território. Para além dos possíveis temas geradores de uma investigação e dos produtos gerados com a pesquisa em si, o processo capacitador, portanto, passa a ser fundamental, na medida que empodera as comunidades fortalecendo a sua autodeterminação.
A literatura aponta diversas metodologias participativas de apoio ao manejo e conservação da agrobiodiversidade. Estas metodologias são utilizadas no resgate, promoção, amplificação da diversidade e no melhoramento dos cultivos. Reijntjes et al. (1994), cita o desenvolvimento participativo de tecnologias (DPT), que se caracteriza como um processo de interação objetiva e criativa entre comunidades locais e agentes animadores externos. Conforme este mesmo autor, o DPT envolve a compreensão conjunta da realidade local, a definição de temas prioritários, a realização de experimentos locais com a complementaridade entre conhecimentos informais e formais e o aprimoramento das capacidades de experimentação dos agricultores. Em relação ao processo de melhoramento de plantas,
Witcombe (2003), aponta duas metodologias de participação dos agricultores: a seleção participativa de variedades (SPV) e o fitomelhoramento participativo (FP). A SPV é uma metodologia que preconiza a seleção por parte dos agricultores nos locais definidos por eles, de linhagens ou variedades avançadas com base nos seus próprios critérios de seleção. Estas novas opções de variedades são cultivadas juntas com aquelas cultivadas nas comunidades. Ao contrário do que possa parecer, em projeto realizado no Nepal, Subedi et al. (2003b), verificaram que os agricultores aumentaram consideravelmente o número de variedades cultivadas de todas as espécies selecionadas. Quando for necessária a recombinação genética entre variedades, a SPV pode ser complementada pelo FP.
O FP é uma das metodologias mais utilizadas, que fortalece o papel dos agricultores no melhoramento. Segundo Sthapit et al. (2003b), objetiva: i) fortalecer os processos de conservação in situ/na unidade em cultivo; ii) incrementar a competitividade das variedades locais; iii) fortalecer o sistema local informal de intercâmbios para, inclusive, atuar na distribuição das variedades testadas; iv) ampliar a base de diversidade dos cultivos locais; e, v) incrementar a agrobiodiversidade.
As Escolas de Campo para Agricultores (ECAs) são outra metodologia de aprendizagem e troca de experiências coletiva que envolve grupos de 20 a 30 agricultores que por um determinado período – geralmente uma safra, se reúnem em atividades práticas/reflexivas na busca de soluções aos problemas priorizados. As metodologias inseridas nas ECAs são utilizadas em diversos países de América Latina e Ásia e além das atividades de seleção participativa com combinação dos conhecimentos dos agricultores e dos cientistas formais, servem também para atividades de capacitação dos agricultores (Orrego et al., 2003; Dung & SEARICE, 2003).
O programa de registros participativos da biodiversidade (RPB) foi realizado em diversas regiões da Índia, com o objetivo de registrar de forma escrita a agrobiodiversidade, os intercâmbios e os usos e conhecimentos associados. Segundo Gadgil (2005), o RPB procura fomentar a construção de novas instituições formais para a manutenção dos conhecimentos e da biodiversidade e fortalecer a criação de novos contextos que permitam a reprodução regular da biodiversidade e dos conhecimentos associados.
Como uma estratégia participativa de identificação, valorização e fortalecimento das redes informais de intercâmbio de sementes e de saberes, e ainda de divulgação das variedades
locais junto aos consumidores, as Feiras de Sementes (FS) ou Feiras da Biodiversidade (FB) também têm sido apoiadas principalmente nos países dos continentes africano, latino- americano e asiático (Rusike et al., 2003; Canci, 2002; Neuendorf, 2000).
Além destas, outras metodologias são indicadas na literatura, mas, geralmente, como mutuamente complementares dentro de estratégias de apoio ao manejo e conservação comunitária da agrobiodiversidade (Subedi et al., 2003a). Em relação à utilização de metodologias participativas Cooke & Kothari (2001), alertam para que sejam evitados os ritualismos metodológicos, para também se evitar a manipulação dos agricultores, pois ao invés de ajudar e empoderar, estar-se-ia prejudicando ainda mais os participantes. Para isso, sugerem que se leve em conta os processos locais de reunião e organização pré-existentes.