A partir de alguns fragmentos da reportagem, pode-se analisar a maneira como o discurso jornalístico iniciava a
SANTA CATARINA; SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE A epidemia de AIDS em Santa Catarina Disponível em
2.3 A aids construída como a expressão de um mal
Dentre os vários discursos que se articularam a respeito da aids, destaco o discurso religioso, pela importância que guarda a religião na constituição dos sujeitos e na capacidade de influenciar as ações das pessoas no dia a dia. De acordo com Jane Galvão,
Nos primeiros anos da epidemia de HIV/AIDS no Brasil, tanto a Igreja Católica quanto as pentecostais marcaram sua posição quanto a AIDS de uma maneira onde, antes de a AIDS ser
114
encarada como uma doença, era vista como representando a decadência moral do indivíduo.115
Para as igrejas cristãs, aqui mencionadas especialmente as de maior vulto no Brasil na década de 1980, o catolicismo e o pentecostalismo, a questão da aids era encarada como mais um dos responsáveis pela degradação moral da sociedade. Se nas histórias narradas nos livros bíblicos muitas ações de criaturas já haviam colocado em risco a sobrevivência da humanidade, a aids parecia exercer este papel em fins de século XX, como uma lembrança da divindade a respeito dos caminhos errados, e um convite ao arrependimento, sob pena de a sociedade ser assolada por uma doença que se mostrava avassaladora.
A doença foi capaz de forjar discursos moralizantes como o enunciado pelo Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugênio de Araújo Sales. Ele afirmava, em 1985, em um texto publicado no Jornal do Brasil:
E cai, como um raio, na humanidade, o perigo da AIDS [...] Surge como imposição que atinge, em cheio, a inversão sexual, a troca de parceiros, uma interminável lista de assuntos condenados pela legislação divina... Esse clima revela a decadência dos costumes com as conseqüências de um comportamento humano quando contraria o destino para o qual fomos criados...116
Em análise ao fragmento, identifica-se a ligação feita pelo bispo católico com a doença como um castigo divino pelo não seguimento de uma suposta legislação. No texto, o religioso mencionava a inversão sexual, uma alusão clara a homossexualidade, além da troca de parceiros.
115
GALVÃO, Jane. As respostas religiosas frente à epidemia de HIV/aids no Brasil. In: Parker, Richard. Políticas, instituições e aids: enfrentando a aids no Brasil. Rio de Janeiro: Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, p.112.
116
SALES, Eugênio. O mal e a covardia dos bons. O Globo, Rio de Janeiro, 27 de jul. de 1985 Apud OLIVEIRA, Tatiane Guimarães. AIDS e discriminação: violação dos direitos humanos. Disponível em: http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/15775-15776-1- PB.pdf. Acesso em: 24 mar 2014.
Aí residiu durante bom tempo, e este discurso continua reverberando, o principal discurso religioso a respeito da aids: ela seria um castigo divino ante os comportamentos desviantes da humanidade. Afinal uma humanidade que se afastava dos ensinamentos morais da igreja, como a prática do sexo monogâmico, conjugal e heterossexual, necessitava de um certo freio de arrumação para que dessa maneira voltasse ao seio dos ensinamentos institucionais, qual seja a prática do “único” sexo seguro. Este significaria sexo entre um homem e uma mulher, e apenas dentro do casamento. O desvio para tal comportamento já fora registrado com a sífilis como castigo para os pecados da carne117.
As críticas de dom Eugênio renovaram-se e passaram a se dirigir às campanhas do Ministério da Saúde, especialmente em épocas que elas eram mais evidentes, como a distribuição em massa de preservativos durante o carnaval. Esta celebração, por sua vez, já era palco de embates entre religiosos e não religiosos, pois, segundo os primeiros, tratava-se de festa onde se praticavam diversos atos contrários aos ensinamentos da religião.
Dom Eugênio citava ainda uma certa decadência de costumes. Esta decadência moral fez e faz parte do discurso religioso durante muito tempo, e em cada tempo se renova conforme as circunstâncias. No auge da sífilis, a doença era castigo pelas relações extraconjugais. Já a aids servia perfeitamente como bode expiatório para que se aumentasse a virulência do discurso religioso contra as práticas homossexuais. Para Orozco, estudiosa das Ciências da religião,’
O surgimento da AIDS possibilitou a oportunidade para muitas religiões retomarem assuntos de caráter moral: sexo – morte, promiscuidade – doença, amor – fidelidade etc. Dedicaram-se aos temas antes que às ações mais concretas. Por exemplo, as reflexões bíblicas giraram em torno de textos como Sodoma e Gomorra e o Apocalipse, enfatizando reflexões negativas frentes à doença e aos doentes.118
Conforme colocado por Orozco, se os anos que precederam a emergência da aids foram marcados pela liberação sexual e uma mudança nos costumes, a doença colocada em discurso possibilitou um reavivamento destas questões, , principalmente em torno de temas como
117
CARRARA, op. Cit., p. 26.
118
sexo, morte, promiscuidade, doença, amor e fidelidade. O sexo que se tentava muitas vezes silenciar vinha cada vez mais à roda dos assuntos, já que desde cedo foi identificado como principal forma de transmissão do vírus causador da aids, e representava preocupação constante na moral cristã.
A morte, essa passagem que levava o cristão ao encontro de Deus, ou a outro local, que a tradição judaico-cristã denominou de inferno, poderia ser acelerada pela doença – era a expressão do castigo da divindade pelas errantes práticas de seus portadores.
A promiscuidade, como já citado no artigo de D. Eugênio, seria uma das responsáveis pela derrocada da humanidade. Porém, segundo a teologia cristã, Deus estaria sempre disposto a resgatar as almas, portanto, permitia que acontecesse um flagelo, para que assim fosse possível um retorno das almas ao caminho correto.
Amor e fidelidade pautariam as únicas ações de prevenção toleradas pelos cristãos. Segundo as diretrizes da igreja, os governos não deveriam fazer maciços investimentos em campanhas de prevenção que estimulassem o uso do preservativo, pois seria também um estímulo ao sexo casual, fora do casamento. Seriam necessárias campanhas que incentivassem a monogamia e o sexo apenas após o casamento.
Para Orozco, tanto esta igreja mais tradicional que encontrava no Brasil D. Eugênio como seu porta-voz quanto os setores mais progressistas da igreja não se preocuparam em um primeiro momento com a questão da aids. A autora afirma que
A Igreja estava envolvida em debates e práticas políticas e sociais, que naquele momento lhe pareciam mais prioritários. Talvez esse contexto explique o porquê da atenção ao vírus HIV/AIDS não ser considerada assunto prioritário à época. Os atores e movimentos que faziam parte da Teologia da Libertação, como a maior parte da sociedade e da própria Igreja Católica, encaravam a AIDS como algo que não fazia parte das doenças dos pobres.119
Esse fragmento evidencia mais uma vez a articulação que havia entre os discursos religiosos, médicos e midiáticos. Constantemente, afirmava-se a aids como doença de ricos, especialmente no Brasil, em
119
que em um primeiro momento fora vista como a doença de jovens homossexuais das classes altas que viajavam aos Estados Unidos.
Se, para a igreja tradicional, o grande problema da aids era o castigo divino que se abatia sobre os pecadores e os convidava ao retorno aos seus ensinamentos, para a igreja progressista, preocupar-se com uma doença que afligia apenas pessoas das classes mais altas significaria descuidar-se de ações mais urgentes, como o atendimento às pessoas que viviam em situação de risco social e que precisavam ser libertadas da miséria e da opressão.
Os jornais de Criciúma não trouxeram às suas páginas membros do clero católico ou líderes de outras denominações religiosas, porém, a análise desse material permitiu inferir a presença do moralizante discurso religioso em suas páginas. Um exemplo é o artigo intitulado “A doença da libertinagem”120, em que seu articulista afirmava a mesma posição defendida por D. Eugênio Salles um ano antes, de que a doença era fruto de uma certa “libertinagem” da humanidade.