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1 ANTECEDENTES DA GUERRA: EUROPA, BRASIL E PORTO ALEGRE

1.4 A ALEMANHA E SEUS DESCENDENTES NA PERSPECTIVA

Nesse estado, as relações dos gaúchos com os alemães revelam aspectos peculiares. Diversas vezes, o imigrante se viu na contingência de reforçar a condição de isolamento que vinha sendo criticada, muitas vezes, devido à localização das terras destinadas à colônia, assim, a cultura de uma comunidade se fechava sobre si mesma. A situação ainda ficava mais precária pela ausência de vias de comunicação (LANDO; BARROS, 1981). Como

32 O dinheiro ficou retido na casa bancária Bleischroeder, em Berlim, pois a Alemanha temia que o dinheiro

viesse a cair em mãos da Inglaterra, cujos investidores teriam direito a parcela (BUENO, 2003, p. 464).

33 Sobre a participação dos diplomatas brasileiros junto ao concerto das nações nas negociações de paz em Paris

consequência, acabava recaindo sobre os próprios colonos o dever de abrir picadas para facilitar o acesso.

Em busca de melhores condições de vida, o colono percebia que o sucesso dependia da interação dele com a sociedade da qual começava a fazer parte, sendo que, isto dependia do conhecimento do idioma português. A propósito do assunto, Egon Steyer (1979) afirma que, no princípio do processo imigratório, os primeiros habitantes se mostraram dispostos à integração. A realidade, todavia, mostrou-se adversa e incompatível.

As denúncias de antibrasilidade, feitas aos imigrantes, foram recorrentes desde meados da colonização germânica. Quando do recrutamento à Guerra do Paraguai, mesmo quando lideranças pediram o apoio de suas comunidades, em prol da participação dos teuto-brasileiros no esforço de mobilização brasileiro, houve vários casos de recrutamento forçado e de maus tratos a eles (BECKER, 1968).

A suspeita de antibrasilidade ganhou reforço pela questão religiosa. O fato de haver uma grande quantidade de luteranos entre os imigrantes, ainda ao tempo em que o catolicismo era a religião oficial do país, tornou-os ainda mais mal-vistos, quando comparados a outros imigrantes que ao menos tinham o catolicismo como característica em comum com os brasileiros. A diferença religiosa se tornou um componente a mais para dificultar a assimilação das gerações posteriores que, mesmo nascidas no Brasil, eram vistas como estrangeiras.

Para os protestantes, as quatro décadas iniciais da colonização no Brasil foram especialmente árduas. A isso esteve ligado o fato do catolicismo ter permanecido como a religião oficial do país. Como inexistia uma divisão entre Igreja e Estado, a ideia de registro civil estava fora de cogitação. Significa dizer que, o direito ao reconhecimento da existência do indivíduo, critério para reivindicação da própria cidadania, passava pelos ritos do batismo e do casamento na Igreja Católica. Para os protestantes, submeter-se aos sacramentos católicos seria a negação da sua fé, o que, numa afirmação da mesma, os empurrava para uma vida sem direito à plena cidadania (DREHER, 1984). Tal dilema era um fardo que os perseguia da infância à vida adulta, pois ter filhos em uma união que, se não fosse consagrada no interior do catolicismo, impedia o reconhecimento dos mesmos como herdeiros. No cotidiano, o problema acarretado pelo não reconhecimento de um casamento era a impossibilidade jurídica de legar propriedades aos herdeiros. Por outro lado, casamentos

mistos impunham a abjuração da primeira religião (DREHER, 1984). Além disso, os não- católicos eram impedidos de ocupar cargos públicos.

As necessidades, contudo, impuseram ao Estado a obrigatoriedade de readequar a legislação vigente. Mesmo obrigando os filhos de casamentos mistos a se educarem dentro da fé católica, a lei decretada em 1865 passou a reconhecer os casamentos protestantes. O fato de a lei premiar a firmeza da convicção dos outros credos coincidiu com o maior empenho da Igreja Católica na sua ação evangelizadora junto à região colonial.

Dentro do contexto deve ser tomada em consideração a chegada ao Rio Grande do Sul do pastor George Borchard, no ano de 1864. Entre as suas medidas esteve a primeira tentativa de organizar o luteranismo através do estabelecimento de um sínodo.34 Ele supunha a existência de uma relação íntima entre religião e germanidade, conceito este que permanecerá balizador da religiosidade, nas décadas posteriores, com o pastor Wilhelm Rotermund, como será referido posteriormente. Além disso, Borchard buscou minimizar a condição de isolamento social que marcava o cotidiano do imigrante. Para tanto, fomentou a entrada de pastores vindos da Europa para melhor orientação dos fiéis, bem como o estreitamento de laços econômicos entre os colonos e a Alemanha unificada, o que de forma alguma significava o desejo de submissão ao Estado alemão ou a reivindicação de uma nacionalidade alemã (DREHER, 1984). Todavia, não se pode negar a relação dos acontecimentos com a

redobrada preocupação católica e com a ampliação dos argumentos do “perigo alemão”.

Em Porto Alegre, as comunidades de origem germânica representavam contingentes significativos de importância econômica, desde o último quarto do século XIX, principalmente na Rua da Praia (SILVA, 2004). Entre os indivíduos de origem germânica da capital foi digna de destaque a porcentagem elevada daqueles que possuiam nível médio e alto na formação socioeconômica (GANS, 2004, p. 29). No outro extremo da cadeia produtiva, também houve uma entrada de mão-de-obra operária especializada. Diferente do nível local, boa parte dos trabalhadores era de alemães, trazidos especialmente para melhorar o padrão produtivo das fábricas e oficinas (BILHÃO, 1999). Quanto aos mesmos, pode-se afirmar que representaram uma vanguarda técnica, e organizacional.

Uma outra questão importante diz respeito à polarização partidária que envolveu o estado após a proclamação da república. O imigrante e os seus descendentes também se viram

sob fogo cruzado em decorrência da mesma. A região da Campanha, composta de uma maioria de latifundiários ligados ao gado, havia sido base de apoio político de Gaspar Silveira Martins, desde o Império. A criação da república a alijou da grande ascendência sobre o poder que anteriormente desfrutara. Quando do estabelecimento do novo governo, sob controle do Partido Republicano Riograndense, a Campanha passou a ser vista com desconfiança. O mesmo poderia ser pensado em relação aos imigrantes germânicos e descendentes. Tidos como simpatizantes da monarquia, haviam cultivado boas relações com Silveira Martins35 durante o período imperial. Frequentemente pairava sobre a etnia germânica a acusação de, no fundo, serem gasparistas, e, depois, federalistas. Acontece que durante a guerra entre

republicanos e federalistas houve a “suspeita de compra, pelos rebeldes, de armamentos de fabricação alemã” (MALATIAN, 2001, p. 95), o que necessitou manobras diplomáticas para

que a Alemanha não reconhecesse o estado de beligerância que poderia permitir-lhe condições de realmente negociar equipamentos.

Julio de Castilhos, enquanto esteve vivo, manteve atenção, caracterizada pela desconfiança sobre eles. Seu secretário de obras, José Pereira Parobé, inclusive, preferia o atraso econômico do estado a ver a prosperidade depender dos povos de origem germânica (GERTZ, 2005).

Rosane Neumann afirma que um distintivo do receio do governo republicano em

relação aos imigrantes pode ser observado na distribuição das colônias. “No Rio Grande do

Sul, o novo governo de feições positivistas adotou o sistema de colônias mistas, fixando, em um mesmo núcleo, imigrantes de diferentes grupos étnicos” (2003, p. 99). O intuito seria provocar a assimilação do imigrante, mediante uma intensificação dos contatos que provocaria uma fusão de culturas. Até porque, no caso germânico, aos valores culturais se somaria o componente étnico, um fator marcante e constantemente presente nos discursos daqueles que os antagonizavam.

Em contrapartida, do estranhamento resultou a afirmação de identidade por parte desses grupos, através da exaltação dos seus predicados mais estimados, como a disciplina e o trabalho (NEUMANN, 2003; WEBER, 2002). Como Hobsbawm (1990) coloca, em relação a comunidades fora do seu meio original, isso parece ser um comportamento recorrente em

35 Para esta impressão, contribuiu bastante a relação de Martins com o líder germânico Karl von Koseritz. Sobre

culturas que se veem na contingência de entrar em contato com outras que lhe parecem refratárias e que levam, portanto, à reafirmação da cultura original.

Uma derivação dessa contínua reafirmação, contudo, no intuito de mostrar o sincero desejo de integração, foi a concepção da teuto-brasilidade, defendida por Karl von Koseritz, ainda no tempo da Assembleia Legislativa Provincial, na década de 1880 (MOTTER, 1998). Algo que seria um meio-termo para a afetividade: o amor à tradição de onde se veio e o amor à terra na qual se vive. O trecho extraído do trabalho de Ana Motter é bastante eloquente para ilustrar claramente o objetivo do pensamento de Koseritz.

A insistência de koseritz para a naturalização e participação política dos imigrantes alemães e seus descendentes tinha uma relação direta com o conceito de teuto- brasileirismo defendido por ele. Para Koseritz, os imigrantes alemães e seus descendentes deveriam integrar-se ao Brasil através da política, lutar e participar do desenvolvimento da pátria que tinham escolhido e na qual seus filhos haviam nascido. Porém, deveriam manter a língua e os costumes alemães (1998, pp. 59-60).

Ele era absolutamente enfático na desvinculação com relação ao império alemão, além do que, não simpatizava com a visita de alemães, que vinham observar a vida dos imigrantes e descendentes. No entanto, é importante ressaltar que ele concebia como fundamental a participação da sua etnia na construção do Brasil, porque seriam portadores de uma qualidade, mas que somente poderia continuar existindo a partir da preservação da cultura que fazia o indivíduo germânico ser diligente e trabalhador.

Esse pensamento estava fora de sintonia com a sua época. A muito custo ele poderia ser considerado sincero, naquele contexto no qual a acentuada rivalidade nacional surtia influência sobre a intelectualidade europeia que aqui no Brasil se seguia.

Na década de 1870, a elite política brasileira estava muito aberta às discussões e aos escritos da França e da Inglaterra (ALONSO, 2002). A juventude acadêmica, em oposição aos princípios de política que haviam orientado os seus pais, manifestaram uma tendência de rompimento com os princípios da monarquia constitucional da geração anterior. Como Skidmore (1976) comenta, os homens de letras brasileiros liam acriticamente, e sem grandes referenciais teóricos, para poderem discutir as tendências da Europa. Angela Alonso (2002) afirma que a produção do período não formava uma linha de orientação coesa, que pudesse de fato qualificá-la como uma escola, contudo, as leituras políticas continuavam a gravitar em torno dos dois países citados. Lúcia Lippi Oliveira (1990) menciona que, da passagem do

século XIX para o XX, predominou o intuito, entre os consumidores de literatura política, científica e social, de integrar o Brasil à civilização ocidental.

No horizonte, deve ser mantido à vista a questão do negro. O mesmo não tivera garantido um lugar digno na sociedade e havia inquietação sobre isto, como se percebe a partir dos estudos de Fabrício Maciel (2007), de Francisco Weffort (2006) e de Thomas Skidmore (1976). De fato, haveria de ser uma questão delicada que, somada ao discurso científico racial que encontrava respaldo, faria aumentar a fragilidade da identidade do brasileiro, quando confrontada à do alemão. Então, seria compreensível o ceticismo em relação ao pensamento desenvolvido por Koseritz. O pensamento francês, marcado pela humilhante derrota militar para a Prússia, em 1870, encontrou em nomes como os de Renan e de Taine, um contundente veículo de expressão, no qual, além de ratificar a existência de raças superiores e inferiores, tinha no primeiro autor a ideia de nação eletiva (subjetiva). Estimulando a rivalidade com o vizinho, ele partia da vontade do indivíduo como fator predominante, em oposição ao princípio étnico-cultural (objetivo), expresso como sendo eminentemente alemão e marcado pela origem, pela religião e pelos hábitos (OLIVEIRA, 1990; PAULA, 2008; RICUPERO, 2004; SMITH, 2004). Koseritz, ao defender a existência de um elemento chamado teuto-brasileiro, colocara-se numa posição que ia além da capacidade da sua época. Ele cometeu um atentado à compreensão dos homens de seu tempo, ao afirmar que a eleição da nação seria uma decorrência da preservação e da oxigenação de uma cultura de origem externa. Ou seja, ele disse que para ser um bom brasileiro, primeiramente, dever-se-ia ser um bom germânico, e, só então, seria possível optar por ser brasileiro. Isso seria uma excrescência, dada a lógica francesa (mais admirada no Brasil) de fazer crer que o apelo cívico calava mais à alma do que a origem. Colocá-la em segundo plano seria continuar aceitando a concepção alemã de nação, portanto, Koseritz não poderia ser visto como sincero defensor da assimilação ao Brasil. Dessa perspectiva conceitual, é

razoável falar na existência de um “perigo alemão”. Somente o absoluto, e sincero, desejo de

assimilação poderia ser considerado.

Comprova essa incredulidade o caso envolvendo a Sociedade Leopoldina, da cidade de Porto Alegre. A mesma recebeu o nome da esposa do imperador Pedro I, que era da família dos Habsburgo, e que ajudou a promover a colonização do Brasil por imigrantes. Pois, em 1881, essa sociedade foi alvo de ataques do jornal A Reforma, que o acusava de agir de forma preconceituosa em relação aos não-germânicos, embora os aceitasse como mensalistas (MAZERON, 1943).

É possível compreender, a partir dessas informações, que a impressão recorrente entre os gaúchos, assim como entre os brasileiros, a respeito da Alemanha, e dos indivíduos oriundos da cultura daquela terra, era pouco afeita a elogios. Uma tendência acentuada durante o reinado do Kaiser Guilherme II.

1.5 A ALEMANHA NA VISÃO DA IMPRENSA PORTO-