Aí está um traço típico de Grieco: assim como é um absen- teísta em literatura (afirmação que poderá parecer estranha, em se tratando de tal polemista — mas faço-a para significar que ele não adere a nenhuma corrente literária, não toma uma posição
dentro do Modernismo, é um “independente” como tantos eclé- ticos gostam de dizer de si mesmos), assim como se caracteriza por seu distanciamento das vanguardas da época, assim também — e em plano muito mais marcado — é um absenteísta em po- lítica. Em artigo publicado no Boletim de Ariel define-se como “um animal a-político”22; em outro texto refere-se nesses termos à atividade política nacional:
“Ainda depois disso a política empolgou-o, empolgou-o a virago hedionda que tem petrificado e cretinizado tanta gente boa do Brasil. Mas o nosso Abner não se mineralizou, não se embruteceu em contato com tantos oradores e legisladores de borra, Demóstenes ainda com muitos calhaus na dicção e Ro- bespierres infelizmente sem cadafalso.”23
Essas observações, mais semelhantes às opiniões de um membro conspícuo da classe média que às convicções de um in- telectual atuante na vida literária do país, revelam bem uma ide- ologia reacionária. Agripino, na verdade, jamais pensou detida- mente em política. Os conceitos que emite sobre a Revolução Francesa — e os dá a sério — são risíveis: os revolucionários são “charcuteiros com pretensões a legisladores”, ou “demagogos que nada compreendiam das instituições políticas” e “traíam um ódio incontido à superioridade, a qualquer gênero de superiori- dade”.24 Seus comentários ao livro Ensaios brasileiros, de Azeve- do Amaral, são fraquíssimos, feitos no nível saudosista de quem nada entendeu da revolução industrial e anseia pelo “espírito
22 Idem, “De uma entrevista comigo mesmo”, BA, ano III, nº 2, novembro de 1933, p. 41.
23 Idem, “Um jornalista”, BA, ano III, nº 3, dezembro de 1933, p. 60. 24 Idem, “Camille e Lucille Desmoulins”, in O Jornal, 26/05/1929.
cristãmente fraternal da Idade Média”.25 Mais absurdas são as opiniões sobre a educação, espantosamente grosseiras. Transcre- vamos um trecho, onde Agripino combate a democracia e a de- mocratização da cultura:
“Muito mais apreciável foi o resultado obtido nos tem- pos em que a cultura era o privilégio de uma élite, tempos em que apareceram exatamente os pensadores e os poetas mais ca- racterísticos de todo um povo, os Alighieri, os Camões e os Des- cartes, sendo que os próprios filhos da plebe, quando se cha- mavam Shakespeare ou Boileau, sabiam ingressar sem esforço no templo da Glória.”26
Coisas assim deixam de ser engraçadas se nos lembrarmos de que foram escritas por um homem que era publicado e lido em um dos nossos maiores jornais.
Agripino jamais se entregou à ação política, jamais perten- ceu às fileiras ativas da direita. Chegou a censurar Plínio Salga- do e a aconselhá-lo a abandonar, em seus romances, as preocupa- ções com a “juventude civil e militar” do país.27 Um pouco an- tes da guerra, já se ria das farsas pomposas do fascismo. Mas de- clarações como esta o situam irremediavelmente à direita, pois tal concepção elitista da educação não deixa de ser política só por seu autor se definir como apolítico.
Nessa definição, portanto, Agripino também se enganava: assim como sua desejada independência das escolas literárias e seu propósito de crítica impressionista mascaram na verdade uma adesão ao ecletismo pré-modernista e um desejo de fazer
25 Idem, “Ensaios brasileiros”, in O Jornal, 15/03/1931. 26 Idem, Vivos e mortos, p. 75.
literatura em vez criticá-la, assim também seu absenteísmo po- lítico apenas oculta (revela) a alienação e o desligamento da pro- blemática social.
E nesse ponto mais uma vez se distancia do Modernismo. Das duas correntes políticas em que o movimento cindiu-se na década de 30 irradiava — certa ou errada — uma vontade de par- ticipação na vida nacional que vinha revelar — mais uma vez na história de nossa literatura — seu caráter empenhado e seu de- sejo de contribuir para a formação do país. Esquerda e direita mo- dernistas assumiram durante o longo período da ditadura uma consciência da nação e de seus problemas e trataram de procurar a origem dos males em nossas raízes. Agripino parece nada ter compreendido dessa necessidade, como se pode inferir por suas declarações a Homero Senna:
“Além do mais, o movimento modernista de certa ma- neira fracassou, pois pretendendo ser uma revolução contra o passado, determinou esse surto prodigioso de estudos históri- cos que aí vemos. Há um enorme interesse do público pelas biografias, pelos ensaios de interpretação da nossa evolução política, pelos livros de memórias. Ora, um dos postulados do Modernismo era exatamente o combate à Tradição. Produziu, portanto, efeito contrário.”28
A confusão entre História e Tradição não pertence só a ele, naturalmente. Pode-se mesmo dizer que a essência do conserva- dorismo é essa incompreensão da dialética dos fatos: a direita do Modernismo procurou em nossa História exatamente o que era apenas Tradição. Agripino, portanto, encontra-se aqui numa si- tuação curiosa: demonstrando cair na mesma confusão da direi-
ta, identifica-se a ela; mas recusando explicitamente essa pesquisa e adoção do tradicional, recusa-se também a endossar as posições direitistas. De qualquer maneira, entretanto, seu erro não está aí. Seu erro fundamental está em não ter percebido que o Moder- nismo não era apenas uma “revolução contra o passado”, desli- gado da continuidade da vida histórica, mas era também a ten- tativa profunda de encontrar uma linguagem adequada à expres- são e à modernização da vida nacional.
Por que Grieco não conseguiu alcançar esse significado? Po- demos levantar aqui a hipótese que nos dará a união entre os três aspectos de sua obra que viemos examinando: sua concepção de crítica literária, suas idéias políticas e sua posição face ao Moder- nismo. Com efeito, vemos agora que os três fatores estão interli- gados e se ajustam como peças do mesmo jogo: impressionismo crítico, descompromisso com a vanguarda modernista e aliena- ção política são aspectos simétricos e complementares de uma mesma atitude face à literatura, a atitude que reduz a obra de arte às flores de um jardim, que vê no exercício da crítica um passeio epicurista e uma simples conversa amável de homens cultos. Esse alheamento à função social da literatura é ainda, por outro lado, reflexo da alienação política, e acaba por resultar no mau enten- dimento do sentido profundo que teve a revolução literária rea- lizada pelo Modernismo.