3. FAMÍLIA, ALIENAÇÃO PARENTAL E VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: uma
3.2 A ALIENAÇÃO PARENTAL: complexidades e desafios
Conforme o art. 2º da Lei 12.318/10, alienação parental é o ato praticado por um/a dos/as genitores/as, pelos/as avós ou pelos/as responsáveis pela criança ou adolescente, com o intuito de prejudicar a manutenção do vínculo entre genitor/a e filho/a ou que busque a induzir a criança ou adolescente a repudiar o/a genitor/a. Dessa forma, tal manipulação projeta na criança e adolescente, malefícios psicológicos e sociais, que poderão causar-lhes medos, dúvidas, isolamentos, rancores, inseguranças, aversões, enfim, sentimentos que atuarão ativamente na obstrução do contato do/a filho/a com o outro ascendente. Assim, a alienação parental prejudica o direito da criança/adolescente à convivência familiar e comunitária, inerente ao seu desenvolvimento biopsicossocial saudável, conforme preconiza o
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Isto posto, se faz mister apresentar uma breve contextualização da Lei 12.318/10, compreender o seu surgimento, o conteúdo, as consequências causadas pela alienação parental e as medidas judiciais estabelecidas ao/a agente alienador/a, como forma de reação do Estado, face aos possíveis danos que o ato alienador poderá causar às vítimas. Ressalte-se que a denominação alienação parental e os estudos sobre o assunto são bastante recentes, o que demonstra que, até recentemente, a sociedade tinha como “norma” que em caso de separação, os filhos ficariam com a mãe, exceto quando se tratava de caso de traição ao marido. Isso demonstra como a lei se adequava a mentalidade patriarcal que atribuía sempre a mulher o cuidado aos filhos e, por outro lado, em casos que envolviam adultérios praticados por mulheres, estas eram penalizadas por meio da perda da guarda dos/as filhos/as, visto que cabia a tais mulheres o respeito e submissão aos companheiros, bem como, o zelo e responsabilidade pela “paz familiar”.
Em 1985, o professor e psiquiatra infantil norte americano Richard Alan Gardner, por meio de pesquisas e estudos oriundos de percepções semelhantes sobre atitudes de seus pacientes, filhos de pais que se encontravam em fase de separação ou divórcio, descobriu a Síndrome da Alienação Parental (SAP), que deu origem a expressão alienação parental, adotada no Brasil.
Ao iniciar seus estudos, Gardner (1991) imaginou que se tratava de uma manifestação de “lavagem cerebral” (brainwashing), termo utilizado pelo autor, para explicar ação consciente e planejada, conduzida pelo agente alienador, para influenciar o filho a macular a imagem do outro responsável, por meio da implantação de falsas memórias, que geram extrema rejeição e hostilidade. No entanto, ao aprofundar sua pesquisa, Gardner concluiu que não se tratava simplesmente de uma “lavagem cerebral”, visto que produzia danos e distúrbios emocionais no quadro de saúde da criança ou do adolescente, que comprometia o seu desenvolvimento saudável, visto que os danos provocados pela alienação parental recaem sobre a saúde emocional da vítima, provocando efeitos devastadores, tais como:
Vida polarizada e sem nuances; depressão crônica; doenças psicossomáticas; ansiedade ou nervosismo sem razão aparente; transtornos de identidade ou de imagem; dificuldade de adaptação em ambiente psicossocial normal; insegurança; baixa autoestima; sentimento de rejeição, isolamento e mal estar; falta de organização mental; comportamento hostil ou agressivo; transtornos de conduta;
inclinação para o uso abusivo de álcool e drogas e para o suicídio; dificuldade no estabelecimento de relações interpessoais, por ter sido traído e usado pela pessoa que mais confiava; sentimento incontrolável de culpa, por ter sido cúmplice inconsciente das injustiças praticadas contra o genitor alienado (VIEIRA e BOTTA, 2013, p.07).
Dada a gravidade das consequências e visando a proteção da dignidade da criança e do adolescente, bem como a preservação dos seus laços familiares, surgiram, no Brasil várias discussões e debates sobre o assunto, datados por estudiosos, a partir dos anos 2002. Ressalta-se, portanto, que apesar da prática do referido ato ser antiga no país, a denominação alienação parental e os estudos sobre o assunto são bastante atuais. Após longos debates, no dia 26 de agosto de 2010, foi aprovada a Lei nº 12.318/2010, que dispõe sobre alienação parental e conceitua o referido ato da seguinte forma:
Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este (BRASIL, Lei nº 12.318/2010, art. 2º).
Diante do exposto, a aludida lei apresenta os principais tipos de alienação parental, objetivando facilitar a caracterização do ato e, por conseguinte, agilizar as medidas para o trâmite processual, dada gravidade dos danos que poderá ocasionar as crianças e adolescentes, bem como, ao/a genitor/a vítima da aludida alienação. Segundo a lei 12.318/2010, os atos que podem caracterizar a alienação parental são39:
I - realizar campanha de desqualificação da conduta do genitor no exercício da paternidade ou maternidade; II - dificultar o exercício da autoridade parental; III - dificultar contato de criança ou adolescente com genitor; IV - dificultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar; V - omitir deliberadamente a genitor informações pessoais relevantes sobre a criança ou adolescente, inclusive escolares, médicas e alterações de endereço; VI - apresentar falsa denúncia contra genitor, contra familiares deste ou contra avós, para obstar ou dificultar a convivência deles com a criança ou adolescente; VII - mudar o domicílio para local distante, sem justificativa, visando a dificultar a convivência da criança ou
39 Entretanto, é importante ressaltar que outros atos declarados pelo juiz ou constatados por perícia, também poderão evidenciar a alienação parental.
adolescente com o outro genitor, com familiares deste ou com avós. (BRASIL, Lei nº 12.318/2010, Parágrafo único).
Percebe-se, portanto, que além do abuso moral e psicológico contra a criança ou o adolescente, a alienação parental viola diversos direitos, a exemplo do acesso a convivência familiar. Assim, diante da gravidade dos atos alienadores - que produzem graves efeitos na vida das partes envolvidas - a Lei nº 12.318/2010 estabelece que o processo alusivo ao indício de ato de alienação parental, deverá tramitar com prioridade, cabendo ao juiz celeridade na aplicação das medidas provisórias necessárias. Para tanto, caso necessário, o juiz determinará perícia psicológica, social e/ou psiquiátrica, a ser apresentada no prazo de 90 (noventa) dias, prorrogável exclusivamente por autorização judicial baseada em justificativa circunstanciada.
A equipe interprofissional apresenta neste contexto primordial importância. Assistentes Sociais, Psicólogos/as e Psiquiatras, subsidiarão a decisão judicial, a partir de uma perícia40 do caso fático. Diante do exposto, caso sejam identificados atos típicos de alienação parental ou conduta que dificulte a convivência de criança ou adolescente com genitor/a, o/a juiz/a poderá determinar medidas punitivas aos agentes alienadores, por meio de sanções aplicadas conforme o nível de gravidade do ato lesivo alienante. Para tanto, o artigo 6º da Lei de Alienação Parental estabelece os meios de repressão, em face da peculiaridade de cada situação fática apresentada.
I - declarar a ocorrência de alienação parental e advertir o alienador; II - ampliar o regime de convivência familiar em favor do genitor alienado; III - estipular multa ao alienador; IV - determinar acompanhamento psicológico e/ou biopsicossocial; V - determinar a alteração da guarda para guarda compartilhada ou sua inversão; VI - determinar a fixação cautelar do domicílio da criança ou adolescente; VII - declarar a suspensão da autoridade parental. (BRASIL, Lei nº 12.318/2010, art. 6º).
Percebe-se, portanto, que as medidas judiciais vão desde uma simples advertência à suspensão da autoridade parental. Tais medidas são aplicadas conforme cada caso específico, de forma cumulativa ou não. Desse modo, o inciso I, art. 6º da Lei nº 12.318/2010 estabelece que o/a juiz/a poderá “declarar a ocorrência de alienação parental e advertir o alienador”. Neste caso, o aludido ato praticado pelo
40 “A perícia, no âmbito do judiciário, diz respeito a uma avaliação, exame ou vistoria, solicitada ou determinada sempre que a situação exigir um parecer técnico ou cientifico de uma determinada área do conhecimento, que contribua para o juiz formar a sua convicção para a tomada de decisão.” (FÁVERO, 2006, p. 43).
magistrado geralmente esclarece ao agente alienador sobre os malefícios causados pela alienação parental, orienta acerca das possíveis consequências, com ênfase à vida e saúde da criança e do adolescente e apresenta os meios punitivos, inclusive a possibilidade da perda da guarda, nos casos em que o alienador seja o guardião.
Antes da Lei 13.058/ 2014, a decisão judicial comum era a guarda unilateral, atribuída a um só dos genitores ou a alguém que o substituísse, cabendo ao juiz adjudicá-la ao genitor que possuísse melhores condições de proteger os direitos da criança e do adolescente. Em 22 de dezembro de 2014, passou a vigorar a Lei 13.058, que alterou os artigos 1.583, 1.584, 1.585 e 1.634 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), para estabelecer o significado da expressão “guarda compartilhada” e dispor sobre sua aplicação. Assim, a guarda compartilhada passou a ser regra, descartada apenas em casos excepcionais.
Neste sentido, a lei 13.058/2014 busca garantir a convivência da criança/adolescente com ambos os genitores, o que também minimiza atos de alienação parental. Entretanto, a guarda compartilhada não é obrigatória; o/a juiz/a levará em consideração os aspectos de cada caso para decidir a forma mais adequada, principalmente se houver interesse comum entre os genitores pela guarda unilateral.
A própria Constituição Federal, em seu art. 227, assegura aos filhos o direito à convivência familiar e comunitária, evidenciando a importância do instituto da guarda em preservar os laços parentais, de modo que aquele que não ficar com a guarda do/a filho/a terá garantido o direito à convivência com a prole, através do chamado “direito de visitas”. Todavia, nos casos em que houver iminente risco de prejuízo à integridade física ou psicológica da criança ou do adolescente, atestado por profissional, será assegurado à criança ou adolescente e ao/a genitor/a, garantia mínima de visitação assistida, por profissional eventualmente designado pelo juiz para acompanhamento das visitas, conforme parágrafo único da Lei nº 12.318/2010. Dessa forma, busca-se garantir o princípio do melhor interesse da criança.
Para tanto, a Lei 12.318/2010, também estabelece punições ao/a agente alienador/a, como forma de reação do Estado, perante a ilicitude de um ato cruel, que demanda repressões céleres, face aos possíveis danos que poderá causar às vítimas. Contudo, apesar de considerarmos a Lei um avanço no que diz respeito à preocupação com o bem estar da criança, há uma série de dificuldades na implementação cotidiana da referida Lei, desde um judiciário moroso, sobrecarregado com processos, falta de concursos para técnicos peritos, além das situações
particulares (que envolve abuso sexual, violência, relações patriarcais, heterossexismo, entre outros problemas que podem alicerçar atos de alienação parental) que a Lei não consegue prever.
Além do exposto, muitos estudiosos do assunto apontam o genitor e os/as filhos como vítimas da alienação parental e acusam a genitora, comumente guardiã dos infantes, como alienadora, fato que generaliza posicionamentos e subsidia decisões judiciais injustas. É preciso quebrar rótulos generalistas, bem como, considerar que muitos homens, alienam em razão diversos motivos, inclusive, como forma de atingir a mulher que rompeu com uma relação com a qual ela não estava mais satisfeita41. Nesses casos, o homem, agente alienador, encontra na alienação a forma de continuar punindo a mulher que não deseja continuar na relação, conforme veremos a seguir.
3.3 A violência contra a mulher na perspectiva crítica ao patriarcado e ao