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Capitulo 02 A MODERNIZAÇÃO DO ESPAÇO RURAL E A RURALIDADE: outros

2.3 Rural e ruralidades: múltiplos olhares

2.3.5 A alma do lugar, os modos de vida e a ruralidade edílica

De que me adianta viver na cidade Se a felicidade não me acompanhar Adeus, paulistinha do meu coração Lá pro meu sertão, eu quero voltar Ver a madrugada, quando a passarada Fazendo alvorada, começa a cantar[...] Que saudade imensa do Campo e do mato Do manso regato Adeus Paulistinha PEREZ, João Salvador; PEREZ, José Salvador.

Na terceira análise sobre a ruralidade que será elencada neste trabalho, levanta-se a reflexão acerca da “alma” rural e suas ambiências. Na música dos autores Tonico e Tinoco, nas entrelinhas da canção surge uma ruralidade poética e um sentimento edílico de um campo intocado.

A ideia de analisar a alma do lugar e a ruralidade vem à tona na denominação criada pelo Professor Eduardo Abdo Yázigi em seu livro: A alma do Lugar: turismo, planejamento e cotidiano em litorais e montanhas. Percebe- se que grande parte daquilo que o autor discute na obra supracitada engloba em grande parte a ideia de ruralidade, afinal, esta é criada a partir de características especificas do lugar e de seus habitantes: são estes os verdadeiros “compositores” da ruralidade.

Destaca-se que existe na sociedade moderna uma visão quase lírica deste espaço, o qual é percebido pela ausência do urbano, pelo silêncio, o possível contato com a natureza e modo de vida dito simples. Todos estes olhares são lançados pelos citadinos, mas também emergem da população que reside no espaço rural.

Assim, uma das grandes questões que devem ser analisadas nos estudos sobre a ruralidade diz respeito a compreender a escala do lugar como espaço de solidariedade. O autor Júlio César Suzuki (2013, p. 633) ressalta que os modos de vida se constituem pelos grupos sociais que criam materialidades e

imaterialidades espaciais, apropriando-se deste, criando praticas territoriais a partir do caminhar histórico do mundo.

Torna-se essencial compreender a conectividade do lugar vinculado ao global, afinal o mesmo está em consonância com o espaço de vida, o cotidiano, as identidades construídas e as próprias mudanças que estes atores estão inseridos e submetidos. Contudo, a medida que estes sujeitos históricos são transformados pela lógica global, ao mesmo tempo, modificam a mesma.

Cada lugar é aqui definido pela sua própria história, ou seja, pela soma das influencias acumuladas, provenientes do passado, e dos resultados daquelas que mantem maior relação com as forças do presente. (SANTOS, 2012, p. 112)

Este lugar, representado pela construção histórica do grupo social, firmado pela identidade materializada no espaço, é fruto de relações construídas com o passar das décadas, ou até mesmo séculos, que se reinventam diariamente a partir das ações no espaço.

Nesta visão, esse processo, ao invés de diluir as diferenças, pode propiciar o reforço de identidades apoiadas no pertencimento a uma localidade. Essa âncora territorial seria a base sobre a qual a cultura realizaria a interação entre o rural e o urbano de um modo determinado, ou seja, mantendo uma lógica própria que lhe garantiria a manutenção de uma identidade. (CARNEIRO, 1997, p. 59)

Compreende-se, assim, na atual discussão da ruralidade que o lugar, por mais que o processo de globalização use o discurso da homogeneização, representa a unicidade de cada porção espacial, aparecendo inclusive como uma resistência. O autor Milton Santos (2006, p. 213) ressalta que “cada lugar é, à sua maneira o mundo, criando e recriando resistências ao movimento global. Maria Adélia de Souza (1995, p. 65) nos lembra que quando maior é a “globalidade” maior a individualidade.

O lugar então tende a ressaltar a singularidade, demonstrando a heterogeneidade do espaço. Como destaca Milton Santos, “Os lugares, desse ponto de vida, podem ser vistos como um intermédio entre o Mundo e o Indivíduo. (SANTOS, 2006, p. 212).

No lugar - um cotidiano compartido entre as mais diversas pessoas, firmas e instituições - cooperação e conflito são a base da vida em comum. Porque cada qual exerce uma ação própria, a vida social se

individualiza; e porque a contiguidade é criadora de comunhão, a política se territorializa, com o confronto entre organização e espontaneidade. O lugar é o quadro de uma referência pragmática ao mundo, do qual lhe vêm solicitações e ordens precisas de ações condicionadas, mas é também o teatro insubstituível das paixões humanas, responsáveis, através da ação comunicativa, pelas mais diversas manifestações da espontaneidade e da criatividade. (SANTOS, 2006, p. 218)

É no lugar que o modo de vida rural se cria e reinventa-se cotidianamente, tendo como suporte o espaço vivido, símbolo das relações sociais cristalizadas no tempo. A alma do lugar no espaço rural cria a própria lógica da ruralidade, não pautada na grande propriedade agrícola moderna e exportadora, mas sim no modo de vida tradicional do rural. Eduardo Abdo Yázigi (2011, p. 43) destaca que os sotaques na língua falada, uma culinária tradicional, etc. são aspectos que temperam a vida, pois, certos traços culturais são menos suscetíveis a globalização, mesmo não sendo intocados.

Esta alma criada com o caminhar dos anos sofreu e sofre diariamente incursões que tendem a modificá-la, ou até mesmo extingui-la. Contudo, existe o movimento no qual tradições são mantidas, e, muitas vezes, são estas que dão o suporte necessário para a continuação do rural. Esta continuidade representa um movimento de resistência hoje usado como atrativo turístico.

Para finalizar, defendemos que não podemos entender a ruralidade hoje somente a partir da penetração do mundo urbano-industrial neste espaço. Na atualidade o rural cria e recria uma série de símbolos que configuram práticas culturais que são reconhecidas como sendo próprias do chamado mundo rural. Nesse sentido, olhar além das fronteiras estabelecidas até então entre o rural e o urbano é essencial. Devemos redefinir as fronteiras entre o “campo” e a “cidade”, ou, até mesmo, derrubar estas barreiras e criar uma nova forma de olhar este como um continuum (CARNEIRO, 1997, p. 59).

Assim, devido a emergência destes múltiplos olhares sobre o rural é que se procura, no próximo capitulo, realizar uma reconstituição histórica-geográfica acerca da ocupação e formação da identidade territorial de um dos principais roteiros de turismo rural do Brasil: o Vale dos Vinhedos, localizado no Rio Grande do Sul. Busca-se, além disso, a partir do supracitado roteiro perceber a estruturação do mesmo e as perspectivas de sua organização para uma discussão e análise a posteriori do turismo rural no Brasil.