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Diz Tomás de Aquino:

Quanto mais perfeita uma forma é, mais ela extrapassa a matéria corpórea. Isto se torna claro desde a indução em que se consideram as várias ordens de formas. A forma de um elemento não tem mais operações que a que as realiza mediante as qualidades ativas e passivas, que são disposições da matéria corpórea. A forma do corpo mineral tem uma operação que supera as qualidades ativas e passivas [...] a alma vegetal tem uma operação com a qual as qualidades ativas e passivas orgânicas certamente contribuem, mas, para além da potência de tais qualidades, ela mesma alcança um efeito próprio, como nutrir e fazer crescer até um limite definido, e realizar coisas semelhantes. A alma sensitiva tem, além disso, uma operação para a qual só chegam as qualidades ativas e passivas na medida em que são necessárias para a composição do ógão que se emprega no exercício desta operação, como ver, ouvir, apetecer, etc.291

Nos entes viventes, ou animados, a forma substancial recebe a denominação

de “alma” (do latim: anima), que pode ser conhecida por suas potências, não sendo

287 ARISTÓTELES, 2005, L. V, 1022b, p. 245. 288 Id., 1965, p. 20. 289 Id., 2005, L. V, 1022b, p. 247. 290 Id., 1965, p. 20.

291 “[...] quod quanto aliqua forma est perfectior, tanto magis supergreditur materiam corporalem; quod patet inducenti in diversis formarum ordinibus. Forma enim elementi non habet aliquam operationem nisi quae fit per qualitates activas et passivas; quae sunt dispositiones materiae corporalis. Forma autem corporis mineralis habet aliquam operationem excedentem qualitates activas et passivas [...]. Ulterius autem anima vegetabilis habet operationem, cui quidem deserviunt qualitates activae et passivae organicae; sed tamen supra posse huiusmodi qualitatum, ipsa effectum proprium sortitur nutriendo et augendo usque ad determinatum terminum, et alia huiusmodi complendo. Anima autem sensitiva ulterius habet operationem, ad quam nullo modo se extendunt qualitates activae et passivae, nisi quatenus exiguntur ad compositionem organi per quod talis operatio exercetur, ut videre, audire, apetere et huiusmodi”. TOMÁS DE AQUINO, 1949, Q. 2, R., p. 35-36.

estas nem partes suas essenciais ou integrais, mas potenciais.

292

Partes, diga-se,

que são separáveis apenas conceptualmente, e não segundo o lugar (“segundo a

substância da alma ou localmente”).

293

Aristóteles define a alma como o princípio da

vida, e como o ato primeiro de um corpo natural organizado,

294

que é “enteléquia”,

ou ato, perfeição;

295

e Santo Tomás complementa: “dotado de potência para a

vida”;

296

e fá-lo também como “a forma substancial de um corpo natural organizado”,

“em sentido universal [...] uma substância segundo a forma, isto é, a quididade de

cada corpo”.

297

E a todo o corpo que dela é dotado ela vivifica, estando presente e atuando

em todas as suas partes, cada uma com potências específicas inerentes ao

composto, ou sinolo, como ato seu por inteiro, e também de cada uma de suas

partes em ordem à integralidade do mesmo corpo, as quais algumas são

perfeccionadas com maior preferência e perfeição, e outras com menos.

298

A alma

confere, naturalmente, o ser, que dos viventes é o viver,

299

e a espécie, constituindo

no corpo sua diversidade de partes – mebros, órgãos, etc. –, em conformidade com

as distintas operações que tornam necessária a constituição do corpo por partes a

elas correspondentes, caracterizando um corpo organizado, em que é em função do

todo que essas mesmas partes existem. Disto se infere que na constituição dos

entes animados a propriedade teleológica é mais visível que na dos inanimados.

300

O aristotelismo-tomismo faz distinção entre movimento e operação. O

Aquinate define o primeiro como “o ato de um ente imperfeito”, e o segundo como “o

ato de um ente perfeito”.

301

Explica também que a alma move tanto a si mesma

como é movida por acidente, ou seja, quando é movida pelo corpo em que está,

302

e

é movida “pelos sensíveis, na sensação, e pelos bens desejados, na afecção”,

303

292

TOMÁS DE AQUINO, 2012, Q. XIX, p. 389.

293 Id., 2009, p. 53. 294 ARISTÓTELES, 2010, II, 1, p. 61-62. 295 REALE; ANTISERI, 2003, p. 212.

296 “[...] doté em puissance de la vie”. TOMÁS DE AQUINO, 2000, II, l. 1, 233.

297

Id., 2009, p. 47.

298

Id., 1949, Q. 4, S.C. II e IV, p. 71; Ibid., Q. 4, R. 3, p. 75 e R. 8, p. 76.

299

Ibid., Q. 1, S.C. IV, p. 10.

300

Id., 2012, Q. X, p. 221 e 225; Id., 2000, II, l. 1, 230.

301 Respectivamente, “l'acte d'un être imparfait” e “l'acte d'un être parfait”. Id., 2000, I, l. 6, 111.

302

Ibid., I. l. 8, 145.

303 “[...] par les sensibles dans la sensation, et par les biens désirables dans l’affection”. Ibid., I, l. 6, 84.

sendo ela a causa do movimento e do repouso nos animais.

304

Assim, distingue-se

um ente vivo de um não vivo pelo movimento, uma vez que este precisa

necessariamente da ação de um princípio exterior para mover-se.

305

As almas nos viventes distinguem-se segundo o modo como suas operações

superam as respectivas naturezas corpóreas, que é diretamente proporcional ao

domínio que cada alma exerce sobre a matéria corporal, e inversamente

proporcional ao grau de imersão nesta. Tais operações se dão conforme as

potências inerentes à alma – e diz o Aquinate que se considera vivente tudo o que

possui uma destas operações da alma

306

–, cujos gêneros, segundo o

aristotelismo-tomismo, são: a vegetativa, a sensitiva, a intelectiva ou racional (que, diferentemente

das duas anteriores, que inerem no composto como propriedades naturais – e ainda

que tenham o composto como sujeito, têm a alma como princípio –, inere

diretamente na alma),

307

a apetitiva, a locomotora ou motriz e a nutriz.

308

As três

primeiras determinam as classes dos entes, os graus das potências na alma,

enquanto que a apetitiva e a nutriz encontram-se nas três classes definidas pelas

três anteriores, e a motriz não é geralmente encontrada nos entes de classe

vegetativa.

309

Segundo a inclinação natural própria, ou apetite natural, procedente de cada

tipo de forma natural, e da qual segue determinada operação ou determinado

conjunto de operações, o aristotelismo-tomismo enquadra cinco dos seis gêneros

acima, excluindo aqui a potência nutriz;

310

e ainda, segundo o grau dos viventes,

exclui também a apetitiva, estabelecendo quatro como o número de gêneros para

esta classificação.

311

As potências da alma distinguem-se, assim, por seus diferentes objetos. Isto

porque, como explica o Aquinate,

[...] se os atos são de potências passivas, seus objetos são ativos, e se os atos são de potências ativas, seus objetos são como fins. Mas é segundo ambos que se considera a espécie da operação [...] e também ambos estão

304 TOMÁS DE AQUINO, 2000, I, l. 6, 89. 305 Ibid., II. l. 1, 219. 306 Id., 2009, p. 51. 307 Id., 2012, Q. XIX, p. 389. 308 Id., 2000, I, l. 14, 201. 309

Id., 2001, Q. 78 a. 1, p. 713; ARISTÓTELES, 2010, II, passim. TOMÁS DE AQUINO, 2000, II, l. 3, passim.

310

TOMÁS DE AQUINO, 2000, II, l. 5, 279, 286.

311

determinados a fins semelhantes, pois o agente age de modo a induzir em outro sua própria semelhança.312

Deste modo, conhecer e sentir são operações da alma quanto aos sentidos, e

pensar é operação quanto à inteligência.

Estabelece-se, portanto, que todo e qualquer ente corpóreo enquadra-se em

alguma destas classes, que seguem um esquema ascendente segundo o grau de

perfeição natural: a dos corpos sem vida (os elementos e, em seguida, os mistos), a

vegetativa (as plantas, cujo corpo é animado com princípio vital), a sensitiva

(potência sensitiva acrescida à vegetativa, o que caracteriza os animais

propriamente ditos) e a intelectiva (que é acrescida às anteriores, o que caracteriza

o homem), de modo gradativo, incluindo os agentes constitutivos de outros entes

(células, partículas atômicas, etc.).

Explica Tomás de Aquino que:

[...] em cada um dos gêneros há diversas espécies segundo os diversos graus de perfeição natural. No caso dos corpos simples, a terra ocupa o grau ínfimo, e o fogo o mais nobre. No caso dos minerais, a natureza avança gradualmente através de suas diversas espécies, até culminar no ouro.

Nos minerais que estão mais próximos dos elementos, há menos harmonia, o

que lhes confere maior durabilidade.

Já a vegetativa, cujo objeto é o corpo, é caracterizada por três operações: a

generativa, a aumentativa e a nutritiva, pelas quais recebe o ser, se desenvolve e se

conserva, respectivamente.

Prossegue Santo Tomás:

Também nas plantas, até culminar nas espécies das árvores perfeitas, e, nos animais, até culminar no homem – embora alguns animais sejam muito próximos das plantas, como os imóveis, que só possuem tato. De modo semelhante, certas plantas são muito próximas dos entes inanimados.313

E, da mesma forma, certos animais exibem características muito próximas às

de entes vegetais, como o caso dos animais cujas partes sobrevivem após secção,

algo que não se dá de modo algum nos animais ditos “superiores”.

314

312

TOMÁS DE AQUINO, 2012, Q. XIV, p. 269.

313

Ibid., Q. VII, p. 151.

314

O Aquinate, assim como Aristóteles, atribui isto ao fato de a alma desses animais não ser diversificada em suas partes, e acrescenta que cada “parte retém a disposição mediante a qual o

O princípio sensitivo nos vegetais é a própria alma, ao passo que nos animais

e nos humanos, ele é parte da alma.

315

Algumas operações da alma se dão no todo,

e estas se atualizam em qualquer uma das partes; outras em locais específicos.

316

Quanto mais perfeita é a forma, quanto maior sua virtude, mais operações, e em

maior diversidade, não só destas, como também de partes diferenciadas, ela terá,

do que se infere que enquanto as formas inferiores perfeccionam uniformemente, a

alma não o faz. O homem, assim, é o ente com maior número de operações e de

partes diferenciadas.

317

É segundo a operação e o movimento que o corpo se une à alma, por suas

partes superiores.

318

O corpo é movido voluntariamente pela alma através do apetite

e da apreensão. No homem, ambos os movimentos se dão pela parte intelectiva e

pela parte sensitiva, sendo que aquela move o corpo mediante o que pertence a

esta, uma vez que o movimento é do singular.

319

Explica o Aquinate, “a alma dá ao animal não só o que é próprio dele, mas

também o que pertence às formas inferiores”, e, sendo assim, do mesmo modo que

“as formas inferiores são princípios de movimento natural nos corpos naturais, assim

é a alma no corpo animal”.

Divide ele então as operações da alma em “animais”, a saber, as que

“procedem da alma segundo o que lhes é próprio”; e “naturais”, que são as que

“procedem da alma na medida em que ela produz o efeito das formas naturais

inferiores”. Assim, em geral, uma parte de cada animal é motora, e outra parte é

movida, e “o corpo natural organizado está para a alma como a matéria está para a

forma”, o que se dá “a partir da própria alma”.

320

Nos corpos naturais, assim, o que determina a quantidade, o que confere os

limites de crescimento, como o de tamanho e o de largura de cada indivíduo de

corpo inteiro é perfectível pela alma”, e assim “permanece nele a alma” (TOMÁS DE AQUINO, 2012, Q. X, p. 225 e nota 247, p. 451-452; cf. Aristóteles, 2010, I, 5, p. 58), pois a mesma alma é uma em ato, mas múltipla em potência (cf. TOMÁS DE AQUINO, 2000, II, l. 4, 264). Isto se mantém em consonância com o que se sabe hoje, por exemplo, a respeito da importância da presença do cutelo para o sustento da vida na parte seccionada de anelídeos. No caso das plantas, diz Aristóteles que algumas sobrevivem após a secção em razão de a alma em cada indivíduo ser uma em ato, mas várias em potência (cf. ARISTÓTELES, 2010, II, 2, p. 65-66).

315

TOMÁS DE AQUINO, 2000, II, l. 4, 262.

316

Id., 2009, p. 51.

317

Id., 2000, I, l. 14, 208; Id., 1949, Q. 4, R., p. 72-73.

318

Se estiverem presentes as devidas disposições na matéria.

319

O intelecto apreende os universais, e só pode assim mover mediante o particular que é referente à natureza do sentido. (cf. TOMÁS DE AQUINO, 2012, Q. IX, p. 201).

320

determinada espécie, para menos e para mais, é menos a matéria do que a forma,

visto que a proporção e o fim de uma ação, no caso, o crescimento, são impostos

pelo princípio da operação relacionada.

321

E no que concerne às operações, o modo de agir na alma é fruto da ação de

um ente vivo, ou seja, que move a si mesmo, e por essa razão a ação da alma

supera a da natureza; o que não se dá, porém, necessariamente em relação ao que

é agido. Nos corpos animados e nos inanimados há o ser natural e o que para este é

requerido, mas os inanimados necessitam, para isto, de um agente extrínseco,

enquanto os animados requerem um agente intrínseco, o que é exemplificado pelas

operações às quais estão ordenadas as potências supramencionadas da alma

vegetativa, e incluam-se aqui tantos movimentos involuntários,

322

que são, pois,

virtudes naturais.

Seguindo uma ordem, a primeira potência da alma vegetativa é a virtude

nutritiva, que se ordena à conservação do ser e da espécie pela transformação e

pelo acréscimo de algo, o alimento, na substância do crescimento e da geração. E é

a virtude aumentativa, o crescimento, a segunda na ordem, pois dela o ente passa

em quantidade e virtude para uma perfeição maior, de quantidade devida, de onde

então pode expressar a terceira potência, a gerativa, que se ordena a que o

indivíduo seja posto no ser”. E se os entes inanimados recebem, além da espécie,

sua quantidade devida, sendo engendrados extrinsecamente, os entes animados

são comumente gerados de uma semente. Assim, a potência gerativa manifesta-se

mediante a aumentativa, e tanto a potência gerativa quanto a aumentativa só se dão

em razão da virtude nutritiva.

323

Prossegue Santo Tomás:

Existem, ademais, outras operações mais elevadas da alma, que transcendem as operações dos corpos naturais também quanto ao agido, na medida em que é inato à alma que nela se encontre, segundo o ser imaterial, tudo o que existe; pois a alma é em certa medida todas as coisas, na medida em que é sensitiva e intelectiva. Logo, é necessário que existam diversos graus deste mencionado ser imaterial.

E um destes graus é aquele segundo o qual as coisas se encontram na alma sem sua matéria própria, mas segundo sua singularidade e as condições individuais derivadas da matéria. E este é o nível do sentido, que é receptivo das espécies individuais sem matéria, mas receptivo em um

321

TOMÁS DE AQUINO, 2000, II, l. 8, 332.

322

Como os processos da digestão e da respiração, os batimentos cardíacos, etc.

323

TOMÁS DE AQUINO, 2012, Q. XIII, p. 271 e 283; Id., 2000, II, l. 7, 312; Ibid., II, l. 9, 340, 344 e 347.

órgão corporal. O outro grau de imaterialidade, mais alto e mais perfeito é o do intelecto, que recebe espécies completamente abstraídas da matéria e das condições materiais, e sem um órgão corporal.

E, assim como por sua forma natural a coisa possui uma inclinação para algo e se move ou age para conseguir aquilo para o qual se inclina, assim também se deve a uma forma sensível ou inteligível a inclinação para a coisa apreendida pelo sentido ou pelo intelecto, inclinação essa que

pertence à potência apetitiva. Ademais, é necessário que

consequentemente exista um movimento pelo qual se alcance a coisa desejada, e este pertence à potência motriz.324

A potência apetitiva segue-se à apreensão realizada pelos sentidos, e

divide-se em três: a potência desiderativa, ou vontade, cuja operação é o dedivide-sejar, que é o

apetite de natureza intelectual, racional; a potência concupiscível, cuja operação é o

desejar relacionado ao que é apetecível ou deleitável e conveniente aos sentidos; e

a potência irascível, ou cólera, relacionada a algo do que advém o poder de

desfrutar à vontade o que é deleitável ao sentido, como ocorre na conquista após

uma luta por algo.

325

Estas duas últimas pertencem à parte sensível e irracional, e

assim o apetite irascível é como se fosse um defensor do concupiscível. As afecções

daquele tem início e fim nas afecções deste,

326

e os atos de ambos são realizados

com passividade.

327

Enquanto que ao apetite concupiscível pertence o amor do bem, ao apetite

irascível pertencem o ódio e o medo do mal e a esperança do bem.

328

A virtude motriz, por sua vez, varia conforme a diversidade dos movimentos

ou as diferentes partes de um animal, que possuem movimentos próprios, e

enquadra-se no princípio de que “tudo o que se move é movido por outro... se

dizemos que algo se move por si próprio, isto não ocorre segundo ele mesmo, mas

segundo suas diversas partes, de modo que uma parte dele é motora e, a outra,

movida”.

329

Nas operações da alma, explica o Aquinate

330

, o movimento encontra-se de

três modos, a saber, “propriamente”, que é o que se dá no movimento de

crescimento como operação da alma vegetativa, e com o apetite sensível

relacionado ao movimento local e à alteração, como a dos humores; “menos

propriamente”, exemplificado na captação dos sensíveis, como se dá com a visão,

324

TOMÁS DE AQUINO, 2012, Q. XIII, p. 271 e 273.

325

Ibid., Q. XIII, p. 277.

326

Id., 2000, I, l. 14, 202; Ibid., II, l. 5, 288; Ibid., III, l. 14, 802.

327 Id., 1990b, L. II, c. LX, p. 274. 328 Id., 2000, III, l. 14, 806. 329 Id., 2006, p. 19. 330 Id., 2000, I, l. 10, 157-160.

em que um corpo é objeto da virtude visual, mas dele só é captada a natureza dita

espiritual, ou seja, a luz que informa a cor; e “muito pouco propriamente”, como o é o

movimento na inteligência, que se dá somente metaforicamente, ou seja, a operação

ali é ato de um ente perfeito, enquanto o movimento é sempre caracterizado por ser

ato de um ente imperfeito.

A alma ou forma substancial racional ou intelectiva, por fim, faz com que por

meio dela sejamos simultaneamente homens, animais, viventes, corpos, substâncias

e entes.

331

É primeiramente segundo a razão de forma universal e então segundo a

razão de forma especial que a matéria se perfecciona, de modo que o intelecto

primeiro identifica o ente, depois ser vivo, em seguida o ser animal, e então o ser

homem, identificando também seus acidentes próprios, que, neste sentido, se diz

que acompanham o gênero e a espécie ao qual pertencem.

332

A potência intelectiva, que será exposta após a explanação sobre os sentidos,

possui relações com a sensitiva e com a vegetativa que podem ser analisada sob

duas perspectivas, o que Tomás de Aquino explica com uma analogia:

[...] o intelecto difere das outras partes da alma pelo sujeito [...] A faculdade vegetativa e a sensitiva estão na faculdade intelectiva como o triângulo e o quadrilátero no pentágono. Além do mais, o quadrilátero é uma figura absolutamente distinta do triângulo pela espécie, mas não do triângulo que contém em potência; como o número quaternário também não se distingue do ternário que faz parte dele, mas do ternário que existe separado. E se acontecesse que diversas figuras fossem produzidas por diversos agentes, o triângulo que existe separadamente do quadrilátero teria uma causa produtora diferente da do quadrilátero, como tem também uma outra espécie; mas o triângulo que estivesse contido no quadrilátero teria a mesma causa produtora.

Assim também, por conseguinte, a faculdade vegetativa que tem uma existência à parte da sensitiva é uma outra espécie de alma, e tem uma outra causa produtora; contudo é a mesma causa que produz a faculdade sensitiva e a faculdade vegetativa que está contida na sensitiva.333