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3 UMA VISÃO SOBRE O SISTEMA DE GARANTIA DE

3.4 SISTEMA ÚNICO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL

3.4.2 Proteção Social Especial – PSE

3.4.2.2 A Alta Complexidade

acompanhamento a famílias com um ou mais de seus membros em situação de ameaça ou violação de direitos” (BRASIL, 2011, p. 48). Mesmo considerando o atendimento a “indivíduos”, observamos que a família, em variadas versões de organização, é tomada como unidade de referência para as intervenções desse serviço. O CREAS, de forma geral, e o PAEFI, de forma específica, deve ter os seguintes norteadores em suas ações cotidianas:

 O fortalecimento da função protetiva da família;

 A construção de possibilidades de mudança e transformação em padrões de relacionamentos familiares e comunitários com violação de direitos;

 A potencialização dos recursos para a superação da situação vivenciada e a reconstrução de relacionamentos familiares, comunitários e com o contexto social, ou construção de novas referências, quando for o caso;

 O empoderamento e a autonomia;

 O exercício do protagonismo e da participação social;

 O acesso das famílias e indivíduos a direitos socioassistenciais e à rede de proteção social; e

 A prevenção de agravamentos e da institucionalização (BRASIL, 2011, p. 51). A metodologia de trabalho do PAEFI é composta de atividades de Acolhida, Acompanhamento Psicossocial, Entrevista, Visita Domiciliar, Intervenções Grupais, Articulação em Rede, Registro de Informação (prontuários e relatórios técnicos), Reunião de Equipe, Reunião para Estudo de Caso.

3.4.2.2 A Alta Complexidade

Igualmente articulada ao Sistema de Garantia de Direitos, a Alta Complexidade é composta por serviços que oferecem a famílias e indivíduos o acolhimento provisório fora do núcleo familiar de origem, por intermédio de unidades adequadas à proteção integral, construção de vínculos familiares e/ou comunitários, bem como promoção de autonomia. Integram a Proteção Social Especial de Alta Complexidade os serviços de Acolhimento Institucional (Abrigo, Casa-Lar, Casa de Passagem, Residência Inclusiva), Acolhimento em República;

Acolhimento em Família Acolhedora e Proteção em situações de calamidade pública e emergência (MDS, 2009b).

Pelo recorte de nossa pesquisa, destacamos a modalidade de acolhimento institucional Casa-Lar, que visa aproximar-se do funcionamento de um ambiente doméstico, de rotina familiar, realizando o acolhimento em unidades com estrutura de residências privadas, onde pelo menos uma pessoa ou casal resida na casa. Em função dessas características, sugere-se que o número máximo de crianças e adolescentes seja de dez para cada casal ou dupla de educadores/cuidadores residentes. Essa modalidade, cuja existência no Brasil é anterior ao ECA, apresenta aspectos positivos na comparação com os antigos orfanatos, mas seu funcionamento exige manejos bastante complexos. A equipe mínima desse serviço deve ser composta por coordenador, equipe técnica, educador/cuidador e auxiliar de educador/cuidador. Obrigatoriamente, a equipe técnica deve contar com assistente social e psicólogo, sendo desejável sua ampliação de forma a se obter uma equipe interdisciplinar (MDS, 2009a).

As casas-lares são responsáveis pelo suporte e encaminhamentos relativos ao cotidiano de crianças e adolescentes abrigados, o que inclui o “[...] fortalecimento dos vínculos familiares e sociais, e oferecimento de oportunidades para a (re) inserção na família de origem ou substituta” (MDS, 2009a, p. 74). No intuito de sistematizar as informações e integrar em um só documento a história de cada criança-adolescente, a equipe técnica deve elaborar um Plano Individual de Atendimento (PIA)23. Para tanto, devem ser escutadas a criança-adolescente, familiares e pessoas significativas que compõem suas relações do cotidiano de forma a melhor compreender a dinâmica de cada situação. Ainda, a elaboração do Plano deve contar com a ajuda do Conselho Tutelar e, se possível, da equipe técnica da Justiça da Infância e da Juventude.

O Plano Individual de Atendimento deverá nortear o trabalho realizado na Casa-Lar na elaboração de estratégias de intervenção cabíveis em cada caso, considerando os seguintes aspectos: desenvolvimento saudável da criança e do adolescente durante o período de acolhimento; investimento nas possibilidades de reintegração familiar; acesso da família, da criança ou adolescente a serviços, programas e ações das diversas políticas públicas e do terceiro setor que contribuam para o

23 Em Santa Catarina, a referência do PIA está disponível em <http://cgj.tjsc.jus.br/ceja/piacompleto.doc>. As instituições podem fazer ajustes nesse documento, conforme suas especificidades.

alcance de condições favoráveis ao retorno ao convívio familiar; investimento nos vínculos afetivos com a família extensa e de pessoas significativas da comunidade; encaminhamento para adoção quando esgotadas as possibilidades de retorno ao convívio familiar.

Desta forma, funciona como documento que orienta a equipe técnica na elaboração de relatórios semestrais a serem enviados ao Poder Judiciário no intuito de avaliar se a criança-adolescente permanece ou não no serviço de acolhimento e, na hipótese de saída, se haverá retorno à família de origem, extensa ou encaminhamento a família substituta.

Quando do desligamento da criança-adolescente do serviço de acolhimento institucional, uma equipe técnica – em princípio desta instituição – deverá acompanhar o caso de forma a avaliar se tal decisão foi bem sucedida. Na hipótese de serem evidenciadas dificuldades, essa equipe deve propor intervenções na direção de evitar a reincidência de acolhimento. Não havendo reversão nessas dificuldades, serão buscadas estratégias para lhes fazer frente, podendo ocorrer novo abrigamento pelas vias legais cabíveis.

Neste capítulo visamos apresentar ao leitor o Sistema de Garantia de Direitos (SGD). As decisões sobre a retirada de crianças e adolescentes de suas famílias ou serviços de acolhimento estão inseridas nesse Sistema, organizado através dos eixos de Controle, Defesa e Promoção de Direitos. Como exposto, o SGD é amplo e complexo. Uma descrição detalhada e sua total inclusão no campo do presente estudo se mostraram tarefas inviáveis frente aos limites impostos para a realização de uma pesquisa, levando ao imperativo de efetuar recortes. A primeira delimitação do campo levou à exclusão do eixo do Controle, sendo mantidos no recorte do campo de pesquisa os eixos da Defesa e da Promoção. Nesses dois eixos um segundo recorte foi estabelecido, considerando agora a possibilidade de maior implicação de determinados serviços nos processos de decisão aqui destacados.

Retomando, o campo de pesquisa teve como configuração final a inclusão de Conselho Tutelar, Promotoria da Infância e Juventude, Juizado da Infância e Juventude e Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Em relação a este último, foram destacados o Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEFI) e Serviço de Acolhimento (Casa-Lar). Em capítulo específico sobre as estratégias de produção do conhecimento apresentaremos de forma detalhada como tais serviços e profissionais que neles atuam foram acessados e incluídos em nossa pesquisa.

Considerando o exposto até este momento, para contextualizar o tema de pesquisa, apresentaremos a seguir os pressupostos teóricos que deram

estofo à problematização sobre o ato de decidir e as situações de decisão para retirada de crianças e adolescentes de suas famílias ou serviços de acolhimento.

4 CIÊNCIA E PAIXÃO: RACIONALIDADE, DESEJO E A

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