Não é possível avaliar, com exatidão, o papel histórico mundial do tráfico de escravos da África, senão através de uma estimativa, a mais próxima possível da realidade, do volume desse comércio ao longo dos séculos. A esse respeito, consideráveis progressos foram feitos, a partir de estimativas publicadas em 1969, por P. D. Curtin11, na avaliação de sua parte mais importante, isto é, o
tráfico transatlântico. Desde então, outros especialistas publicaram resultados de pesquisas detalhadas, apoiando -se em diferentes elementos de tais estimativas. A tabela 4.1 oferece uma comparação dessas estimativas com aquelas de Curtin, para os componentes correspondentes12.
Essa tabela permite igualmente constatar que todos os resultados das pesqui- sas efetuadas, desde 1976, tendem a comprovar a subestimação dos números de Curtin. Grande parte do tráfico transatlântico de escravos ainda não foi deta- lhadamente estudada. As pesquisas dedicadas, por David Eltis, às importações brasileiras de escravos, entre 1821 e 1843, mereceriam ser estendidas aos sécu- los XVI, XVII e XVIII. O volume das exportações de escravos realizadas pela Grã -Bretanha, nos séculos XVI e XVII, ainda não foi alvo de uma contagem minuciosa. O mesmo verifica -se no tocante a várias outras partes do tráfico. 9 O período 1500 -1800 é habitualmente considerado como a era do mercantilismo, marcada essen-
cialmente pela luta, entre países da Europa Ocidental, pela dominação, em seu exclusivo proveito, do comércio mundial, então em plena expansão.
10 Segundo a análise de Marx, as formações sociais pré -capitalistas são constituídas pelo modo de produção comunista primitivo, pelo modo de produção antigo, pelo modo de produção baseado no escravismo e pelo modo de produção feudal. Existem algumas outras variantes dos modos de produção pré -capitalistas. Para uma análise útil dos problemas colocados pelas formações sociais pré -capitalistas, ver J. G. Taylor, 1979.
11 P. D. Curtin, 1969.
Autor Componente estimado estimado de Número escravos
Número estimado por Curtin sobre o mesmo componente Porcentagem de diferença J. E. Inikori Exportações britânicas da África 1701-1808 3699572 2 480 000a 49.2 C. A. Palmer Importações espanholas de escravos 1521-95 73 000 51 3000b 42.3 E. Vila Vilar Importações espanholas de escravos 1595-1640 268 664 132 600c 102.6 L.B. Rout Jr. Importações espanholas de escravos 1500-1810 1 500 000 925 100d 62.1 D. Eltis 1977 Exportações transatlânticas de escravos 1821-43 1 485 000 1 104 950f 34.4 D. Eltis 1979 Importações brasileiras de escravos 1821-43 829 100 637 000e 30 D. Eltis 1981 Exportações transatlânticas de escravos 1844-67 634 700 539 384g 17.7 R. Stein Exportações francesas de escravos 1713-92/3 1 140 257 939 100h 21.4
a J. E. Inikori, 1976; P. D. Curtin, 1969, tabela 41, p. 142. b J. E. Inikori, 1976; P. D. Curtin, 1969, tabela 5, p. 25. c P. D. Curtin, 1969, tabela 5, p. 25.
d P. D. Curtin, 1969, tabela 77, p. 268.
e P. D. Curtin, 1969, tabela 67, (p. 234) e tabela 80 (p. 280). f P. D. Curtin, 1969, tabela 67, (p. 234) e tabela 80 (p. 280). g P. D. Curtin, 1969, tabela 67, (p. 234) e tabela 80 (p. 280). h P. D. Curtin, 1969, tabela 49, p. 170.
Fontes: J. E. Inikori, 1976; C.A. Palmer, 1976, PP. 2-28; E. Vila Vilar, 1977b, PP.206-9; L. B. Rout Jr, 1976; D. Eltis, 1977, 1979, 1981; R.Stein, 1978; P. D. Cutin, 1969.
Quando essas pesquisas consumarem -se, poderemos dispor de números globais inteiramente sustentados pelos trabalhos de especialistas. Todavia, as estimativas resultantes das pesquisas realizadas, desde 1976, fazem nitidamente aparecer uma configuração que nos permite inferir, razoavelmente, estatísticas para o conjunto desse comércio. A respeito dessas estimativas, importa destacar sua abrangência sobre todos os séculos nos quais o volume do tráfico fora relevante. Portanto, as mais substanciais revisões para cima a serem feitas, a respeito das estimativas de Curtin, devem referir -se, sobretudo, aos séculos XVI e XVII, épocas para as quais estudos mais detalhados ainda são necessários.
Em função da amplitude e da distribuição das correções que se impuseram, após as pesquisas realizadas a partir de 1976, uma revisão de aproximadamente 40% para cima, nos números globais de Curtin, levaria a um nível razoavel- mente próximo do real volume do tráfico transatlântico. O total, da ordem de 11 milhões de escravos exportados, ao qual chegaram as estimativas de Curtin, passaria assim a 15.400.00013.
No que diz respeito ao tráfico pelo Saara, pelo Mar Vermelho e pelo Oce- ano Índico, as estimativas disponíveis não são tão confiáveis, pois se baseiam em um conjunto de dados menos fidedignos, com exceção, todavia, daquelas de Raymond Mauny14 e Ralph Austen15. Mauny contabiliza 10 milhões de escravos
para o período 1400 -1900 e Austen chega a um total de 6.856.000 para o perí- odo 1500 -1890, ou seja, 3.956.000 para o tráfico transaariano e 2.900.00 para o tráfico do Oceano Índico e do Mar Vermelho. Em seu conjunto, as estimativas de Austen aparentemente sustentam -se em bases mais confiáveis e devem, con- seqüentemente, gozar da preferência ante àquelas de Mauny. Assim, em termos gerais, chegamos a aproximadamente 22 milhões de indivíduos exportados da África negra em direção ao resto do mundo, entre 1500 e 1890.
13 Paul Lovejoy deu uma interpretação, no mínimo surpreendente, dos resultados dessas pesquisas. Ao invés de examinar a configuração das revisões provenientes de tais pesquisas e de proceder por inferên- cia estatística, ele retém delas um conjunto discutível de números, mistura -os aos números de Curtin não revisados (que constituem uma importante proporção do total) e chega ao que ele denomina uma “nova estimativa”. Segundo ele, essa nova estimativa confirma a exatidão das primeiras estimativas de Curtin. Ver P. E. Lovejoy, 1982. Além dos erros de apreciação de sua seleção, o fato mais curioso de sua “estimativa” consiste no emprego dos números de Curtin para confirmar a exatidão de seus próprios índices. Isso é ainda mais curioso se considerarmos as pesquisas realizadas a partir de 1976, as quais demonstram que, sem dúvida alguma, os números propostos por Curtin, para o período anterior a 1700, são aqueles merecedores das mais importantes revisões para cima. Ora, eles também são os mais usados por Lovejoy. Em minha opinião, seu método não é recomendável. Se formos obrigados a usar números globais em nossos diversos trabalhos, antes das pesquisas necessárias serem levadas a cabo, o melhor é recorrer à inferência estatística com base em resultados de pesquisas mais recentes.
14 R. Mauny, 1971. 15 R. A. Austen, 1979.