Observações globais da atividade
3.4 A análise da demanda na ergonomia brasileira
3.4.2 A análise da demanda no contexto da ergonomia brasileira
No Brasil, a análise da demanda é pouco utilizada, sobretudo na literatura. Embora possamos encontrar algumas publicações sobre o tema, constatamos restrita discussão no tocante à noção de construção do problema e compreensão do estado social vigente para elaboração da construção social. A maior parte da literatura brasileira, considera a demanda o problema inicial, e nesta perspectiva a análise da demanda não se justifica.
No sentido contrário à tendência hegemônica, surge então o manual de aplicação da NR (norma regulamentadora-17) já mencionado acima. Nele a análise da demanda é citada (item 17.1.2., p. 14) justificando sua importância (MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, 2002).
Desta forma, a atualização da norma prevê: “Sempre que uma empresa for notificada a realizar uma AET, os responsáveis devem ter clareza do objeto de análise (...) A demanda deve ser estudada para situar o problema a ser analisado e para direcionar a análise (...)”.
Embora de maneira concisa, o manual expõe algumas considerações acerca da análise da demanda (Ministério do trabalho e emprego, 2002):
- a definição das situações de trabalho a serem estudadas parte necessariamente da demanda, dos primeiros contatos com os operadores e das hipóteses iniciais que já começam a ser formuladas;
- a demanda deve ser estudada para situar o problema a ser analisado e direcionar a análise. Esta pode ser reconstruída pelo ergonomista e seus interlocutores, sendo que se pode chegar a conclusão de que a origem do problema não era bem o que havia sido explicitado anteriormente, mas algo que ainda não estava muito claro para os envolvidos. O auditor-fiscalpode aceitar, por exemplo, a reformulação de sua notificação, principalmente se ficar demonstrado que na etapa de análise da demanda, houve a participação dos diferentes atores sociais e, a partir dessa situação, ficar caracterizado que um outro posto, ou uma outra situação mais grave foi identificada e merece ser enfrentada prioritariamente, em relação àquela notificada.
3.4.2.1 A valorização da análise da demanda no Brasil
Uma revisão sistemática e metanálise da etapa de análise da demanda foram realizadas no caso de 219 artigos publicados pela Associação Brasileira de Ergonomia – ABERGO. Os procedimentos desta pesquisa bibliográfica serão descritos no capítulo intitulado metodologia.
Do total de 219 artigos analisados, 173 não apresentaram como metodologia, a análise ergonômica do trabalho segundo a ergonomia da atividade profissional – escola francesa; e 46 artigos utilizaram a AET como metodologia, o que corresponde aproximadamente a 21%. Entre estes últimos, somente 5 artigos descrevem a etapa de análise da demanda, isto é, aproximadamente 13% dos artigos que têm como metodologia a análise ergonômica do trabalho, falam e/ou utilizam a análise da demanda.
Entre os artigos que citam terem realizado esta etapa, dois não apresentaram a noção de construção do problema, pois o problema era considerado um dado a priori; e três apresentaram a noção de construção do problema.
Além disso, ao considerar o total (219) de artigos apresentados no congresso avaliado, aproximadamente 2,7% citam ter realizado a referida etapa.
Como já foi dito, dois artigos não apresentaram a noção de construção do problema, o problema era considerado um dado preestabelecido.
Castro, C. et al (2002), por exemplo, ao apresentar um estudo de caso em uma cozinha hospitalar, expõe o que chama de análise da demanda, como sendo a descrição geral do funcionamento do centro médico à qual a cozinha pertencia. Em seu estudo, esta etapa finaliza com o relato da função da cozinha e com a definição do instrumento a utilizar na análise do posto considerado. Nesta fase, que os autores chamam de instrução da demanda, não aparece a demanda inicial nem a reformulação desta, ou seja, não realizou-se a etapa de análise da demanda.
Em um outro artigo, Gomes et al (2002), ao realizar a análise da demanda na coordenação geral de operações aéreas, concluiu que deveria optar-se por uma análise focada nos salvamentos no mar, pois esta função foi a que apresentou o maior número de queixas dos trabalhadores. Para efetuar esta etapa foi utilizado o critério de queixa e de acesso, isto é, a situação com o maior número de queixas e onde o estudo poderia ser realizado. Portanto, utilizou-se uma ferramenta estatística para escolha da situação a ser estudada, sem levar em consideração os pontos de vista dos atores sociais, as descrições do trabalho, as representações, as contradições, a diversidade de lógicas e as relações sociais presentes. Quer dizer, não houve análise da demanda, pois o problema era um dado a priori – o maior número de queixas dos trabalhadores.
Entretanto, a noção de construção do problema pôde ser constatada em três artigos.
Amaral e Matos (2002), no artigo intitulado “Avaliação Ergonômica do Trabalho de um tratador de grandes felinos na fundação Jardim Zoológico da cidade do Rio de Janeiro”, a partir da demanda inicial - problemas de segurança, conforto físico e mental dos tratadores - realizaram a etapa de análise da demanda, fazendo uma caracterização dos problemas (rotatividade de pessoal e contratação, absenteísmo, problemas de segurança, condições ambientais e fadiga mental e física) e definindo a estratégia de intervenção: escolha da situação de maior risco (situações em que os tratadores se relacionam com animais de grande porte) para a análise da atividade do tratador.
Mendes et. al. (2002) no estudo ergonômico dos vendedores ambulantes de praia, realizaram a etapa de análise da demanda, partindo da demanda inicial – queixas de dores nas costas, na qual foram explicitados os problemas, e caracterizada a problemática de intervenção – problemas de equipamento, de processo e doenças do sistema osteomuscular.
Santos, Aouar e Coelho (2002) no estudo ergonômico de uma empresa de prestação de serviços de copiadora realizaram a etapa de análise da demanda na qual pôde-se definir a problemática de intervenção – problemas organizacionais, de espaço e arranjo físico, e processo.
4. METODOLOGIA
Para investigar a etapa de análise da demanda, no estudo ergonômico da lavanderia hospitalar, serão descritos previamente o modelo da prática profissional considerado e a corrente da pesquisa sobre a prática da ergonomia que fundamentou este estudo. Posteriormente se apresentará a metodologia de constituição e tratamento dos dados, e o método da narrativa/história utilizado também como material de pesquisa.