• Nenhum resultado encontrado

4 O DISCURSO SOBRE A FORMAÇÃO CONTINUADA

4.1 A análise do discurso: categorias centrais

A Análise do Discurso (AD) de linha Francesa, que teve como fundador Michel Pêcheux nos anos finais da década de 60 do século XX, alinhada com o Materialismo Histórico e Dialético de Marx consiste em uma abordagem teórico- metodológica voltada para o estudo do discurso, entendido enquanto constituído pela língua, pela história e pela ideologia. No campo dos estudos da AD o Discurso passa a ser o objeto de investigação considerando-se a sua historicidade nas relações sociais estabelecidas em uma determinada formação social.

Nesse sentido, Pêcheux afirma que “todo discurso é índice de agitação nas filiações sócio-históricas” (PÊCHEUX, 2002, p. 45 apud FLORÊNCIO et. al, 2009, p. 24). Seguindo na mesma direção Orlandi (2013, p. 21), entende o discurso como “produção de sentidos”. Ou seja, o que se busca é analisar os sentidos que um determinado discurso produz. A produção dos sentidos de um discurso depende das suas condições de produção, de quem o produz, para quem está sendo produzido, etc. Portanto, para essa autora o discurso é acima de tudo “efeito de sentidos entre locutores” (idem, 21). Sendo assim, quem produz um discurso, ao fazê-lo tem uma intencionalidade, o que nos leva a afirmar que o discurso não é neutro.

Se concebermos o discurso como um ato histórico que produz sentidos de acordo com as relações sociais estabelecidas dentro de uma determinada formação social, precisamos entender melhor como estas relações se estabelecem na formação social capitalista.

Uma das características principais de uma formação social é a existência de vários modos de produção operando em seu interior. De acordo com Bresser- Pereira (1981):

Uma formação social concreta envolve modos de produção que se superpõem. É difícil encontrar uma formação social onde exista apenas o modo de produção dominante. [...] Em cada formação social, encontramos vestígios de um ou mais modos de produção anteriores, uma clara evidência do modo de produção dominante e sinais de um modo de produção emergente. (BRESSER-PEREIRA, 1981, p. 23)9

Para um modo de produção se consolidar como dominante e manter sua hegemonia dentro de uma determinada formação social ele precisa produzir as condições de sua existência, que são em última instância, as condições de produção dos meios de reprodução. Para Althusser, Marx foi quem melhor representou a estrutura da sociedade dentro do sistema capitalista, ao conceber que toda sociedade é composta por dois níveis: infraestrutura e superestrutura e que a relação que se estabelece entre eles garante a reprodução das condições de produção que faz com que o modo de produção capitalista se mantenha dominante.

A infraestrutura, também conhecida como base econômica é onde se estabelecem as relações de produção; já a superestrutura se subdivide em duas instâncias: jurídico-política e ideológica. Esta discussão é realizada por Althusser, (1985, p. 109):

Afirmamos (e essa tese só repetia proposições famosas do materialismo histórico) que Marx concebeu a estrutura de cada sociedade como sendo constituída por „níveis‟, ou „instâncias‟, articulados por uma determinação específica: a infraestrutura ou base econômica (a „unidade‟ das forças produtivas e das relações de produção) e a superestrutura, que por sua vez contém „níveis‟, ou „instâncias‟: a jurídico-política (o direito e o Estado) e a ideologia (as diferentes ideologias, religiosa, ética, política, etc.).

Na infraestrutura acontecem as relações de produção, onde se produzem as condições para sustentação de toda a estrutura, uma vez que toda e qualquer formação social necessita se reproduzir para se manter, e para se reproduzir ela necessita produzir as suas condições de reprodução.

As relações de produção são constituídas em dois polos, de um lado, os capitalistas que necessitam manter relações de produção com trabalhadores, que detém a força de trabalho, do outro lado, os trabalhadores que necessitam manter as relações de produção com os capitalistas, uma vez que estes têm o controle dos

9

Artigo escrito por Luiz Carlos Bresser-Pereira, com o título “Classes e estratos sociais no capitalismo contemporâneo”. (Ensaio não publicado, escrito em 1981). Disponível em: <http://www.bresserpereira.org.br/papers/1981/81-classstrata.p.pdf>. Acesso em 18 abr. 2015.

meios de produção. É a reprodução dessas relações que garante a manutenção do sistema capitalista.

São os mecanismos de produção das condições de produção que geram no interior do sistema capitalista a divisão de classes sociais que, por sua vez, movem um processo de disputa entre elas, o que cedo ou tarde, estabelece uma relação de dominação de uma sobre a outra, e isso contribui para a formação de uma sociedade marcada pela luta de classes.

É na luta de classes que o aspecto ideológico exerce função primordial na produção e na reprodução dos meios de manutenção ou transformação do sistema de produção. É nesta relação que uma classe vai se impondo a outra e se tornando dominante, enquanto a outra vai ficando cada vez mais à margem, se tornando subalterna. Neste processo existem vários instrumentos de que as classes se apropriam para exercer seu controle sobre a outra, que vão desde os determinantes socioeconômicos, passando pelo uso da força, até a imposição ideológica como forma de divulgação e consolidação dos valores e crenças que defendem como sendo os melhores ou os únicos possíveis.

Uma das estratégias utilizada pelo Capital para manter seu controle sobre os trabalhadores é a tentativa de hegemonização e universalização de seus mecanismos de controle, tais como o conhecimento, o poder, as formas de consumo, a cultura, etc. e para isso faz uso de diferentes instrumentos de coerção. Hoje, na sociedade capitalista, as duas estratégias mais utilizadas são o uso da força e a imposição ideológica, o que Althusser (1985), chamou “Aparelhos Repressores de Estado e Aparelhos Ideológicos de Estado”, respectivamente.

Dada a importância da conjuntura socioeconômica e política no processo de análise do discurso, faz-se necessário refletirmos sobre as Condições de Produção do Discurso.